Acabou a metade do campeonato que mais interessa às equipes da região na principal competição estadual do País, a Série A-1 do Campeonato Paulista. Santo André, São Bernardo e Água Santa de Diadema disputaram seis das 12 partidas da fase classificatória e rebaixatória.
Rebaixatória? Vale o neologismo, porque isso é o que de fato está em jogo para o trio regional. O que vier além disso é lucro, muito lucro. No caso, o lucro maior poderá ser o do São Bernardo, cotado para chegar às quartas de final.
A linha de corte de risco maior de rebaixamento é de 33% de aproveitamento, ou seis dos 18 pontos disputados. O Santo André ganhou exatamente seis, o Água Santa sete e o São Bernardo 11.
Não é preciso desenhar que o São Bernardo já está praticamente livre da Série A-2, o Água Santa com um pé fora da turbulência e o Santo André comprometido. Mas essas conclusões não estão exclusivamente presas aos números. O desempenho deve ser conectado às estatísticas mais relevantes.
COMEÇO DA DECISÃO
A segunda metade da fase classificatória e rebaixatória começa neste meio de semana. É muito importante, a partir de agora, domar o estado emocional e ter atenção redobrada com o crescimento técnico e tático das equipes que contam com calendário nacional.
Quem não conta – e nenhuma das equipes da região conta – precisa ter cuidados redobrados. Agora a camisa no sentido mais pragmático da expressão, ou seja, a estrutura de atuação anual, pode fazer a diferença. Camisa vazia, ou seja, camisa sem calendário, é camisa fadada ao fracasso.
O Santo André poderia estar vivendo situação bem diferente se não houvesse desperdiçado tantos pontos nos minutos suplementares do segundo tempo. Foi um ponto contra o São Paulo, dois contra o Mirassol e um contra a Ferroviária de Araraquara. Cinco pontos não são pouca coisa.
Dificilmente o São Bernardo e o Água Santa teriam perdido esses pontos. As duas equipes que completam o trio regional contam com algumas características coletivas mais sustentáveis que o Santo André. O Água Santa é o time regional de melhor acabamento de jogo, mais agradável aos olhos. O São Bernardo é o time mais competitivo. Um time em que a plástica vale pouco, porque numa competição de tiro curto o que vale mesmo é a cara feia em cada bola dividida. O Bragantino/Red Bull que o diga.
ENTENDA AS DIFERENÇAS
Vou tentar explicar as diferenças entre as três equipes da região tendo o Santo André como referencial sintetizador.
A equipe ramalhina (não gosto dessa expressão, mas vamos lá) não tem a qualidade de posse de bola, de aproximação, de refinamento entre as linhas que o Água Santa exibe.
E tampouco tem a competitividade do São Bernardo. Competitividade no sentido de morder a bola em cada centímetro quadrado, fechando-se disciplinadamente e fazendo do contragolpe a melhor alternativa de ataque.
O Santo André não é um time qualquer, que fique bem claro. É mais pragmático que o Água Santa e mais encorpado entre as linhas que o São Bernardo, mas isso não o torna melhor que qualquer um dos dois. Diferentemente disso.
O Santo André é inferior exatamente porque não tem intensidade e vibração. Intensidade que o Água Santa começa a impor e vibração que o São Bernardo extrapola.
ARRUMAÇÃO FINAL
O campeonato não está perdido para o Santo André entre outras razões porque conta com uma base filosófica que, se reforçada, dará bons frutos. Mesmo se levando em conta que seis rodadas restantes são alucinação geral.
As equipes passarão a contar com a combinação de desespero e esperança, quer seja para disputarem a próxima etapa, quer seja para fugirem do rebaixamento.
O São Bernardo ganhou um jogo em que parecia satisfeito com o empate já mais que vantajoso contra o Bragantino/Red Bull. Um gol de laboratório, de contragolpe rápido e letal, deu ao São Bernardo um salto triplo em direção não só à fuga do rebaixamento como também rumo às quartas de final.
Ao São Bernardo sobra voluntariedade, transpiração, marcação dura e tudo que um time campeão da Série A-2 deve reunir, e que um time de Série A-1 precisa dispor quando também conta com reforços de qualidade.
ÁGUA MODERNO
O Água Santa é disparado o melhor time da região na competição quando se observa o coletivo como interdependência e qualificação técnica. Ou seja, no sentido de espetáculo, marquem bem essa constatação.
De espetáculo e de envolvimento do adversário. Triangulações, penetrações rápidas, setores mais agrupados, valorização da posse da bola, tudo isso faz do Água Santa um digno representante do futebol clássico.
Mesmo perdendo vários jogos nas primeiras rodadas o Água Santa sinalizava que recuperaria terreno porque o desempenho estava acima do regular. A síndrome do bate-e-volta parece estar fora do radar do time de Diadema.
Bate-e-volta porque nas vezes anteriores em que subiu, desceu ineditamente logo em seguida. O técnico Sérgio Guedes parece que encontrou a confiança dos dirigentes que não lhe deram um trança-se após os insucessos iniciais.
FALTAM ESTATISTICAS
Procurei no site da Federação Paulista de Futebol dados que me direcionassem a descobrir a realidade estatística da Série A-1 do Campeonato Paulista no que diz respeito às possibilidades matemáticas de queda para quem terminou os seis primeiros jogos entre os últimos colocados. Não os encontrei.
Sei que sei de memória que o rebaixamento é mais potencialmente programável quando não se ultrapassam 33% de aproveitamento nessa primeira etapa.
Tudo isso que o leitor leu até agora precisa ser colocado no devido departamento de cautela interpretativa.
Assumo publicamente que estou especulando em cima do que vi e o que vi não foi o suficiente para garantir que não estou com um pé numa insegurança típica de quem sabe que não se deve acreditar que se vê todo o quarto olhando pelo buraco da fechadura.
Talvez tenha assistido a 30% das respectivas minutagens das três equipes da região. Quanto muito. Se me meto nessa avaliação é porque confio no meu taco de observador de futebol, mas adianto que o taco nestas circunstâncias pode estar escorregadio. Admito que corro risco de quebrar a cara.
Jamais escreveria sobre outro assunto, exceto futebol, sem contar com ingredientes robustos. Mas futebol permite isso.
CLUBE-EMPRESA
Tem muita gente na crônica esportiva com 100% de minutagem de determinadas equipes e constroem análises alarmantes. Ou deixam vazios impactantes. Principalmente quando se têm preocupação demais com o politicamente correto.
Tanto o Água Santa quanto o São Bernardo têm modelos diretivos que impõem ao Santo André uma mudança de rumo, embora não se pretenda dizer que deva seguir o mesmo rumo do Água Santa ou do São Bernardo.
A passagem para clube-empresa se impõe diante de concorrência cada vez mais forte. Enfrentar essa artilharia tanto interna quanto externa é tarefa insana.
O modelo associativista do Santo André tem os dias contados. É virar clube-empresa nos moldes modernos e com compromissos sociais ou descer ainda mais na hierarquia do futebol.
Mas agora não adianta botar o carro da reestruturação organizacional externa à frente dos bois da competividade dentro de campo. O Santo André não está distante de forma insolúvel tanto do Água Santa quanto do São Bernardo.
REPAROS URGENTES
Para ganhar a tessitura técnico-operacional do mais arrumado Água Santa, basta intensificar treinamentos específicos e traduzir posse de bola em algo que o técnico da Seleção Brasileira chamaria de penetrabilidade. Mas também deve adicionar o que chamaria de capacidade de dissuasão que, na linguagem futebolística, significa cozinhar o galo quando o placar é favorável.
Para reduzir a diferença em relação ao São Bernardo, uma porção de aguerrimento durante mais tempo de cada jogo é o melhor remédio.
O Santo André conta com dois jogos mais decisivos que outros jogos decisivos: enfrentará o Novorizontino hoje no Estádio Bruno Daniel e mais adiante, na rodada derradeira, o Internacional de Limeira. Novorizontino e Internacional são parceiros do agrupamento dos quatro últimos colocados. A Ferroviária de Araraquara também está na lista de rebaixáveis. Menos dramaticamente após o empate salvador com o Santo André, que, com um a mais, não soube impor-se.
Esses dois jogos -- Novorizontino e Internacional -- valem a manutenção na Série A-1. Afinal, com 12 pontos, as estatísticas demonstram que o rebaixamento estaria fora de perspectiva. Mas não custa nada somar mais um.
Treze na cabeça. Sem conotação político-partidária, claro?
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