Esportes

Prefeito de Sexta Divisão quer
tomar um clube de Primeira

DANIEL LIMA - 23/02/2022

O prefeito Paulinho Serra dirige uma Prefeitura, um Município, de Sexta Divisão no Campeonato Paulista de PIB Per Capita. O Esporte Clube Santo André está entre as 16 equipes da Primeira Divisão (Série A-1) do Campeonato Paulista de Futebol.  

O prefeito tucano tem muito a fazer para a correção de uma rota que começou a ser violentamente alterada há mais de 40 anos. Portanto, tem muito a fazer além de obras varejistas que são importantes, mas não mudam o curso da história.  

Por isso, Paulinho Serra precisa mandar desativar a artilharia pesada mobilizada para dificultar a história do Esporte Clube Santo André.  

A concessão do Estádio Bruno Daniel, construído para o Santo André, é o pomo da discórdia e de ambições desregradas.  

ALGOZ HISTÓRICO  

Ou o prefeito Paulinho Serra aciona as baterias para colocar um fim nisso tudo e deixar o Esporte Clube Santo André cuidar da própria vida, fazer as próprias escolhas sem embaraços e pedras adicionais no caminho, ou vai entrar para a história como algoz do maior patrimônio cultural do Município.  

Vou publicar amanhã uma análise específica sobre a Sexta Divisão de Santo André no Campeonato Estadual de PIB Per Capita.  

A conclusão a que cheguei para estabelecer essa hierarquia é fácil de entender. Fiz analogia ao Campeonato Paulista de Futebol.  

A Série A-1 do Paulista conta com 16 equipes. O Santo André, fundado há 55 anos, está entre os clubes. Já a cidade de Santo André, fundada e afundada parcialmente ao longo de décadas, ocupa a 110ª posição (isso mesmo, centésima-décima colocação) no PIB Per Capita Paulista. Basta dividir 110 por 16 e chegamos à Sexta Divisão. Muito próxima de rebaixamento à Sétima Divisão.  

MÁQUINA E MEMÓRIA  

Vou destrinchar esse assunto e os conceitos que o regem na edição de amanhã. Simplificadamente é isso. Simplificadamente é força de expressão. O caso de Santo André (e dos municípios do Grande ABC em processo contínuo de esvaziamento econômico) é gravíssimo. Desde que lancei a revista LivreMercado em março de 1990 bato nessa tecla. O Grande ABC de hoje é pior do que o Grande ABC daquele ano.  

Minha máquina de escrever mecânica velha de guerra, que guardo como recordação dos tempos de barulho infernal numa redação, não se desgastou tecnologicamente tanto no tempo quanto o Grande ABC em pobreza e miséria, além de esfacelamento da classe média.  

Com aquela máquina posso escrever o que quiser, mesmo que tenha de me readaptar ao dedilhar mais rudimentar. Com o Grande ABC do passado na memória e escritos o máximo que posso fazer é chorar o presente de esgarçamento social, econômico e cultural.  

Coloco o prefeito Paulinho Serra diretamente no caso que envolve a concessão do Estádio Bruno Daniel, como tenho insistido em analisar nos últimos anos, porque é a pura realidade. Basta ver o que ocorreu ontem. 

INTERVENÇÃO CLARA  

Depois de ouvir atentamente uma conflitiva articulação verbal mas mesmo assim esclarecedora entrevista do secretário de Esportes de Santo André, Marcelo Chehade, não existe mais dúvida: o prefeito Paulinho Serra e sua turma querem atrapalhar o Esporte Clube Santo André ao meter o bedelho administrativo e político onde jamais deveria: interferindo na concessão do Estádio Bruno Daniel muito além do limite institucional. 

Quem acha que isso é pouco, porque sempre tem alguém que acha que o Poder Público pode tudo, que o Poder Público é supremo, inverta então a situação: imagine dirigentes do Esporte Clube Santo André dando ordens no gabinete do prefeito Paulinho Serra, do supersecretário José Police Neto e também na secretaria do secretário falastrão.  

O desempenho entreguista do secretário Chehade a um canal de internet (de Marcelo Uvinha) foi tão elucidativo que não resta dúvida de algo que, quando ultrapassa o limite da linha de fundo da cautela, cheira muito mal: fala-se em investidores estrangeiros, em dinheiro de chineses.  

CONVERSA IMPRÓPRIA  

Isso não é conversa para agente público responsável e muito menos para quem está acima dele na hierarquia do Poder Executivo. 

 Mais que isso: o secretário falou com tanto entusiasmo sobre algumas obras no Estádio Bruno Daniel, inclusive do gramado artificial que não é a maravilha divulgada, a ponto de se imaginar que atua mais como mascate do que como agente público.  

Dinheiro do futebol, dívidas do futebol, contratações de jogadores, contratação de técnicos, tudo isso é atribuição de clubes de futebol, associativos ou empresariais.  

Quando um agente público fala com sofreguidão sobre o assunto, como se agente empresarial fosse, é sinal de que a situação é muito pior do que se imagina. 

FALANDO DEMAIS  

Marcelo Chehade disse o suficiente para quem tem alguns anos de janela ouvindo o que interessa nas entrelinhas.  

Aliás, no caso, não foram nem nas entrelinhas: o secretário municipal é de um perfil já conhecido que não resiste a um microfone ao contar tudo o que sabe e até o que não sabe de forma espetaculosa.   

Está explicada a razão de o prefeito Paulinho Serra e sua turma não se manifestarem oficialmente sobre a concessão do Estádio Bruno Daniel.  

Como dizer ao público em geral algo que não seja a verdade que está nos bastidores e que justamente por estar nos bastidores é uma tapeçaria de alto valor?  

O assunto é delicado e arriscado demais porque não se exaure nos limites republicanos. Invade a seara alheia. É invasão de domicílio.   

CLUBE DE JOELHOS  

O que se pretende é colocar o Santo André de joelhos. Quem sabe até encampá-lo em ações ardilosas que surgem com a dissidência diretiva interna a mando de terceiros.  

Não existe mais nenhuma dúvida de que a Administração Municipal quer mesmo melar o futuro do Santo André que passa obrigatoriamente pela concessão exclusiva do Estádio Bruno Daniel, como passa e passou por tantos estádios municipais de equipes que colocam igualmente tantas cidades no mapa de reconhecimento nacional.   

Há muito dinheiro de chineses sendo acenado, pelo menos é o que se depreende das palavras enfeitiçadamente soltas do secretário Chehade.  

Ou seja: a Prefeitura de Santo André que deveria cuidar do futuro da cidade muito além de obras varejistas, porque Santo André é um desfiladeiro econômico, está atuando para interditar o futuro do Esporte Clube Santo André. 

ESTENDENDO PODERES  

Interditar o futuro do Santo André é uma sentença generosa. O que se pretende mesmo é fazer gato e sapato do Santo André. Estender os poderes do grupo político além da imaginação.  

Um totalitarismo do qual a sociedade de Santo André não se dá conta. Ou se dá conta não parou para refletir. E quando não se faz reflexão, a vaca vai para o brejo. Democracia vira fetichismo.  

É um teatro do absurdo um secretário municipal de esportes revelar os planos da chefia, no caso do prefeito Paulinho Serra, e de tantos outros integrantes do Paço Municipal.  

Ou seja: o que se pretende mesmo é fazer do Santo André um quase nada em termos de concessão do Estádio Bruno Daniel.  

APENAS FORMALIDADE  

A cessão seria apenas uma formalidade legal. Há concatenação para criar tantos obstáculos no edital que está sendo preparado exatamente para fazer o Esporte Clube Santo André desistir ou abrir todas as pernas e permitir que invasores tomem conta do futebol da cidade. Em parceria com os mandachuvas de plantão.   

Provavelmente o prefeito Paulinho Serra vai chamar a atenção do destrambelhado secretário de Esportes. A revelação do plano arquitetado por quem acredita que futebol em forma de Sociedade Anônima é um rio de dinheiro a ser explorado é um verdadeiro desastre. Deixa a nu as pretensões da administração municipal.  

Quais são as pretensões da gestão de Paulinho Serra no caso da concessão do Estádio Bruno Daniel?  

Até que venha a público com o cuidado que aprendeu e que não repassou ao secretário Chehade, tem o compromisso de dizer à sociedade que sua gestão está preocupada com a aplicação de recursos financeiros em obras, em projetos, e que na seara de futebol é um perna de pau. Um senhor perna de pau.  

GOLPE PARA TERCEIROS  

Se o golpe contra o Santo André carrega o pressuposto de que é preciso sugerir que alguns terceiros interessados estariam prontos para apresentar propostas, o planejamento acabará dando certo, mesmo que os terceiros em questão sejam de araque, e que as cartas já estejam marcadas. 

Vou explicar: empresas sérias que tenham despertado atenção ao formato de SAF, Sociedade Anônima do Futebol, passarão longe de Santo André quando sentirem o cheiro de brilhantina das artimanhas que se estão articulando.  

Gente séria não entra em bola dividida. Há ofertas em excesso de clubes que querem sair do quadradismo já esgotado do futebol associativo.  

O plano de arrebatamento do Esporte Clube Santo André, ou de submissão do Esporte Clube Santo André, ou de afronta ao Esporte Clube Santo André, esse plano entrou em campo já faz algum tempo e agora, com o secretário boca-mole, está escancarado.  

TAPAS NÃO RESOLVEM  

Não adianta dizerem o contrário. Talvez a saída seja interditar o secretário, desmentir o secretário, dar uns tapas na cara do secretário. Tudo isso, em combinação, poderia ser parte da solução para o problema. A outra parte é insanável: o secretário disse a verdade e a verdade só se alterará quando for transformada em negativa oficial sem direito a mudança no futuro.  

No fundo, cá entre nós, Marcelo Chehade, que pretende ser candidato a alguma coisa nesta temporada, provavelmente a deputado federal, acabou por prestar um enorme favor ao futebol e à imagem, além da cultura de Santo André: ao escorregar no tomate do exagero, do boquirroto, aclarou o jogo do qual já tinha conhecimento este jornalista com base em diversas fontes. 



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