Esportes

O futuro do Ramalhão

DANIEL LIMA - 28/07/2009

Passado mais de um terço da competição, ou exatamente 37% dos pontos previstos, o Santo André vive situação dualística: tanto pode participar da Copa Sul-Americana, ano que vem, mantendo-se a tendência de produtividade de pontos ganhos das primeiras 14 rodadas, como também pode descarrilar.

A julgar pelas últimas rodadas de três derrotas e apresentações abaixo do necessário, o Santo André desabaria na classificação. A acreditar na força do conjunto e provavelmente numa injeção de ânimo com a troca de comando técnico, voltaria a se credenciar senão a frequentar o G4 que o levaria à Taça Libertadores, ao menos a consolidar-se em posições da Sul-Americana.

Durante muitos anos de escolaridade e prática profissional detestei a matemática, a aritmética, mas não há como escapar dessas ciências. Por isso, meto-me de corpo e alma em elucubrações. Por mais que, em campo, futebol seja manancial inesgotável de inventividade e imponderabilidade, apesar de jogadores e treinadores insistirem em esquadrinhar táticas e jogadas sob conceitos de proveta, há espaço reservado à ciência dos números.

Trata-se da classificação, tábua definidora de sucessos e fracassos que, a cada rodada, faz novas vítimas. Sérgio Guedes caiu no Santo André porque despertou nas primeiras rodadas o sonho da Libertadores e nas três últimas ameaçou flerte com o rebaixamento. A distribuição de resultados na competição nacional mais acirrada do planeta modula reações. Tivesse perdido três das cinco partidas de forma mais espaçada, provavelmente Sérgio Guedes ainda estaria no Santo André. Até porque a campanha da equipe que debuta na competição é satisfatória no que mais interessa de fato para efeitos práticos: a tábua de classificação.

A aritmética entra em campo para repetir fórmulas do passado. Para chegar e se sustentar na zona da Libertadores é importante somar pontos equivalentes a pelo menos 57% de tudo que for disputado. É o que detém o Internacional de Porto Alegre após a rodada de domingo, como quarto colocado. Já a zona da Sul-Americana está nos 40% de produtividade do Santos, 12° colocado. O Santo André tem os mesmos 40%, mas perde no critério de desempate. Já a zona de rebaixamento, o chamado G4 do Mal, baliza que o primeiro da lista está condenado se mantiver 31% de produtividade. No caso atual, é o Sport. Menos que isso é encomendar sem apelação a alma à Série B.

Provavelmente porque o torcedor mais frequente de futebol, que consome futebol diariamente, tenha dificuldades para entender números, exceto do placar favorável, a crônica esportiva não faz uso frequente e catequizador do índice de produtividade como ferramenta esclarecedora do desempenho das equipes.

Entretanto, como nas próximas rodadas teremos a quebra de jornadas cheias, com algumas equipes acumulando déficit ou superávit em relação às demais, a sugestão é de aplicar a metodologia mais frequentemente. O staff das equipes mais bem organizadas trabalha com aporte de percentualidade.

O índice de produtividade vale muito mais que a classificação convencional. A diferença entre uma fórmula e outra é que a classificação convencional detecta o momento, o instantâneo, o aqui e agora, o quarto através do buraco da fechadura. A classificação por índice de produtividade é de dupla ação — ao mesmo tempo em que fornece diagnóstico mais dinâmico e interativo da performance atual das equipes, sugere planejamento para toda a competição.

Estar com 17 pontos ganhos após 14 rodadas do Campeonato Brasileiro, 11 abaixo do líder Atlético Mineiro, sete aquém do que seria o ocupante da última vaga à Libertadores, caso do Internacional, empatado com o Santos na última vaga à Sul-Americana e quatro acima do primeiro ocupante da zona do rebaixamento, tudo isso não quer dizer muita coisa.

Quando se utiliza o índice de produtividade, clarifica-se o quadro. Se o Santo André vencer o Corinthians nesta quarta-feira, alcançará a marca de 44,4% de produtividade, o que o colocaria a 13 pontos percentuais do time que abriria a zona de rebaixamento. Entretanto, se perder, a produtividade desceria para 37,7% e o instalaria próximo dos degolados. Já na rodada seguinte, se vencer o Goiás em São Caetano, o Santo André volta a respirar longe da degola.

O Santo André é vítima das próprias ambições. Atribui-se responsabilidade que não deveria ter. A estratégia para a competição deveria concentrar-se em manter a equipe na Série A, sem preocupação deliberada com Libertadores ou Sul-Americana. Deveria definir índice de produtividade confortável sem sair das características técnico-táticas que o levaram ao Acesso, ou seja, utilizar pacientemente o tempo de jogo como fórmula de desgaste físico e emocional dos adversários, na maioria dos casos muito mais tradicionais e com muito mais obrigação de vencer.

O Santo André paciente e inconveniente está deixando de existir. O Santo André está entregando de bandeja a vantagem psicológica aos adversários. Resolveu atribuir-se a responsabilidade de vencer o Grêmio em Porto Alegre, o Palmeiras no Parque Antártica e o Cruzeiro no Bruno Daniel. Só poderia dar no que deu. Ao abrir mão da tranquilidade de fazer do tempo aliado, o Santo André perdeu a capacidade organizacional do contragolpe, sua arma letal. Deixou de lado marcação mais opressiva, desperdiçou a liberalidade de passes em velocidade, abandonou a mortalidade dos contragolpes e direcionou inquietação à premissa de vencer a todo custo. Só poderia dar no que deu.

O Santo André acreditou na possibilidade de chegar à Libertadores sem reconhecer que primeiro precisa fugir da faixa de gaza do rebaixamento. O Complexo de Gata Borralheira emerge no sentido inverso da enfermidade do Grande ABC, que se apequena sem necessidade. O Santo André vive a doença sociológica no sentido inverso, de impor-se a obrigação de ser grande antes da hora, o que o torna candidato a pequeno, depois de a médio clube chegar com todos os esforços e méritos.

Ainda há tempo para o Santo André refazer-se estrategicamente. O índice de produtividade deveria nortear atuações nas 24 rodadas que restam para o encerramento do Campeonato Brasileiro. Um estudo detalhado dos adversários que virão, com projeção de resultados individuais e grupais, dividindo-se esses enfrentamentos em dois ou três blocos de equipes assemelhadas, contribuiria para decisões técnico-táticas fundamentadas na ciência exata dos números que, gostemos ou não, extratifica os embates nos gramados.

Quem entra em campo sem projetar o resultado mais importante para o conjunto da obra da competição, está fadado a fracassar porque desperdiçará munição em combates de baixa probabilidade de sucesso e se aniquilará em situações subsequentes que permitiriam vôos mais altos.

Em resumo, no plano de vôo do Santo André para permanecer na Série A do Campeonato Brasileiro, é indispensável saber o que é mais importante nesta semana, por exemplo, diante do Corinthians em campo adversário (repleto de corintianos) e contra o Goiás, com mando de jogo em São Caetano.

Valeria o risco de desgaste aniquilante contra uma grande equipe num espetáculo que será transmitido ao vivo pela TV e, com isso, comprometer os músculos e as emoções no jogo seguinte contra o Goiás, ou seria mais inteligente explorar a obrigação de vitória dos corintianos, pressionados após a derrota para o Palmeiras, sem debilitar-se diante do Goiás?

Quem conhece futebol sabe que a resposta para essas duas questões ajuda a definir o enquadramento tático da equipe. Num projeto de curto prazo de ganhar pelo menos três pontos nesses dois jogos, qual é a viabilidade de chegar ao resultado? Priorizando-se o embate com o Corinthians ou contra o Goiás?

Quem sabe planejar tem potencialmente mais possibilidades de ultrapassar os objetivos. Na Série B do Campeonato Brasileiro do ano passado, a quase totalidade das equipes que enfrentaram o Corinthians nas rodadas de sábado perdeu na rodada seguinte, terça-feira.


Leia mais matérias desta seção: Esportes

Total de 992 matérias | Página 1

14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS
03/07/2025 LIVOLIS ILUMINA PRESENTE PARA PAULINHO BRILHAR
14/05/2025 SANTO ANDRÉ JOGA TUDO PARA SALVAR O FUTURO
08/05/2025 POSSE DE BOLA DISSUASIVA: VOCÊ SABE O QUE É ISSO?
11/03/2025 SÃO BERNARDO VALE MAIS QUE SANTO ANDRÉ
28/02/2025 MARCELO LIMA QUER FUTEBOL NA CIDADE
15/08/2024 Ramalhão prioriza SAF para barrar decadência
05/08/2024 Conselho da Salvação para o Santo André
26/07/2024 Futuro do Santo André entre o céu e o inferno
28/06/2024 Vinte anos depois, o que resta do Sansão regional?
11/03/2024 Santo André menos ruim que Santo André. Entenda
05/03/2024 Risco do Santo André cair é tudo isso mesmo?
01/03/2024 Só um milagre salva o Santo André da queda
29/02/2024 Santo André pode cair no submundo do futebol
23/02/2024 Santo André vai mesmo para a Segunda Divisão?
22/02/2024 Qual é o valor da torcida invisível de nossos times?
13/02/2024 O que o Santo André precisa para fugir do rebaixamento?
19/12/2023 Ano que vem do Santo André começou em 2004
15/12/2023 Santo André reage com “Esta é minha camisa”