Não há pecado algum do lado de baixo do equador quando configuro o conceito de prefeitos varejistas, mas como a perfeição é a meta defendida pelos otários ou românticos, entre os quais me incluo (mais no primeiro do que no segundo caso), não custa lutar por prefeitos atacadistas.
É claro que tanto uma quanto outra expressão são metáforas. Não se trata de negócios de secos e molhados, mas da distinção entre uma substância imediatista e outra de insumos longevos na gestão pública sempre mais desafiadora no bicho-de-sete-cabeças do Grande ABC.
Talvez tenha sido impreciso ou indelicado, quem sabe até mesmo ofensivo, para não dizer desastrado, quando fiz algumas menções e até algumas incursões sobre prefeitos varejistas. Só me perdoo porque tudo resulta da sede por transformações estruturais no Grande ABC—tanto no campo social quanto no econômico.
EXIGÊNCIA EXPLICA
Foram várias as oportunidades em que fiz abordagens a prefeitos varejistas e prefeitos atacadistas, mas não levei adiante o que levo agora, ou seja, uma espécie de inspeção conceitual.
Prefeitos varejistas ganham eleições, prefeitos atacadistas conquistam gerações.
É isso que pretendo deixar mais ou menos cristalizado para o futuro, quando alguém se referir às demandas deste jornalista.
Não sou um cão perdigueiro de ações tópicas de prefeitos, mesmo quando parece que o seja.
VAREJO E ATACADO
Podem acreditar que amarro meu burro sempre e sempre no balaústre de conceitos-chave plugados no regionalismo ou num municipalismo sistemicamente reformista que possa influenciar a vizinhança.
Não há desdouro algum em ser prefeito varejista, até porque obras físicas e filosóficas voltadas para o aqui e agora são sempre bem-vindas.
Entretanto, cá nestas terras desindustrializadas, prefeitos que pretenderem posteridade muito além de registros documentais e na rede mundial de computadores só o conseguirão se forem além da conta da expectativa mais modesta ou convencional.
DEMANDAS PONTUAIS
Prefeitos varejistas são bons administradores de orçamentos públicos quando dão fluidez às demandas pontuais e mesmo umas esticadinhas no tempo, mas não necessariamente suficientes para ultrapassarem as quatro linhas do previsível e da sustentação produtiva em qualquer sentido da palavra no curto e no médio prédio.
Prefeitos atacadistas vão muito além de um mandato ou de alguns mandatos próprios e de terceiros porque se eternizam em obras, medidas e mesmo proposta que superam a materialidade orçamentária destinada a contemplar interesses legítimos da população.
Prefeitos varejistas cuidam do encadeamento logístico ao atendimento dos contribuintes, com asfalto aqui, zeladoria ali, um posto de saúde acolá, um buraco tapado mais adiante, um viaduto mais adiante, uma reestruturação do viário, essas coisas que todo bom prefeito varejista sabe fazer.
AQUI E ACOLÁ
Prefeitos atacadistas observam o horizonte sem se desgrudar de visão mais próxima, ou seja, ao conjugarem tanto o presente próximo quanto o futuro distante, mas essencial a saltos de qualidade de viver num determinado endereço municipal.
Prefeitos varejistas de bom nível jamais serão desconsiderados porque deixarão sempre obras e serviços em forma de compromisso com a sociedade, mas serão sempre prefeitos varejistas no sentido de que deixaram de lado o sonho de mudanças que vão muito além do factível no período em que atuaram diretamente nos destinos de uma cidade.
SONHAR É POSSÍVEL
Prefeitos atacadistas sonham grande ao construírem subjetividades que, quando tratadas como expectativas coletivas, podem virar conquistas certeiras porque são autorrealizáveis pela força inercial da cultura implantada.
Prefeitos atacadistas sonham com um Eixo Tamanduatehy, como Celso Daniel sonhou e que, mesmo abortado, deixou série de exemplares práticos, como uma parte da Avenida Industrial reorganizada com a chegada de um shopping, de empreendimento de hotelaria e outras atividades que ocuparam a deserção do setor de produção.
A menção a Celso Daniel e proposital, indelével e obrigatória porque não consigo registrar outro titular de Paço Municipal no Grande ABC com visão de futuro além do campo físico, na definição de um conjunto de ideais que hoje ainda se mostram perdidos no tempo e no espaço por ausência de seguidores. A regionalidade é o maior legado de Celso Daniel.
LONGA VIDA
Prefeitos varejistas são valiosos quando competentes porque primam pelo pragmatismo, mas prefeitos varejistas que não se dedicarem a iniciativas de longa vida mesmo fora dos respectivos paços municipais sentirão na pele que quanto mais o tempo fora das quatro linhas do mandato se acentuar, mais serão esquecidos.
Prefeitos atacadistas podem até deixar sequelas administrativas como Celso Daniel deixou, com rombos fiscais determinados por barbeiragens, mas prefeitos atacadistas resistem ao tempo e se tornam eternos na lembrança de gerações porque ousaram além da conta, inclusive diante da possibilidade de extrapolarem os limites municipais em área especialmente estendida como o Grande ABC dividido e esquartejado durante o século passado em sete partes que se digladiam pelo poder.
Prefeitos mandantes e prefeitos que se mandaram ou foram mandados não perceberam que para se tornarem referências a serem comemoradas, dentro ou além limites municipais, precisam lançar mão de pelo menos uma grande empreitada que tenha entre outros requisitos o condão de se tornar territorialmente múltipla, ou seja, de contemplar no imaginário popular a condição de se multiplicarem por sete, por pelo menos sete vezes.
ALÉM DO TRIVIAL
O que mais me deixa irritado como jornalista que não se limita a seguir a procissão e tampouco a integrar o bloco carnavalesco de tudo-perfeito é que o óbvio seja tão escancaradamente ignorado.
Que óbvio é esse, afinal? Ora, alguém que ocupe Paço Municipal e que entenda que é preciso ir muito além do trivial do municipalismo de prefeito varejista. Que procurem o cetro de prefeito atacadista mesmo que isso não signifique invadir a grande área do regionalismo construtivista.
Independentemente do aspecto regional, foi isso que Celso Daniel produziu a partir do segundo mandato, depois de um primeiro mandato muito aquém das necessidades já prementes de Santo André.
LISTA AMPLA
Poderia fazer aqui e agora uma lista de pelo menos 10 exemplares de medidas alternativas não necessariamente conectadas entre si, para oferecer aos atuais prefeitos o caminho da roça atacadista no sentido municipal ou regional do termo.
Sim, não faltam possibilidades concretas de retirar os atuais prefeitos do varejismos em que se meteram, como todos os antecessores, menos Celso Daniel.
E para que não entendam que estaria aqui a favorecer este ou aquele, antecipo que praticamente todas as alternativas da lista contemplariam o conjunto dos atuais prefeitos, mesmo que as medidas tenham adaptação e se voltarem ao próprio território de cada um.
COMPATIBILIZADES
Não há incompatibilidade à transposição de prefeito varejista em prefeito atacadista dentro do território ao qual foi eleito. É sempre possível registrar transformações olhando apenas para o próprio umbigo numa esfera espacial que praticamente torna compulsória a regionalidade.
O ideal mesmo, mas não exclusivo, é que todos eles deveriam parar de olhar o Grande ABC pelo buraco da fechadura do municipalismo porque o quarto escuro de opções reformistas jamais será detectado enquanto acharem que o buraco da fechadura deve ser o limite de cada um.
Fossem os atuais prefeitos unidos para valer e preservassem a própria pele , ou mais que isso, valorizassem a própria pele muito além dos limites individuais, já ao tomarem posse em janeiro do ano passado, ou mesmo antes disso, em janeiro de 2017 (casos de Orlando Morando, Paulinho Serra e José Auricchio, de São Bernardo, Santo André e São Caetano), teriam promovido uma coreografia estratégica para lançarem fundações que sustentariam os propósitos a que se dedicariam para sair do quadradismo municipalista que herdaram.
Para tornar ainda mais didática as diferenças entre prefeitos varejistas e prefeitos atacadistas, talvez a melhor comparação em termos populares seja o futebol.
MÚLTIPLAS FUNÇÕES
Prefeito varejista é o jogador de uma única função tática, como volante-volante, armador-armador, centroavante-centroavante, zagueiro-zagueiro, essas especialidades que o tempo tornou apenas uma referência a abrir as portas à multifuncionalidade mais valorizada no mercado e nas arquibancadas.
E é exatamente sobre isso que estamos falando: prefeito atacadista é múltiplo, porque faz o básico ou um pouco além do básico que resolve, mas também vai além disso, com incursões surpreendentes e muito mais produtivas à sociedade.
O time de prefeitos do Grande ABC, que pegou o rabo de foguete de uma região destroçada nas duas últimas décadas do século passado e que segue a sofrer as dores doídas do esvaziamento industrial, precisa organizar-se como força coletiva.
Só dessa maneira a soma das sete partes será sempre maior que a divisão restritiva e inibidora estabelecida pelos emancipacionistas bons de propósitos municipalistas, mas ruins de projeções interterritoriais.
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31/03/2026 VENHA CONHECER O GILVAN QUE CONHECI