Vem de São Paulo, tanto de uma megaorganização da sociedade civil quanto da administração pública, exemplo que deveria ser seguido pelo Grande ABC, terra de ninguém ou de apenas alguns: no início da próxima semana a Prefeitura de São Paulo — segundo anunciou o jornal Valor Econômico — apresenta o primeiro Plano de Metas idealizado em um Município brasileiro. Foram traçados índices de gestão em diversas áreas e que deverão ser atingidos até o final de dezembro de 2012. A idealização é do Movimento Nossa São Paulo, a partir de experiência em Bogotá, na Colômbia. O plano foi aprovado pela Câmara Municipal no ano passado como uma emenda à Lei Orgânica do Município. No Grande ABC e no Brasil como um todo o que prevalece e se esgota é o fetiche dos 100 primeiros dias de governo. O tempo tem provado que os resultados são cada vez piores porque os mandatos são muito mais longos e os problemas muito mais profundos.
Uma pena que o Grande ABC tenha desperdiçado em meados da última década do século passado o que parecia um movimento de transformação social, o Fórum da Cidadania. Lamentavelmente, a instituição foi sequestrada pelo esnobismo, pelo estrelismo, pelo individualismo e pelo politiquismo, entre tantas patologias que a levaram à derrocada. O movimento Nossa São Paulo é um Fórum da Cidadania muito mais apetrechado e sem qualquer vinculação com qualquer veículo de comunicação. É um Orçamento Participativo aparentemente sem vieses partidários.
O Plano de Metas que será aplicado na Capital deve apresentar nos primeiros três meses do primeiro ano da administração metas quantitativas para atingir ao final do mandato, tendo por base o que foi proposto durante a campanha eleitoral, segundo conta o Valor Econômico. Isso quer dizer que o fetiche dos 100 dias será substituído produtivamente pelo desafio de quatro anos.
Quem acredita que o que está reservado para São Paulo é simples pirotecnia cairá do cavalo, garantem lideranças do Nossa São Paulo. Eventual não-cumprimento de metas constituirá violação da Lei Orgânica e, portanto, pode implicar em ação judicial do Ministério Público contra o prefeito.
Depois de apresentar o Programa de Metas de seu governo, o prefeito Gilberto Kassab deverá debatê-lo em audiências públicas gerais, temáticas e regionais, inclusive em cada uma das 31 subprefeituras. Com isso, a população poderá tomar conhecimento das metas de gestão e dos indicadores das diversas áreas de administração municipal (saúde, educação, criança e adolescente, juventude, habitação, transporte, meio ambiente, cultura, esporte, segurança, transparência, participação, entre outros) para a respectiva área e para a cidade como um todo. A prestação de contas se dará a cada seis meses.
Todos os secretários municipais estabeleceram metas nos últimos meses e as encaminharam ao secretário de Planejamento, Manuelito Magalhães, designado pelo prefeito Gilberto Kassab como gerente do Plano de Metas. A execução orçamentária de cada secretaria indexou todas as metas. Pretende-se evitar comercialização de fantasias.
A São Paulo do Plano de Metas montado pelo movimento da sociedade civil que tem como um dos principais idealizadores Oded Grajew, está dividida em seis áreas temáticas: Cidade Eficiente, Cidade Sustentável, Cidade de Direitos, Cidade de Oportunidades, Cidade Criativa e Cidade Inclusiva.
Prevê-se entre 180 metas a modernização de instrumentos de gestão com convênios com cartórios para regularização fundiária de 100 mil imóveis no Cidade Eficiente; projeta-se a redução de até 30% da emissão de gases do efeito estufa, além do plantio de 800 mil árvores no Cidade Sustentável; pretende-se ampliar de 10 mil para 20 mil pessoas o acesso ao microcrédito no Cidade de Oportunidades; vislumbram-se dois novos teatros (Freguesia do Ó e Vila Prudente) no Cidade Criativa; priorizam-se articulações em áreas de maior vulnerabilidade social no Cidade Inclusiva e programam-se três hospitais, 10 AMAs e a eliminação do déficit de 70 mil vagas em creche e pré-escola no Cidade de Direitos.
O prefeito Aidan Ravin, de Santo André, não é exemplar único de autoridade recém-empossada influenciada pelo fetiche dos 100 dias, mas é sintomático o esforço com que se deslocou com ferocidade em direção ao urbanismo legado por Celso Daniel para imprimir marca própria. A tentativa de maquiar Santo André num início de novo governo é tática manjadíssima que agride inteligências mais ariscas. Pode confundir ou mesmo ludibriar a boa-fé de quem se deixa levar pela aparência, mas é muito pouco para uma nova administração.
As palmeiras lançadas por Celso Daniel ganharam desenvoltura paisagísticas mesmo sob a artilharia pesada de conservadores que, por motivos semelhantes ao do governo Aidan Ravin, ironizaram a política urbana inspirada nas viagens de Celso Daniel à Europa. O provincianismo latente do Grande ABC não permite saltos qualitativos sem muita discussão e embates.
O que se pergunta, caso Santo André tivesse adotado Plano de Metas semelhante ao do Movimento São Paulo à administração Gilberto Kassab, é se Aidan Ravin teria coragem de propor, como candidato, a substituição do cenário urbanístico das áreas centrais do Município. Teria a sociedade andreense, independentemente da votação nas urnas, aceitado a troca de palmeiras por gramados? Os ambientalistas, que agora reclamam da medida, aceitariam a proposta?
É certo mesmo que Aidan Ravin e outros prefeitos se vejam pressionados pela demarcação temporal massificada pela mídia. E que se vejam forçados a dar respostas públicas nem sempre amalgamadas com eventuais projetos de governo. Os primeiros 100 dias de administração tornam-se, portanto, um tormento. Marqueteiros também embolam o meio de campo. Como adoram valorizar a mercadoria, muitas vezes atuam descoladamente dos demais agentes públicos, dos quais dependem planejamento à execução de propostas. Como é o caso do Plano de Metas paulistano.
Quando os primeiros 100 dias dos prefeitos do Grande ABC se consumarem, em abril, é quase certo que o balanço individual e geral será pífio se prevalecer o conceito de medidas retumbantes — como a mídia de maneira geral se comporta sobre o assunto. O lamentável em tudo isso é que fica um gosto de decepção generalizado, porque sempre há o risco de o noticiário fixar-se nas palmeiras e deixarem de lado questões gerenciais e administrativas de peso.
Quem garante que medidas profiláticas não estejam em andamento nas prefeituras locais, principalmente nestes tempos de orçamento em queda? Não me arrisco a afirmar que a mediocridade é generalizada, embora o factóide da supressão das palmeiras imperiais induza a isso.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO