Li e não acreditei. Reli para acreditar. Passei a acreditar. E a lamentar tamanha sandice. Não é que um jornalista conhecido por atuar na linha de frente de informações do Internacional de Porto Alegre criticou veementemente o também jornalista Paulo Vinicius Coelho?
PVC é acusado de integrar uma geração da imprensa esportiva que abalaria o interesse dos jovens pelo futebol.
Fabiano Baldasso, o crítico em questão, tem todo o direito de dizer o que bem acha que deve dizer. E que aguente as consequências no estoque de credibilidade que supostamente teria.
ESTATÍSTICA CONDENADA
Criticar PVC, porque PVC recheia de números e estatísticas as análises de cada jogo, é de lascar. Vou reproduzir exatamente o que disse Fabiano Baldasso ao jornal Lance:
“O PVC é um corte no jornalismo esportivo brasileiro. Ele chegou com números, estatísticas, análises. Eu não tenho nada contra ele. Acho que era importante agregar ao lado lúdico alguma coisa de números. Só que o fenômeno PVC criou uma geração de imbecis que está f*** com o jornalismo esportivo brasileiro, fazendo que as pessoas não tenham mais interesse por futebol – criticou.
Mais adiante, a reportagem complementa:
“O jornalista entrevistado afirmou que os números não podem ser protagonistas das análises esportivas. “Nós temos hoje uma geração de novos jornalistas esportivos que baseia tudo em números, em dados técnicos. Você pode negar o Sofascore e falar que os números de tal jogador fazem dele o melhor do Campeonato Brasileiro. Se não é isso o que vejo em campo, então ele não é” – afirmou.
EM DEFESA DE PVC
Reproduzida a essência da reportagem do jornal Lance, corro em defesa de PVC.
Primeiro, PVC é um jornalista competente, dedicado, absurdamente estudioso.
Segundo, PVC é um jornalista que consegue driblar uma dicção pouco apropriada à verbalização de ideias porque tem conteúdo. Ou seja: PVC não é um orador com clareza, mas é um conhecedor por dedicação e talento. Quem o ouve e o lê sem o viés de torcida organizada ou de maledicentes sabe que PVC tem muito valor.
Terceiro, as análises de PVC não são exclusivamente numéricas, quantitativamente estatísticas, embora dados façam parte majoritária das avaliações.
Quarto, PVC é um estudioso tático e estratégico. Não é mágico nem infalível, mas faz os leitores se deleitarem com observações na maioria dos casos desprezadas por outros analistas menos atentos ou de estilos diferentes.
PVC E OUTROS
PVC é um dos articulistas esportivos de minha preferência na escrita, principalmente, mas também como analista de jogo na televisão.
Tenho vários outros. O maior de todos é Tostão, que une embasamento técnico-tático à franqueza, além, claro, de conhecimento prático como craque extraordinário que foi. Cautela também integra o portifólio de Tostão.
Tostão raramente expõe sentenças definitivas. Diferentemente disso: como futebol é até determinado ponto, somente até determinado ponto, uma caixinha de surpresas, Tostão trata de proteger a reputação construída a partir dos gramados.
A mistura perfeita ou próxima a isso seria o tecnicismo de PVC e o lirismo de Tostão. Tê-los em corpos e mentes separados é ótimo. A diversidade conduz à compreensão do milagre da vida.
PARA TODOS OS TIPOS
A crônica esportiva tem profissionais de análises de todos os tipos, tanto quando a Economia, o Cinema e outras atividades.
O fenômeno PVC é, diferentemente do que aponta o jornalista gaúcho, um extraordinário motivo à celebração.
Se todos fossem iguais a PVC seria péssimo, assim como seria péssimo se todos fossem iguais a Tostão. Talvez o jornalista gaúcho não compreenda isso na dimensão mais apropriada. Estaria sofrendo de scorfobia.
UNIVERSO INTERESSANTE
De maneira geral, a crônica esportiva é um universo extraordinariamente interessante porque não tem um perfil sincronizado com o gosto pessoal de cada consumidor de informações. E tampouco uma tendência ao escravagismo imposto por qualquer dessas alternativas.
Não temos uma geração perdida como aficionada de futebol porque PVC seria enfadonho e teria tirado o aspecto lúdico do futebol. Longe disso. Nem geração perdida temos. Temos uma geração metamorfoseadora.
Talvez haja conflito de interpretação de como ver o futebol nestes tempos em que a tecnologia influencia ramificações do esporte mais popular do planeta.
ALGORÍTIMOS SÃO REALIDADE
Goste-se ou não, os algoritmos estão aí, dentro e fora dos gramados. E os algoritmos não podem ser descartados. Tampouco sacralizados.
Talvez o jornalista gaúcho tenha exagerado na crítica a PVC por conta de uma realidade que não pode ser negada, ou seja, a fabilidade dos dados, das estatísticas.
Ainda falta muito para um encaixe mais preciso, mais esclarecedor, entre o que se passa no campo de jogo e o que é traduzido pela tecnologia dos algoritmos.
Há dados falsos ou mal avaliados que não espelham o que se vê em campo. Mais que isso: dados que contrariam o desempenho individual e coletivo em campo.
Falta muito para que a tecnologia reproduza com certa fidelidade numérica, estatística, o que sobrepõe a intangibilidade humana em campo.
SOB ESCRUTÍNIO
Há sim jogadores bons de planilhas e ruins de prática. Os indicadores recomendam aperfeiçoamento. O campo não mente. Mentes dóceis ou fanáticas é que não se dão conta disso.
Uma das maiores bobagens que se tem e que também não significa que seja a regra geral é acreditar que posse de bola seria premissa de superioridade.
A avaliação já foi mais radical nestes termos. Já há condicionantes. Mas ainda há quem leve a sério esse critério como definidor de análise.
Um time prevalecente em posse de bola pode ser um time frágil como estrutura coletiva e individual. Mas também pode ser melhor que o adversário.
POSSE PRODUTIVA
Quem tem posse de bola produtiva tem o controle do jogo. Posse produtiva não tem relação necessariamente alguma com permanência da bola sob domínio. Pode ser o contrário. O Palmeiras é um dos melhores exemplos de correlação de posse de bola produtiva, tendo mais ou menos em qualquer jogo.
Viram como futebol é muito mais enigmático do que aquele jogo que a gente costumava ver sem nenhuma preocupação com os efeitos múltiplos de uma bola rolando?
É esse o futebol ao qual se refere o crítico gaúcho ou ele não soube se expressar ao desclassificar o estilo de PVC?
QUATRO TIPOLOGIAS
A crônica esportiva destes tempos conta com pelo menos quatro perfis bem delineados de analistas ao gosto do freguês.
PVC faz parte do seleto e estrito grupo de analistas científicos que unem dados e conhecimentos técnico-táticos.
Falta-lhe vivência prática que ex-jogadores colecionam, mas não necessariamente o tornam melhores.
Fosse assim, Pelé seria um estrondo como comentarista. Todos sabem que o rei dos gramados sempre foi um perna de pau microfone à boca.
SEGUNDO GRUPO
O segundo grupo de analistas é majoritário. Conta como uma mistura de profissionais de comunicação sem qualquer preocupação com indicadores estatísticos. Também ex-jogadores fazem parte dessa turma de animadores de auditório.
De vez em quando os vejo para não perder o fio condutor que me leva ao passado, quando ouvia todas as emissoras de rádio da Capital, menino e jovem que cresceu no Interior de São Paulo.
Esse grupo se renova no conservadorismo de um estilo popular. É a mais antiga ramificação da crônica esportiva nacional.
TERCEIRO E QUARTO
O terceiro grupo reúne o que chamaria de uma associação entre populistas e os que mantém certo equilíbrio, sem, entretanto, enveredarem pelo campo da argumentação, optando pela opinião pessoal descolada de convencimento entre os consumidores de futebol mais ávidos por informações.
O quarto grupo, do qual Tostão é o principal representante, reúne jornalistas que não se prendem tanto ao estilo PVC e tampouco à espetacularização dos representantes do modelo antigo e resiliente.
São analistas centrados em aspectos táticos, comedidos e fazem o possível para não transparecerem clubismo. Também fazem parte desse grupamento ex-jogadores lúcidos e atualizados. Roger, Caio e Pedrinho são exemplares.
ESTILOS COMPLENTARES
Não abro mão dos quatro modelos que inundam as transmissões esportivas como analistas. Acho que todos são especialmente importantes, mesmo que admita que o humor do dia é um fator de opção ou rejeição ocasional a um ou a outro estilo.
O mais importante mesmo é conhecer e saber distinguir os integrantes das quatro categorias. Mas isso é questão de tempo e de atenção.
JUCA E CASAGRANDE
NO fundo, estou mesmo é preocupado com uma quinta vertente de analistas de futebol, minoritária, mas que pode avançar porque o fanatismo político-partidário não encontra fronteiras.
Estou me referindo ao caminho enveredado por Juca Kfouri e Walter Casagrande, entre outros que começam a mostrar as manguinhas no espaço indevido.
Eles misturam futebol e política. Casagrande é o caso mais grave. Além de não ter talento algum para escrever, revela furiosa obsessão ideológica.
MISTUREBA HORROROSA
E não me tentem carimbar de alienado. Política é um dos prazeres e desprezares no cotidiano de leitor detalhista que sou.
Sei exatamente para onde dirigir meus olhos quando me alimento de informações sobre as atividades políticas. É desagradável dar de cara com imersões nas páginas de esporte.
Quanto a Juca Kfouri, sobre o qual escreverei um texto à parte qualquer dia destes, a coluna que assina hoje na Folha de S. Paulo é estonteante.
Combativo e brilhante crítico de uma CBF de passado de escândalos, Juca canoniza mais uma vez o ex-presidente Lula da Silva, a quem reserva seletivamente apenas oito dos 14 anos do desastroso governo petista, inclusive no Grande ABC, como temos mostrado.
LULA CANONIZADO
Lula da Silva é, segundo Juca Kfouri, vejam só, um Guardiola da gestão pública, o que o colocaria a salvo de qualquer tipo de restrição.
Mensalão, Petrolão e sequestro do Congresso Nacional com a teia de roubalheiras, além do aparelhamento do Supremo, parecem ficção.
Se a CBF de Juca Kfouri era identificada como Casa Bandida do Futebol, a gestão petista de Lula da Silva, goste-se ou não da constatação, se consagrou consórcio planejado de civilidade altamente lucrativa em conjunto com o PSDB antes da chegada de João Doria.
Coerentemente, não deveria instalar Juca Kfouri nem Casagrande neste texto, reservado à Editoria de Esportes.
Só o fiz suplementarmente e não pretendo repetir o eventual equívoco. Da próxima vez insiro o material na editoria de “Politica”, espaço que a Folha deveria ter reservado ao colunista. Como já o fez várias vezes.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS