Esportes

Paulinho avança no plano de
controlar o EC Santo André

DANIEL LIMA - 06/12/2022

O condomínio político que administra a Prefeitura de Santo André está avançando no projeto de ter o Esporte Clube Santo André sob tutela. Não faltam organizações sociais e esportivas que já se dobraram aos passos pantagruélicos do Paço Municipal.  

O anúncio que coloca um dirigente do Santo André Futebol Clube na divisão de tarefas na gestão do futebol de base do Esporte Clube Santo André é a confirmação do projeto imperialista. Esporte Clube e Futebol Clube são porções distintas. 

O que vem no futuro, se não houver resistência, será o controle total do Esporte Clube pelo Futebol Clube. E isso é péssimo para o futebol da cidade. Para a cidadania da cidade.  

PUXADINHO DO PAÇO  

Controle total do clube é expressão de flexibilidade operacional. No caso do Esporte Clube Santo André, seria, no curto prazo, o Santo André Futebol Clube tomar o poder, controlado por dirigentes e conselheiros legitimamente eleitos. O Santo André Futebol Clube é um puxadinho esportivo do Paço Municipal.  

Métodos supostamente democráticos poderiam ser adotados para dar verniz de respeito às tradições do Esporte Clube Santo André. Tudo não passaria de ilusão.  

É preciso entender as denominações para se compreender a situação. Já mostrei isso em vários textos passados, mas não custa repetir. 

ORIGINAL E GENÉRICO  

O Santo André Futebol Clube original foi fundado em 1967 e, em 1975, por conta de troca de diretoria e receio de dívidas diversas, virou Esporte Clube Santo André. Uma saída que pouco adiantou. O Esporte Clube Santo André herdou todas as complicações jurídico-trabalhistas do Santo André Futebol Clube original. Um tiro nágua, por assim dizer.  

Já o genérico Santo André Futebol Clube foi criado em 2017 e disputou várias competições de futebol de salão. Recentemente acrescentou futebol ao portfólio, já de olho na gestão do Esporte Clube Santo André de tanta história e do título da Copa do Brasil de 2004. 

O genérico Santo André Futebol Clube não conseguiu filiação à Federação Paulista de Futebol para disputar competições oficiais, mas não desistiu. Apoiado por setores da Administração de Paulinho Serra, especialmente o secretário de Esportes Marcelo Chehade, manteve o foco de juntar-se ao Esporte Clube Santo André. Aproximar agora e controlar depois, eis a operação em marcha. 

SECRETÁRIO AMIGO  

O genérico Santo André Futebol Clube finalmente chegou lá. As portas se abriram com o suporte do Paço Municipal. Tanto que Rodolfo Guedes, dirigente do genérico Santo André Futebol Clube, acaba de ser anunciado colaborador do oficial Esporte Clube Santo André.  

Rodolfo Guedes não virou dirigente, como se poderia imaginar, mas, remunerado, tem todas as condições de conhecer o terreno em que pisará. Outros participantes da operação pelas bandas do Paço Municipal dão a Rodolfo Guedes respaldo de que necessita. Faz parte do show.  

Rodolfo Guedes é amigo do secretário Chehade, que se diz candidato a candidato à sucessão de Paulinho Serra. Há fila de concorrentes ao cargo. Sem oposição, qualquer um deverá vencer a disputa. Santo André é uma cidade praticamente morta no campo político.   

QUARTETO NA FOTO  

O Diário do Grande ABC de hoje estampa uma foto em que aparecem todos eles, prefeito, secretário e Guedes, além do dirigente do Esporte Clube Santo André, Celso Luiz de Almeida, que, à noite, foi eleito novo presidente do clube.  

Celso Luiz de Almeida é o último dos moicanos dos dirigentes do Santo André que atuaram diretamente no futebol nas últimas quatro décadas. Futebol é a alma da agremiação. Diplomático, conciliador, Celso Luiz de Almeida é visto como habilitado a afastar o clube de crises.  

É o que se espera. Mas não será fácil. Tanto o prefeito quanto o entorno do Paço Municipal querem o Esporte Clube Santo André como mais uma peça do mosaico de controle da sociedade. O condomínio político que faz de Paulinho Serra prefeito à prova de complicações não tem limites em matéria de poderio.  

PODERIO GIGANTE 

Desde 2009, quando Aidan Ravin assumiu a Prefeitura de Santo André, o grupo de controle do Paço Municipal acumula poderio bélico impressionante. Situação oposta à do PT, que, desde os anos 1990, dividia o eleitorado de Santo André com os conservadores.  

O petista Carlos Grana, que veio em seguida e só durou quatro anos de um mandato, também integrou o grupo em questão. Tanto que Paulinho Serra foi espécie de Cavalo de Troia do petista, introduzido no organograma oficial como secretário municipal. Com Paulinho Serra de prefeito,  se consumou nos últimos seis anos uma avalanche de resultados políticos e administrativos monolíticos.  

O Paço de Santo André não é um Paço só de Santo André. Há forças estaduais que reforçaram os agentes locais. Eles praticamente liquidaram a oposição política. Santo André é um endereço de Partido Único. Como São Caetano. E um pouco mais que Diadema, onde o PT é dono do terreno. ] 

SAF EMPERRADA  

A pedra de toque da orquestração que culminou na parceria do Esporte Clube Santo André com o genérico Santo André Futebol Clube é a dificuldade que a agremiação de Celso Luiz de Almeida tem para encontrar uma parceria profissional com a qual definiria o regime da SAF (Sociedade Anônima do Futebol). A modelagem é a única alternativa no mundo do futebol que poderia levar o Esporte Clube Santo André a outro patamar na hierarquia nacional. O genérico Santo André Futebol Clube nem de longe se apresenta como isso.  

O Esporte Clube Santo André, chamado de Ramalhão, integra a Série A-1 do Estadual, mas não está no circuito nacional de quatro divisões. Ou seja: o Ramalhão está na Quinta Divisão do futebol brasileiro.  

O único representante da região no calendário nacional é o clube-empresa São Bernardo Futebol Clube. Recentemente obteve acesso à Série C do Campeonato Brasileiro.  

PARTO DA MONTANHA  

A SAF do Esporte Clube Santo André é um parto da montanha. A administração de Paulinho Serra criou todas as dificuldades possíveis para postergar os termos de concessão a eventual interessado de gabarito econômico-financeiro.  

Há mais de um ano se espera a liberação do Estádio Bruno Daniel, sem o qual não há como despertar interessados no projeto da SAF.  

A concessão é vista como peça-chave da Administração de Paulinho Serra para dificultar e permitir a entrada diretiva do representante do genérico Santo André Futebol Clube. Traduzindo: cria-se a dificuldade formal para abrir as porteiras ao parceiro de conveniência.   

ENCURRALAMENTO  

Dirigentes e conselheiros do Esporte Clube Santo André que imaginavam a agremiação dotada de novas competências para o enfrentamento do mundo do futebol provavelmente ficaram frustrados, mas não surpresos, com os desdobramentos que culminaram no desembarque da política no futebol de forma tão ostensiva.  

A foto estampada no Diário do Grande ABC de hoje poderia ter uma legenda que não só identificasse o prefeito e os demais flagrados. Bastariam dois pontos seguidos da seguinte frase: enfim, a capitulação.  

Em qualquer sociedade minimamente representativa da cidadania, um clube com a tradição do Esporte Clube Santo André se comunicaria com associados e aficionados em manifestação pública conjunta com o chefe do Executivo em termos mais transparentes.  

Entretanto, esperar esse modelo de uma gestão municipal que só se manifesta com a condição de que os interlocutores sejam dóceis seria demais. O Santo André está encurralado.  

OPÇÕES MELHORES  

O fato é o seguinte, e os dirigentes do Esporte Clube Santo André não vão dizer com nenhuma letra, quanto mais com todas as letras: o clube mais importante da região e maior patrimônio cultural da cidade está sendo submetido ao torniquete de arbitrariedades e pressões para aceitar uma parceria que está longe do ideal.  

Há disponíveis no mundo do futebol empreendedores esportivos que têm muito mais a oferecer ao Esporte Clube Santo André para fugir de uma rotina sacrificante a cada temporada: evitar a queda à Segunda Divisão, Série A-2 do Campeonato Paulista. E alçar novos voos.  

OBRA PROGRAMADA  

O genérico Santo André Futebol Clube tem uma história tão breve quanto insustentável se vetores de empreendedorismo com olho literalmente no mundo do futebol sugerem.  

A invasão do Esporte Clube Santo André por uma ordem imperialista que controla a política de Santo André não é obra do acaso. É uma programação de ideólogos e executores de um projeto que não encontra barreiras. E isso vale para todos os setores.  

Não existe oposição em Santo André. Nem mesmo para que o modelo centralizador do Paço Municipal seja menos ostensivo. Só não vê ou não escreve sobre isso quem não quer.   

Está tudo dominado. E o domínio não é republicano, nem cidadão e tampouco ético. Sobram sombras. Abundam preocupações. Soçobram ideais e ideias.  



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