Esportes

Mágica ou trambique no leilão
milionário do São Caetano?

DANIEL LIMA - 08/12/2022

O São Caetano vai a leilão na próxima semana. Um leilão aparentemente de verdade. O São Caetano foi avaliado por fontes obscuras em R$ 90 milhões. Não se trataria de valor patrimonial sustentado tecnicamente em indicadores tangíveis e intangíveis. Seria o valor de intrincadíssima cadeia de produção de dívidas múltiplas, tanto fiscais quanto trabalhistas, entre outras.  

O leilão do São Caetano é uma operação mágica resolutiva ou uma trambicagem bem encenada?  

O questionamento é pertinente entre outras razões porque se baseia em ancoragem que de um lado conta com a falta de transparência do atual comando da agremiação e de outro do contexto do mercado da bola, combinado com a macroeconomia como um todo. 

MAIS QUE ENTRETENIMENTO 

Futebol competitivo dentro e fora de campo deixou há muito tempo de ser exclusivamente entretenimento. Ou melhor: é entretenimento para quem assiste, não para quem investe. 

Virou negócio. Bilhões são movimentados na cadeia de produção do esporte mais popular do planeta.  

Quem tiver o cuidado de assistir ao documentário sobre o escândalo na FIFA, que resultou em prisões na Suíça, em 2015, terá a oportunidade de sair da ignorância e embrenhar nas artimanhas do mundo da bola. E do dinheiro.  

Pagar R$ 90 milhões pelo São Caetano está fora de qualquer lógica dos negócios do futebol. Isso tudo, sempre é bom lembrar, seria composto de dívidas consolidadas. É uma dinheirama excessivamente volumosa.  

QUAL É A MÁGICA?  

Qual seria a mágica que explicaria eventual arremate? Ou seria mais apropriado esperar um lance de trambicagem?  

A mágica abriria as portas do futebol a todas as agremiações endividadas que assustam investidores que conhecem e vivem do mercado da bola.  

É improvável que exista alguma possibilidade de que essa porta estaria aberta. O mundo dos negócios do futebol é criativo e explora tudo que é possível para remunerar os investidores.  

E A TRAMBICAGEM?  

A trambicagem seria tudo que se imaginar de algo que não passaria necessariamente pelas exigências legais duráveis, ou seja, sem risco de contratempo monumental mais adiante. O mundo dos negócios fora da bola conta com muita gente criativa. A maioria se dá muito mal. Acoplar ao futebol trambicagens de outros universos de negócios pode não ser uma boa solução.  

A modalidade de leilão é inusitada. Quem procura mais informações sobre o modelo que será adotado ficará frustrado.  

SEM TRANSPARÊNCIA  

No site oficial do São Caetano não existe nada que leve a considerações mais profundas. Um site noticiou a medida em novembro. Alguns jornais replicaram a informação recentemente. Mas nada que levasse a alguma ramificação minimamente explicativa. 

Parece estranho tanto cuidado para que o leilão do São Caetano não seja massificado entre eventuais interessados.  

Isso lembra negócios imobiliários que envolvem áreas públicas de cartas marcadas e que não podem ser divulgados além de um cantinho obrigatório nas páginas de classificados de jornais. Como comprar uma área pública regada de propinas se o aparato legal não for bem desenhado e executado, tirando eventuais concorrentes da disputa?  Bandidos sociais do mercado imobiliário sabem disso e capricham nas medidas cautelares e protetivas.  

CAROÇO DO ANGU  

Quando a transparência é escassa, não é crime supor que pode haver caroço de interesses escusos no angu da proposta.  

A direção do São Caetano deveria vir a público, chamar a mídia em geral e revelar os planos para transformar o leilão num espetáculo extraordinário até mesmo por ter descoberto a pólvora de tornar dívida consolidada em objeto de arremate.  

Quem dá mais pelo São Caetano? Quem dá mais pelo São Caetano? Quem dá mais pelo São Caetano? Será que alguém dá alguma coisa pelo São Caetano dentro das regras legais dos negócios do futebol? 

Portanto, desconfiar de que existe mesmo esse antagonismo conceitual no leilão do São Caetano é o mínimo que se espera quando está em jogo, goste-se ou não, uma agremiação com histórico entranhado na cidade. Mesmo que esse ativo tenha se esboroado ao longo dos anos.  

PONTOS CARDEAIS 

Vamos na sequência produzir breve análise da situação para desclassificar a seriedade do leilão público programado para o próximo dia 15.  

Ou temos um processo em que a mágica é desconhecida, mas que solucionaria o drama da agremiação, ou então a vereda da trambicagem, em qualquer sentido etimológico mais radical ou menos tradicional, se expressaria.  

Entenda a situação do São Caetano nestes tempos, que estão intimamente relacionadas ao passado. E tire a dúvida da manchete do dia. Ou acrescente novos condimentos. 

1. Viuvez do mecenas.  

2. Patrimônio físico. 

3. Patrimônio social.  

4. Patrimônio econômico. 

5. Patrimônio ético. 

6. Patrimônio esportivo.  

7. Potencial de mercado.  

 

VIUVEZ DO MECENAS 

Para entender o São Caetano de hoje é preciso voltar no tempo e lembrar que durante duas décadas o milionário Saul Klein injetou perto de R% 500 milhões na equipe. É disparadamente o maior mecenas do futebol brasileiro. Desde que deixou o São Caetano, ao descobrir que os valores repassados não seguiram trajeto de investimentos saudáveis, cujos reflexos estão entregues ao Judiciário e que envolvem entre outros o ex-presidente Nairo Ferreira, o São Caetano iniciou a derrocada esportiva. Chegou a ficar 25 jogos sem vitória há duas temporadas.   

PATRIMÔNIO FISICO 

O São Caetano não tem patrimônio físico algum. Apesar dos R$ 500 milhões injetados por Saul Klein, não restou uma benfeitoria sequer como portfólio de materialidade. O Estádio Anacleto Campanella é concessão da Prefeitura.  

PATRIMÔNIO SOCIAL 

São Caetano só se empolgou para valer com a equipe que a representa no futebol da cidade durante os anos de ouro do começo deste século. O São Caetano sob a liderança do prefeito Luiz Tortorello e de Saul Klein virou a namoradinha do Brasil, Chegou ao vice-campeonato da Libertadores da América de 2002 e ganhou a Série A-1 do Campeonato Paulista em 2004. Mantinha equipes milionárias. O clube jamais investiu na própria marca no sentido de ganhar e manter corações locais. Uma política mais que necessária diante da proximidade da Capital de grandes clubes.  A média de público do São Caetano nas temporadas dos anos 2010 não passava de 450 pagantes.  

PATRIMÔNIO ECONÕMICO 

A dívida arbitrada obscuramente em R$ 90 milhões, e que se pretende transformar em preço das ações da agremiação que desde o princípio adotou o modelo de clube-empresa, é a comprovação de que o São Caetano jamais se pautou pelo equilíbrio de investimentos tendo na outra ponta responsabilidade com o futuro. Bastou Saul Klein saltar de uma canoa financeiramente furada, porque ele a sustentava, para tudo degringolar.  

PATRIMÔNIO ÉTICO 

As últimas temporadas do São Caetano sem Saul Klein e com Nairo Ferreira como mandachuva explícito ou não foi um desastre que se estica no tempo. O São Caetano virou caso de Polícia. Vários investidores sem lastro no mercado oficial do futebol passaram pelo São Caetano num troca-troca quase indecifrável. Manoel Sabino, o mais recente, foi preso numa operação policial que teria como ponto de conexão um outro tipo de negócio que não está nas quatro linhas do gramado.  

PATRIMÔNIO ESPORTIVO 

Para quem tem vocação à arqueologia esportiva, o passado do São Caetano é um ativo valioso, porque não é qualquer equipe que chegou tão longe numa Libertadores da América e tampouco ao título paulista. Mas no mercado da bola, o passado é sempre relativizado e confrontado com ativos tangíveis. Notadamente a saúde econômico-financeira. Como a concorrência por investidores no modelo de SAF (Sociedade Anônima do Futebol) é intensa, o São Caetano estaria relegado mesmo às últimas filas. Quem tem dinheiro para investir no futebol quer retorno dos recursos acima dos juros do mercado convencional e perspectiva de sucessão de lucros. O passado nos gramados só interessa mesmo se não for um fardo pesado demais a comprometer a rentabilidade do negócio. O São Caetano não está nesse figurino.   

POTENCIAL DE MERCADO 

O São Caetano precisaria ser um grande negócio para valer a pena de verdade, não uma aparente emboscada econômico-financeira. Fosse uma agremiação zero quilômetro no balanço econômico-financeiro geral, valeria a pena investimentos que priorizem sobretudo uma linha de montagem de craques nas divisões de base. O mercado internacional está cada vez mais ávido por jovens recrutados por profissionais do ramo. Estar na Grande São Paulo de 22 milhões de habitantes é fator de produtividade industrial do futebol, tantos são os campos de futebol. Mas a condicionalidade de custo/benefício é uma das regras sagradas para quem vê futebol muito além de emoção vazia ou não.



Leia mais matérias desta seção: Esportes

Total de 992 matérias | Página 1

14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS
03/07/2025 LIVOLIS ILUMINA PRESENTE PARA PAULINHO BRILHAR
14/05/2025 SANTO ANDRÉ JOGA TUDO PARA SALVAR O FUTURO
08/05/2025 POSSE DE BOLA DISSUASIVA: VOCÊ SABE O QUE É ISSO?
11/03/2025 SÃO BERNARDO VALE MAIS QUE SANTO ANDRÉ
28/02/2025 MARCELO LIMA QUER FUTEBOL NA CIDADE
15/08/2024 Ramalhão prioriza SAF para barrar decadência
05/08/2024 Conselho da Salvação para o Santo André
26/07/2024 Futuro do Santo André entre o céu e o inferno
28/06/2024 Vinte anos depois, o que resta do Sansão regional?
11/03/2024 Santo André menos ruim que Santo André. Entenda
05/03/2024 Risco do Santo André cair é tudo isso mesmo?
01/03/2024 Só um milagre salva o Santo André da queda
29/02/2024 Santo André pode cair no submundo do futebol
23/02/2024 Santo André vai mesmo para a Segunda Divisão?
22/02/2024 Qual é o valor da torcida invisível de nossos times?
13/02/2024 O que o Santo André precisa para fugir do rebaixamento?
19/12/2023 Ano que vem do Santo André começou em 2004
15/12/2023 Santo André reage com “Esta é minha camisa”