O campeonato estadual mais importante do País é um tormento para os times médios e pequenos -- e de vez em quando até mesmo para time grande. A Série A-1 do Campeonato Paulista em suas três primeiras rodadas revelou um futuro próximo possivelmente favorável aos três times da região. Todos estão de olhos abertos. O desafio são os 12 pontos.
Doze pontos é o que se precisa para fugir do rebaixamento, reservado aos dois últimos colocados entre os 16 participantes.
A Ponte Preta de Campinas, na Série A-2 deste ano, é a mais recente prova provada que a Série A-1 é uma emboscada.
RISCO ELEVADO
A competição tanto pode surpreender ao reservar um espaço aos pequenos e médios entre os quatro primeiros, como virou tradição desde que a fórmula foi implantada, como pode levar equipes tradicionais ao inferno.
A aleatoriedade dos resultados, como poderia ser chamado o potencial de gangorra classificatória, se deve mesmo ao curto-prazo da disputa, em apenas 12 rodadas para apurar quem cai e quem passa para as fases seguintes.
A competição abre a temporada e serve de experimentos ao restante do ano, de jogos do circuito nacional e internacional para quem tem calendário cheio e bala na agulha.
SANTO ANDRÉ LÍDER
No Grande ABC, apenas o São Bernardo Futebol Limitada olha a temporada até dezembro, porque subiu para a Série C do Campeonato Brasileiro. O sonho é chegar à Série B do Brasileiro, contemplada com benesses de patrocinadores da mídia.
Santo André e Água Santa de Diadema precisam jogar a Série D do Brasileiro, um risca-faca brutal. Sobem os quatro primeiros. E quem não sobe desce novamente para disputar no Estadual a vaga de volta à Série D. É tão provisória a vaga na Série D que nem deve ser considerada uma escalada no calendário nacional.
Nas três primeiras rodadas da Série A-Paulista o time de melhor campanha entre os representantes da região é o Santo André, com seis pontos. Nenhuma outra equipe entre as demais da competição fez campanha igual.
NENHUMA SURPRESA
O desempenho numérico é uma surpresa mais por conta dos resultados de terceiros do que propriamente do Santo André, que enfrentou equipes do mesmo nível ou até superiores – Guarani, São Bento e Ferroviária. O São Bernardo fez cinco pontos e o Água Santa apenas um. Tanto uma equipe quanto outra já enfrentaram pelo menos um time grande. O Santo André ainda não. Isso faz a diferença na classificação. Jogo com time grande é prejuízo na certa. Qualquer ponto ganho é sorte grande. Ganhar de time grande é um passo gigantesco rumo aos 12 pontos fatais.
Não custa relativizar os dados preliminares. O Santo André apresentou desempenho menos competitivo que o São Bernardo e mais objetivo que o Água Santa. O São Bernardo foi mais compacto e organizado que o Santo André e o Água Santa. E o Água Santa foi mais envolvente que o Santo André e o São Bernardo, mas não traduziu o desempenho em gols, perdidos em profusão.
UM POR UM
O Santo André tem um grupo que parece sintonizado ao conceito de equipe no sentido mais amplo da expressão e parte do pressuposto de que é preciso cuidar do sistema defensivo para chegar a bons resultados.
O Água Santa é mais agressivo no sistema ofensivo, mas é descuidado na posse de bola e infiltrações do adversário. O sistema de marcação é frouxo.
E o São Bernardo é menos brilhante individualmente, mas faz de cada centímetro do gramado uma batalha. Quem procura individualidades vai encontrar coletivismo no São Bernardo.
Faço essas observações mais respaldado pela experiência do que pela audiência. Não assisti aos três jogos de cada equipe – apenas uma parte de cada um. Por isso, especulo em cima do que vi e de observações outras.
MAIS COMPETITIVIDADE
Definir as características coletivas de uma equipe não é um tratado sobrenatural. Os times se repetem em fórmulas supostamente modernas que não passam de repaginação do passado.
O que diferencia o ontem do hoje no futebol é o que se convencionou chamar de intensidade, de capacidade de destruir e multiplicar espaços. Quem cumpre com mais estabilidade esse princípio acaba prevalecendo. Desde que, claro, tenha individualmente quem faça a diferença.
Um exemplo de que a individualidade cada vez mais escassa como diferencial aparece de vez em quando e deflora a lógica se deu na derrota do Água Santa em casa diante da Ferroviária.
O Água Santa massacrou técnica e taticamente o adversário, mas em três lances individuais, em curto período do jogo, o atacante John Kennedy deu a vitória ao time de Araraquara, até agora um dos candidatos ao rebaixamento.
QUASE ORAÇÃO
A âncora dos 12 pontos escraviza as equipes com potencial de rebaixamento. A contagem é quase oração. A oração dos 12 pontos a qualquer custo. É o limite à fuga da queda.
O Santo André já sabe que precisa de mais seis pontos para seguir na edição da competição ano que vem. O São Bernardo precisa de sete. O Água Santa precisa de 11 pontos. O torniquete aperta no clube de Diadema.
A contagem dos 12 pontos tem uma peculiaridade especial determinada pela formula de disputa.
Dividem-se os 12 jogos que cada equipe disputará na fase inicial em duas etapas de seis jogos cada. A primeira etapa, de apuração de definições técnicas e táticas, é considerada mais leve. A segunda, dos últimos seis jogos, é vista como mais complexa.
A luta por vários tipos de classificação determinados pelo regulamento (os quatro finalistas, os dois últimos, as vagas para a Série C do Brasileiro) coincide com uma melhora acentuada das equipes.
PERÍODO DE DECANTAÇÃO
Seis rodadas iniciais seriam o período de decantação de projetos dos treinadores. São os jogos que provocam rearranjos de forças relativas de cada equipe na definição do que pesaria mais nos jogos seguintes.
É muito difícil traçar os rumos de longo prazo de cada uma das equipes da região tendo como referência as próprias condições de que dispõem como também os adversários com os quais vai competir para fugir do rebaixamento. Até porque não existe longo prazo em 12 jogos.
Escrutina-se no curto prazo cada adversário na medida em que se aproxima o confronto determinado pela Federação Paulista de Futebol.
Um exemplo: o Santo André que enfrenta o Botafogo hoje no Estádio Bruno Daniel recorreu à central de dados para extrair tudo que é possível das configurações do adversário. Da mesma forma o Água Santa que enfrenta o Santos e o São Bernardo que joga com o Mirassol. O que será das rodadas posteriores é outra história.
Isso significa entre outros pontos que correções técnicas e táticas numa equipe que precisa de reação ou que pretende intensificar qualidades já expostas precisam ser relativizadas porque os concorrentes também o fazem.
Provavelmente o Água Santa de Diadema não dimensionou o tamanho do estrago que John Kennedy poderia provocar naquele jogo que parecia galinha morta.
APERTANDO O CERCO
E provavelmente a Ferroviária beneficiada pelo talentoso jogador encontrará dificuldades de repetir atuação tão brilhante, porque os adversários deverão fechar o circuito entre linhas que encontrou em Diadema. Aliás, contra o Santo André, em Araraquara, John Kennedy sentiu a diferença entre encontrar e não encontrar espaços.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Esse é apenas um exemplo prático de que o principal campeonato estadual do País ganha forma de tabuleiro de xadrez tantas são as possibilidades de novos lances, por mais que os concorrentes se vigiem com inteligência artificial.
A previsibilidade dos adversários tem limites e se torna ainda mais complexa quando há equilíbrio de pesos entre muitos dos concorrentes, caso dos times médios e pequenos da Série A-1.
Santo André, São Bernardo e Água Santa são times diferentes em campo. São equipes que confirmam a diversidade do futebol. Não há fórmula mágica de sucesso ou fracasso. Observações, estudos, preparação, estabilidade do ambiente, tudo isso pesa nos resultados.
Total de 992 matérias | Página 1
14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS