O Santo André vive a mesma situação do Botafogo, do Sport e do Náutico na Série A do Campeonato Brasileiro: está com a corda no pescoço à espera que um deus justiceiro lhe estenda a mão da matemática e o salve da dor do rebaixamento. O Fluminense está se asfixiando a cada tentativa de salvamento.
Não é à toa que falar em corda no pescoço a representantes dos candidatos ao rebaixamento, mesmo na brincadeira, soa como tremenda mancada ou provocação — com possibilidades de despertar a ira dos interlocutores.
A mais recente rodada da competição, iniciada quarta-feira à noite com a vitória do Santo André sobre o Palmeiras, acrescentou mais fervura na disputa. A derrota do Botafogo para o Flamengo foi comemorada por todos os degoláveis.
O Santo André conseguiu grande resultado, mas os resultados subsequentes poderiam ser mais interessantes. O Náutico insiste em manter-se vivo, o Sport também não entrega a rapadura e o Botafogo vencido no clássico carioca não saiu de campo fora do eixo. Um clássico pode provocar estragos com efeitos prolongados. Não parece ser o caso do Botafogo. O lamento do pênalti perdido deve ser entendido como capacidade para enfrentar um embalado e tradicional adversário, o que retroalimenta a autoestima para futuros combates.
O técnico Sérgio Soares está conseguindo reconstruir a estrutura tática do Santo André, mas não alcançará o nível de excelência da Série B do Campeonato Brasileiro do ano passado. Aquele time falsamente molemonte, teatralmente preguiçoso, aquele time que parecia não querer nada com o jogo, aquele time está aparecendo de novo nos gramados, embora ainda não reviva a antiga performance durante todo o tempo. Contra o Palmeiras foi assim. O adversário parece hipnotizado diante daquela troca de passes sem pressa que, de repente, transforma-se em contragolpe fatal. Há ajustes na defesa, no meio de campo e no ataque, mas é evidente que Camilo e Vanderlei são talentosos. No jogo desta quarta-feira contra o Cruzeiro é preciso atenção redobrada no posicionamento defensivo. O time mineiro vira o jogo com muita facilidade.
Resta saber também se nas sete rodadas que faltam Sérgio Soares conseguirá acelerar o nível de aprendizagem ou de reaprendizagem coletiva de que a equipe ainda carece.
Também é preciso levar em conta que o grupo do ano passado era mais equilibrado em todos os quesitos. Não havia, como agora, jogadores em busca da melhor forma física e técnica, depois de passarem por inatividade ou por contusões, ou mesmo por adaptação tática e ambiental.
Esse é o ônus às equipes que sofrem desmanches ou experimentam novos treinadores e atletas. O Santo André contou com três técnicos durante a competição. O Atlético Mineiro de Celso Roth é o contraponto, porque acertou na mosca nas contratações e se arrumou cirurgicamente. Quando Santo André e Atlético Mineiro jogaram nas primeiras rodadas do primeiro turno no Mineirão, a equipe do Grande ABC era nitidamente mais apetrechada. O Santo André vinha de excelente Campeonato Paulista e o Atlético de desastrada final do Campeonato Mineiro sob as ordens de Emerson Leão.
Segue valendo a projeção de que a salvação do rebaixamento está no índice de produtividade de 40% (mais precisamente de 39,5%), que corresponderia a 45 pontos em 114 disputados. Quem quiser respirar aliviado deve mesmo utilizar a máscara protetora daquela pontuação. O Figueirense foi rebaixado na Série A do Brasileiro do ano passado, como primeiro abaixo da linha de corte, com 44 pontos ganhos. O Náutico obteve a mesma pontuação, mas se safou por conta do número de vitórias.
Após 31 rodadas nesta temporada, o agrupamento dos quatro últimos colocados segue semelhantemente à situação do ano passado. Os quatro últimos de 2008 haviam acumulado até a 31ª rodada o total de 121 pontos, ou média geral de produtividade de 13% — 121 pontos divididos por 930 pontos gerais disputados pelas 20 equipes. Neste ano, são 120 pontos, com média geral de 12,90%. Na temporada passada havia sete equipes ameaçadas de queda nestas alturas do campeonato, contra apenas cinco deste ano.
Tenho desconfianças quanto ao dimensionamento matemático propagado por especialistas como Tristão Garcia e Oswald de Souza. Longe de mim desacreditá-los, mas a volatilidade dos indicadores liga o desconfiometro de que por mais que tenham embasamento científico, alquimias estatísticas não podem ser levadas a sério em demasia. São interessantíssimos marketing de audiência, como as pesquisas eleitorais, mas sem a precisão de pesquisas eleitorais sérias. Até porque os humores da sociedade são menos suscetíveis a mudanças radicais. Os gramados costumam aprontar muito mais.
Ainda outro dia o Palmeiras estava lá nas alturas no ranking de probabilidades de chegar ao título. Quatro rodadas depois, desabou. Está certo que aqueles números retrataram o momento, mas quando se trata de título nacional não creio que seja o suficiente para convencer o distinto público de que não carregue fortes impulsos de chutometria. Até porque futebol não é ciência exata. O Santo André que o diga contra o líder Palmeiras, por exemplo.
Escrevi ainda outro dia em oposição a Tristão Garcia que 45 pontos são mais que suficientes para fugir do rebaixamento. O professor gaúcho publicara que o mínimo seriam 48 pontos. Mostrei que desde a introdução de pontos corridos e desde que 20 equipes estão na Série A e também na Série B, jamais houve descenso para quem chegou a 45 pontos. Não seria este ano, como prova o andar da carruagem de cada rodada.
Acredito que nova metodologia deveria ser gestada pelos matemáticos para aproximar os percentuais de probabilidades tanto para a definição do título como para o calabouço da queda. Sei lá a metodologia utilizada, por mais que tenha procurado desvendá-la. Só sei mesmo que há movimentos abruptos demais a cada rodada, principalmente quando se projetam favoritismos que não se confirmam. Não seriam esses favoritismos exagerados numa competição na qual diferenças de poderio entre as equipes são muito mais estreitas do que os frios números da classificação?
Ainda acho que o índice de produtividade deve balizar todas as equipes, porque é espécie de plano de vôo que permite medidas táticas para correção de rotas. Estatisticamente, chega-se à Taça Libertadores com aproveitamento de 58%, ao título do Brasileiro com 68% e se foge do rebaixamento com 39,5%. Em todas as situações, há margem de manobra, de conforto. Eventuais sazonalidades que possam aparecer no radar, detectadas em constante monitoramento, poderão ser cautelarmente tratadas. Um caso típico é o índice de produtividade da Série A, que confere a liderança ao Palmeiras com 58,1% dos pontos, quando a marca em outras temporadas garantia apenas o quarto lugar.
Total de 992 matérias | Página 1
14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS