Administração Pública

Projeto Santo André 500 Anos
é futuro escorregadio demais

DANIEL LIMA - 25/04/2023

É muito difícil saber onde vou estar em 2053, ou seja, daqui a 30 anos. E se você acha que pode especular também com sua sorte, estará na mesma situação.  Imagine então uma obra coletiva, como um Município, por exemplo? Por isso, Santo André 500 Anos, o projeto futurista do prefeito Paulinho Serra, não passa de loteria.

Mas não é somente por desafiar o tempo que Santo André está num mato de prospecção cronológica sem cachorro de instrumentalização técnica. 

Desafiar o tempo sem apetrechamento necessário só aumenta a margem de erro. Mas é melhor contar com margem de erro extrapolada do que não ter margem de erro por incompetência ou imprevidência. 

Ao definir o marketing do plano de marcar espaço temporal como influenciador de decisões em Santo André, quer como prefeito, quer como outras coisas mais, Paulinho Serra e assessores foram audaciosos. Mas audácia sem preparo vira patetice. 

TEMPO FATIADO 

Considerando-se que Paulinho Serra está na Prefeitura há seis anos (vamos esquecer os tempos de secretário municipal e de vereador nulos no aspecto futurista) e que para chegar a 2053 ainda serão necessários outros 30 anos, teremos praticamente 40 anos de atuação. 

Essas quatro décadas são emblemáticas como anteposição cristalizada ao futuro com alto grau de insolvência sob efeitos de sortilégios, aleatoriedades e uma variedade de probabilidades. 

Os quatro décadas de desindustrialização e empobrecimento de Santo André  já se complementaram e nada indica que deixaram de invadir a quinta década, enquanto a largada das quatro décadas rumo a Santo André 500 Anos patina sem parar. 

Esta terceira década deste século conta com acavalamento preocupante, ou seja: a desindustrialização arrefeceu, mas segue adiante enquanto o reformismo vacila. 

FALTA O MOTOR 

O motor de ignição que fará Santo André iniciar recuperação consistente é o Desenvolvimento Econômico. A pasta ganhou o apêndice de Sustentável nestes anos de proteção ambiental e de consumo responsável.  Um desafio e tanto. 

E é justamente aí que a roda da negligência e do ufanismo pega, além de outros vetores sobre os quais o prefeito Paulinho Serra tem participação relativa de acordo com os pedaços de tempo em forma de avos da equação completa. 

Ou seja: considerando-se que Santo André começou a perder viscosidade econômica no início da década dos anos 1980 do século passado, Paulinho  Serra tem seis avos de 42 avos completos.  

Se estiver por aqui, o que não é muito provável porque o tempo passa na catinga da fumaça, terei a oportunidade, quem sabe, de escrever especificamente sobre esse temário sem ser atropelado pelo uso de Inteligência Artificial, porque seria o original, não a linear cola digital. 

FRACASSO PLANEJADO 

O que escreveria? Que a caçapa da deterioração de Santo André como ambiente de progresso econômico e de mobilidade social, entre outros indicadores de Primeiro Mundo, foi cantada antes deste século começar. A Santo André 500 Anos seria um fracasso planejado por falta de planejamento. 

Quem sabe mesmo não estando em 2053 de corpo, mas apenas de alma, que não seja penada, esteja este jornalista contemplado pela tecnologia protetora do passado impresso em páginas de jornais e revistas ou em páginas digitais. Minhas analises poderiam ser escrutinadas por novas gerações.  

Rezarei para estar por aqui vivinho da silva porque gostaria mesmo de presenciar o confronto do passado de avaliações críticas e o futuro, que vai virar presente, de consumação de perspectivas. 

DIAGNÓSTICO CLARO 

Pelo andar da carruagem de triunfalismo, improviso, protecionismo, hegemonismo e arrogância do Paço Municipal, não há como preparar um diagnóstico positivista sobre a Santo André 500 Anos. 

Seria muita desonestidade intelectual juntar-me aos tocadores de bumbo de festança de fim de feira e proclamar agora uma Santo André progressista. 

Os dados que exaustivamente apresento em forma de análises sobre Santo André individualmente ou em confronto com outros endereços não deixam dúvida: há um encadeamento de obstáculos que superam largamente as pontas ainda sujeitas a revigoramento do tecido surrado da antiga Capital Econômica do Grande ABC.

MANDATOS PRIVILEGIADOS 

O prefeito Paulinho Serra vai completar dois mandatos bafejados pela sorte eleitoral. Primeiro, substituiu o PT sob os efeitos deletérios do desastroso governo de Dilma Rousseff. Segundo, mobilizado pela máquina de dinheiro público federal durante o pior período da pandemia do Coronavírus. Ir às ruas em busca de votos era uma temeridade. 

São dois mandatos em que muito mais poderia ter sido feito, mesmo se ressalvando a paralisia econômica de 2020 por causa do Coronavírus. 

Paulinho Serra perdeu uma grande oportunidade porque sempre desprezou a fonte de todas as medidas regenerativas do tecido econômico e social de Santo André: um Planejamento Estratégico que, isto sim, mirasse as próximas décadas. 

Bastaria dar o tiro de largada, construir algumas pontes rumo ao futuro (não necessariamente pontes na improdutiva Avenida dos Estados) e obrigasse, por inércia, os sucessores a seguirem a caminhada de complementariedades. 

TEMPO DESPERDIÇADO

O prefeito Paulinho Serra da Santo André 500 Anos jogou no lixo uma grande oportunidade que o destino lhe concedeu. Pegou uma Santo André no fundo do poço de um passado longevo de perda e passou até agora seis temporadas sem se dar conta de que a inação só elevou a carga de estragos a uma nau que está à deriva.  As águas da competitividade de concorrentes estão revoltas. 

A grande contradição da gestão de Paulinho Serra é que se abriu uma janela de oportunidade esclarecedora sobre a Santo André que de fato temos hoje sem que ele e seus parceiros de jornada se dessem conta de que dispunham também de um portal de possibilidades.

A janela de oportunidade é o caudaloso contingente de pobres e excluídos de Santo André. A mulher do prefeito e deputada estadual Carolina Serra obteve praticamente todos os quase 200 mil votos em Santo André exatamente porque concentrou o poderio bélico-eleitoral na periferia de Madres Terezas. 

BOLSA EXCLUSÃO 

Com projetos sociais que combinam preocupação ambiental e rendimentos extras junto a 120 entidades, Carolina Serra descobriu o filão do que chamaria de Bolsa Exclusão. Um Bolsa Família mais focalizada e menos dependente de dinheiro público. 

Se do couro sai a correia, da miséria e da pobreza explodem as iniquidades geradas pela flacidez econômica. Santo André só conta com tanta gente necessitada do Poder Público (18 mil famílias são atendidas pelo Bolsa Família do governo federal) porque a mobilidade de classes se esvaiu na correnteza da desindustrialização. 

Desindustrialização até prova em contrário é cria exclusiva da incapacidade de competir por investimentos, empregos e produção. 

NÃO FALTOU ALERTA 

Ao longo de 40 anos, Santo André e São Caetano são os casos mais graves de perda do tônus industrial. Santo André ainda mais porque não passa de 12% o contingente formal de trabalhadores industriais. Nos anos 1970 ultrapassava 60%. 

A 168ª posição de Santo André no Ranking Estadual do PIB per capita resume a hecatombe que sofreu no período. Uma situação gradualmente caótica que se agravou na última década, até 2020, quando o PIB per capita local sofreu perda de 19%. 

É nesse ponto que Paulinho Serra precisa ser cuidadosamente avaliado tanto nestes dias quanto no futuro, fugindo-se de narrativas contaminadas por compadrios na mídia. 

O tucano foi alertado antes mesmo de tomar posse do primeiro mandato sobre um aparato de medidas para retirar Santo André da pasmaceira econômica, matriz de todos os males. A seguir na toada atual, deixará Santo André após oito anos em situação pior do que a encontrou. 

Afinal, quando se perde ainda mais força econômica enquanto outros municípios avançam, a queda relativa e a queda absoluta compõem uma obra macabra. 

TEMPO ESCASSO 

Não creio que em menos de dois anos que restam o prefeito Paulinho Serra dará início ao que chamaria de reversão de expectativas no campo econômico. 

O tucano ainda se ilude com premiações sem valor competitivo algum, deixa-se levar por lunáticos eleitorais e não se debruça sobre meia dúzia de projetos factíveis para, pelo menos, dar um norte aos futuros ocupantes do Paço Municipal. Cidade Capuava e Cidade de Plástico são convergentes, mas se alguém perguntar ao prefeito do que se trata uma e outra, não saberá responder. 

Ainda jovem, é possível, participante do grupo hegemônico de Santo André, que Paulinho Serra volte a ocupar a cadeira principal do Paço Municipal. 

É possível também até que tome iniciativas que pretenderiam corrigir o roteiro básico de uma Santo André reformista. 

É também possível que chegue ao ano 2053 vendo o Projeto 500 Anos efetivado em um e em outro ponto, porque é impossível errar em todas as tentativas. 

Entretanto, o bilhete premiado estará cada vez mais inacessível na medida em que Santo André dá apenas sinais tênues de reunir forças coletivas libertadoras do jugo da tirania de partido único.  

Temos uma Rússia do Grande ABC, com sonhos imperialistas de controle político regional. Uma barbaridade de insensatez para quem não cumpre tarefas básicas no próprio território.  



Leia mais matérias desta seção: Administração Pública

Total de 854 matérias | Página 1

26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO
08/12/2025 PREFEITO DO ANO NÃO É PREFEITO
05/12/2025 UMA OBVIEDADE MAIS QUE EXTRAVAGANTE
04/12/2025 VOCÊ DECIDE QUEM É O MELHOR EM OITO ANOS
11/11/2025 POUPATEMPO DA SAÚDE PREJUDICA QUALIDADE
28/10/2025 IPTU DE SANTO ANDRÉ É O MAIS CARO DA REGIÃO
23/10/2025 RAPA GERAL APÓS O DESASTRE DE DILMA
22/10/2025 SANTO ANDRÉ: PIB DESABA, MAS IMPOSTOS DÃO SALTO
19/09/2025 MORANDO VENCE FÁCIL PAULINHO E AURICCHIO
12/09/2025 DECADÊNCIA ECONÔMICA E DECADÊNCIA IMOBILIÁRIA
03/09/2025 PAULINHO PERDE OUTRA VEZ PARA ORLANDO E AURICHIO
29/08/2025 PAULINHO PERDE DE NOVO PARA MORANDO E AURICCHIO
28/08/2025 PAULINHO PERDE PARA MORANDO E AURICCHIO
21/08/2025 DE BRAÇOS DADOS COM SECRETÁRIOS SUSPEITOS
14/08/2025 BRASILEIRO DE QUALIDADE DE VIDA: PERDEMOS DE NOVO
29/07/2025 VEREADORES X SEGURANÇA E A DISPUTA TERRITORIAL
23/07/2025 ORLANDO MORANDO VIRA XERIFÃO METROPOLITANO
17/07/2025 GILVAN ALCKMIN ATACA COM MELHOR ESQUINA
26/06/2025 UM HOSPITAL DE INADIMPLENTES