Uma lição básica para entender o que se descortina para a Santo André do futuro passa necessariamente pelo passado vivido e pelo presente de inércia. A cidade mais desindustrializada do Estado de São Paulo ao longo dos últimos 40 anos perdeu o rumo da prosperidade. Desabou no ranking de PIB por habitante. Está na nona divisão estadual, quando se considera que cada divisão corresponde a 20 posicionamentos. Santo André é a 168ª colocada quando se tem como referência o PIB dos Municípios Brasileiros de 2020, o mais atualizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O que o leitor vai acompanhar em seguida é uma peça de ficção pautada pela realidade histórica. Os diálogos que se seguem não são propriamente uma invenção desgrudada dos fatos. Muito diferente disso.
Reunimos nesse encontro virtual e espiritual, por assim dizer, os sete últimos prefeitos de Santo André. Desde o início dos anos 1980. De Lincoln Grillo, passando por Newton Brandão, por Celso Daniel, por João Avamileno, Aidan Ravin, Carlos Grana e Paulinho Serra. São quatro décadas resumidas numa entrevista que vale a pena ser acompanhada.
O conceito editorial que gerou essa entrevista tem como base de compreensão uma audiência formada por estudantes do Ensino Fundamental. Ou seja: os adultos terão muito mais facilidades à compreensão.
CAPITALSOCIAL – Já conversamos preliminarmente e os senhores sabem qual é a pauta básica. Mas para não deixar dúvida, repito: vamos falar de Santo André a partir de 1976, quando um dos senhores assumiu o Paço Municipal, e chegaremos a 2023, quando também um dos senhores está na cadeira de prefeito. Afinal, qual será Santo André do futuro?
CELSO DANIEL – Se me permite, e sem que me vejam como o senhor da razão, a Santo André do futuro desejado foi deixada acabadíssima como planejamento estratégico por mim antes de decidir viajar, como estou viajando até hoje. O meu primeiro governo, de 1989 a 1992, foi apenas uma experiência não muito bem sucedida. Mas entre 1997 e começo de 2002, a história foi outra.
JOÃO AVAMILENO – É verdade. Como petista que sucedeu o meu companheiro Celso, não há dúvida de que tudo estava ali bem desenhado. Peguei o bonde andando em janeiro de 2002 por causa da viagem do meu companheiro e fui até 2008, quando encerrou o período de minha reeleição.
CARLOS GRANA – O projeto estava tão bem desenhado que até o meu sucessor resolveu usurpar aquele trabalho. Mais que isso: o desmereceu, pretendeu esquecer tudo, e lançou um novo projeto, sem pé nem cabeça, dizendo que era pioneirismo pensar na Santo André do futuro.
PAULINHO SERRA – Não esperava ser cutucado de imediato pelo meu antecessor, o qual derrotei nas eleições seguintes, em 2016, com enorme facilidade. Gente de um só mandato, como ele, de 2009 a 2012, não pode falar muito.
AIDAN RAVIN – Está mexendo comigo. Conheço bem esses dois. Bati e apanhei dos petistas para virar prefeito e o Paulinho foi meu companheiro no Legislativo. Se deixar, eles vão trocar golpes o tempo todo.
CARLOS GRANA – Nada disso. Você sabe que sou da paz, mas não posso ficar quieto diante do que vejo. Ser eleito como o Paulinho foi na esteira do desastre da minha companheira Dilma, e ganhar a reeleição durante o Coronavírus, com dinheiro da saúde a rodo, é muito fácil.
NEWTON BRANDÃO – No meu tempo o PT estava apenas começando e eu tinha os ricos, a classe média e os pobres à minha disposição eleitoral. O futuro de Santo André nunca me preocupou, porque a gente tinha recursos orçamentários para tocar a Prefeitura sem susto. Meu gabinete era uma festa. A gente tinha dificuldade para saber onde iria aportar os recursos do orçamento porque sobrava dinheiro e faltavam demandas.
LINCOLN GRILLO – Dirigi Santo André durante seis anos, entre 1977 e 1982, quando fui sucedido pelo Brandão. Também não via dificuldade alguma. Tinha dinheiro para tocar a vida da cidade. Quase 50% do orçamento estava livre para obras.
CAPITALSOCIAL – Será que não teria sido por conta disso, ou seja, de despreocupação com o futuro, que o futuro agora, em forma de presente, virou um presente de grego?
CELSO DANIEL – Acho que até meados dos anos 1990, quando fui eleito pela segunda vez, a gente não tinha compreendido na plenitude da situação como o futuro da cidade poderia estar comprometido. Quando assumi, em janeiro de 1997, já estava claro que precisávamos agir. Tanto é verdade que criamos a primeira Secretaria de Desenvolvimento Econômico no Grande ABC. Aliás, atendemos a um pedido do caro jornalista, que comandava a revista LivreMercado.
CAPITALSOCIAL – Você, Celso, não está esquecendo que no seu primeiro mandato, em 1990, liderou o lançamento do Clube dos Prefeitos, que os conservadores chamam de Consórcio dos Prefeito?
CELSO DANIEL – Claro que não, claro que não. Mas até ali a gente não tinha a economia como plataforma de prioridade. Aliás, quem botou a Economia entre as grandes preocupações da região foi a revista LivreMercado, criada alguns meses antes do Clube dos Prefeitos.
PAULINHO SERRA – Eu era jovem e desligado demais para entender o que se passava em Santo André. Nem pensava em ser vereador. Mas comecei a tomar conhecimento sobre quem era Celso Daniel. Não posso falar isso abertamente, mas sonhei em ser o Celso Daniel. Tanto que passei a ficar de olho no legado do Celso Daniel. Até o dia em que decidi mudar e olhar o PT e o Celso Daniel com outros olhos. Eles passaram a ser adversários. Depois, todos sabem, viraram meus aliados. E agora, pelo visto, voltarão a ser adversários. Mas tenho uma boa fatia de lideranças petistas comigo.
CARLOS GRANA – Mas antes disso você se aproveitou bem do PT e do Celso Daniel. Veio para a minha administração, virou secretário de Mobilidade Urbana, fez uma bagunça com os corredores de ônibus, e no fim das contas acabou bandeando para o lado dos tucanos.
JOÃO AVAMILENO – Não posso dizer o que sei porque sei o que estou pensando, mas o fato é que o Paulinho Serra foi traíra com o PT. Ele prometeu um esquema de rodízio a frente da Prefeitura e depois que assumiu o cargo resolveu esquecer o tratado.
PAULINHO SERRA – Protesto. Isso é intriga da oposição.
CAPITALSOCIAL – Acho que estamos deixando a pauta principal de lado. Queremos saber sobre o futuro de Santo André.
LINCOLN GRILLO – Ninguém pode me acusar de ser descuidado com a Santo André que viria no século seguinte. Quem pode adivinhar o futuro provocado por tantas transformações? Estávamos muito bem na fita de crescimento econômico. No final dos anos 1970, começo dos anos 1980, quando fui prefeito, sobravam empregos nas fábricas, o comércio local era forte, não havia grandes conglomerados a tirar consumidores das empresas familiares. A Avenida dos Estados nem estava obsoleta. Santo André era uma maravilha.
CAPITALSOCIAL – Foi nesse período que se imantou o mantra de que Santo André era uma espécie de joia da coroa de competitividade do Grande ABC e se criou o bordão de que com o Porto de Santos e o Aeroporto tão próximos não daria para ninguém.
LINCOLN GRILLO – Naqueles dias se justificava essa equação. Depois as coisas mudaram.
NEWTON BRANDÃO – Bem lembrado, amigo Lincoln. Me permita chamá-lo de amigo porque agora somos amigos mesmo nessa longa viagem. Lá embaixo tínhamos nossas diferenças. Você era sindicalista aguerrido, dos bancários, e eu era um médico conservador. Mas você tem razão e falo isso também em minha defesa. Fui prefeito nos seis anos seguintes à sua administração, entre 1983 e 1988, e Santo André ainda estava respirando economicamente muito bem.
LINCOLN GRILLO – Mas você voltou a ser prefeito de novo, agora entre 1993 e 1996.
NEWTON BRANDAO – Foi aí que comecei a entender a diferença. A desindustrialização já não escondia seus efeitos deletérios. O orçamento público já não era tão generoso a planos de obras. A situação começou a mudar. A Avenida dos Estados já estava na guilhotina de produtividade. E São Bernardo tomou a dianteira como Capital Econômica.
CELSO DANIEL – A bomba sobrou no meu colo. Como prefeito de 1997 a 2001, peguei o rabo de foguete de grandes transformações no País. O fim da espiral inflacionária com o Plano Real em 1994, a abertura econômica, o tratamento desigual às pequenas indústrias em relação às montadoras, tudo isso, colaborou intensamente para a queda de arrecadação e o aumento do custo social.
AIDAN RAVIN – Não é por nada não, mas não esqueça do sindicalismo.
CARLOS GRANA – Acho melhor não levar a Santo André do passado e do futuro para o campo sindical. Vou me sentir incomodado como dirigente de sindicato e de centrais sindicais. Não quero perder o foco.
JOÃO AVAMILENO – Como ex-sindicalista metalúrgico também acho melhor a gente se concentrar em outras questões.
NEWTON BRANDÃO – Nas três vezes em que fui prefeito, não tive problema algum com sindicato.
PAULINHO SERRA – Como ainda tenho muitas relações com sindicalistas do PT, com os quais fiz acordo de governabilidade, também caio fora desse assunto. Numa prova de que estou aberto a acordos, coloquei um sindicalista para dirigir a Agência de Desenvolvimento Econômico. As más línguas o chamam de Avoaldo, um trocadilho maldoso porque o nome dele e Aroaldo. Trocaram a consoante para dizer que ele é dissonante.
CAPITALSOCIAL – Voltando ao projeto de Santo André do futuro: caro Celso Daniel, você deixou o Santo André Cidade Futuro e o Paulinho Serra introduziu o Santo André 500 Anos. Tem alguma coisa a ver com a outra?
CELSO DANIEL – Fico lisonjeado com a homenagem de um tucano, mas lamento que ele tenha escondido isso de terceiros. Mais que isso: que tenha usurpado a paternidade da proposta. Poderia o Paulinho, muito bem, ter chamado a imprensa e dito que faria uma homenagem a mim relançando aquele projeto com adaptações pelo que fizemos para a sociedade de Santo André naquele fim do século passado.
CARLOS GRANA – Faz me rir, Celso, faz me rir. Conheço o Paulinho. Você acha que ele teria essa grandeza? A turma que o cerca jamais permitiria.
CELSO DANIEL – Turma que o cerca?
AIDAN RAVIN – Deixe que eu respondo, Grana, deixe que eu respondo. O fato, Celso, é que o Paulinho Serra montou um consórcio muito particular para dirigir Santo André. O Consórcio de Prefeitos, que você conhece bem, porque foi você que o lançou em dezembro de 1990, é apenas um apêndice. O consórcio de verdade da gestão do Paulinho Serra é outro?
CELSO DANIEL -- Estou morrendo de curiosidade.
AIDAN RAVIN – Ele tem um grupo com ajuntamento de políticos de todos os partidos, tem até o Gilberto Kassab como parceiro, tem um sarapatel diretivo, e vai tocando Santo André.
LINCOLN GRILLO – Barbaridade, barbaridade. No meu tempo quem mandava era eu e mais ninguém. Meus assessores eram assessores, apenas assessores.
NEWTON BRANDÃO – Comigo também não tinha disso não. Eu dava mole apenas para a turma do transporte, porque ninguém é de ferro. Aliás, o Lincoln também dava as regalias para o pessoal dos ônibus. Depois é que se criou um pandemônio, quando decidiram mandar o Celso para outro mundo.
JOÃO AVAMILENO – Eu dirigia Santo André com o PT. É verdade que houve um racha no partido assim que o Celso Daniel foi viajar. Mas, como prefeito que assumiu o cargo, ganhei a parada. A turma mais ligada ao Celso acabou abandonado o barco. Acho, cá entre nós, que foi a partir daí que começamos a afundar em Santo André.
AINDAN RAVIN – Aproveitei-me bem da situação e de um simples vereador bem votado virei prefeito da cidade. O Vanderlei Siraque foi sacaneado pelos próprios correligionários do PT. Chegou à beira da vitória no primeiro turno, faltando menos de dois pontos percentuais para comemorar a conquista, e o derrotei no segundo turno porque todo mundo, menos o PT, ficou do meu lado. Virei a Zebra de Branco. Os institutos de pesquisa davam o Siraque como vencedor potencial, mas nos últimos dias o barco virou.
PAULINHO SERRA – Você foi mesmo uma zebra, não tem como negar.
CAPITALSOCIAL – Repararam o quanto vocês falam mais de política do que de futuro de Santo André? Isso continua até hoje. Debates esclarecedores sobre a situação econômica da cidade são uma raridade. Projetos, então, nem falar.
CARLOS GRANA – Mas o que não falta mesmo é premiação para Santo André. O prefeito atual esmera-se em alardear conquistas de diferentes instituições. Acho que até criaram um departamento para participar de tudo quanto é premiação País. Daqui a pouco vão dizer que conta com os melhores servidores públicos em arremesso de peso.
AINDAN RAVIN – Sei bem o que é esse negócio de premiação. No meu tempo de prefeito também de me deram várias premiações. Na maioria dos casos, eram prêmios combinados. Serve para lustrar o ego, mas não resolve nada lá na frente.
LINCOLN GRILO – No meu tempo não tinha nada disso não. Era pau, pau, pedra, pedra. A gente estava voltado para a administração propriamente dita. Esse marketing político não tinha vez.
NEWTON BRANDÃO – Nas minhas administrações também o marketing não tinha vez, mas entendo a mudança dos tempos. A guerra pela informação é cruel. Principalmente depois de inventarem esses aparelhos portáteis que falam com o mundo.
CARLOS GRANA – É verdade. Nunca recebi tantos telefones e mensagens depois que saiu a pesquisa do Instituto Paraná me colocando no jogo da sucessão em Santo André no ano que vem. O Diário do Grande ABC escondeu a informação, mas o CapitalSocial escreveu e virou tudo de ponta cabeça. Estou no jogo.
AIDAN RAVIN – Fico imaginando como seria eu mesmo numa disputa eleitoral com essas modernidades tecnológicas. Ganhei uma eleição para prefeito gastando sola de sapato. Diziam todos que carisma igual jamais ninguém teve entre os prefeitos. Acho que os smartfones de hoje em dia seriam um bom reforço, mas não abriria mão de ir às ruas.
NEWTON BRANDÃO – Não vou puxar a sardinha para minha brasa, mas em matéria de empatia, de carisma, acho que tinha mais tamanho que você, caríssimo Aidan. Santo André se ajoelhava a meus pés. Do Guaraciaba ao Bairro Jardim.
LINCOLN GRILLO – Diziam que eu não era muito simpático, mas dei conta de uma disputa sem atropelos. Carisma é uma coisa subjetiva. O Celso Daniel não tinha carisma, diziam muitos, mas as vitórias o tornaram carismático.
JOÃO AVAMILENO – Conheci bem o companheiro Celso e posso garantir que ele tinha um carisma diferente do convencional. Ele conquistava as pessoas na simpatia discreta. Na atenção a todos. Com muita educação. O que ninguém fala porque poucos sabem é que o companheiro Celso se transformava num palanque. Era um aguerrido petista.
CARLOS GRANA – Simpatia por simpatia acho que também tenho essa virtude. Sei lidar principalmente com o povão, mas a classe média nunca me virou as costas.
PAULINHO SERRA – Sempre me chamaram, de filhinho do papai da política, que me dava bem apenas com a turma do Bairro Jardim. Mas provei em duas eleições que também lido bem com a periferia. A minha gente me consagrou.
AIDAN RAVIN – Mas isso não lhe dá o direito de tomar do Celso Daniel o que é do Celso Daniel. Você deveria vir a público e confessar que a Santo André do futuro que você anda anunciando é a Santo André do futuro do Celso Daniel.
LINCOLN GRILLO – Li outro dia que o Paulinho está gastando os tubos para reestruturar um viaduto na Avenida dos Estados, depois de ter gastado muito também com outro viaduto. No meu tempo a Avenida dos Estados não era problema, e hoje só é problema porque o Paulinho Serra e outros ainda não entenderam que não há conserto para corrigir a falta de logística em Santo André. Tudo bem que se gaste dinheiro, que se melhore a situação, mas é melhor não vender a ilusão de problema resolvido.
NEWTON BRANDÃO – Devo reconhecer que Santo André perdeu competitividade econômica no campo de acessibilidade. Virou um forrobodó logístico.
CELSO DANIEL – Isso também estava contemplado no projeto Santo André Cidade Futuro. Não cuidaram da infraestrutura física da cidade e da região e ficamos encalacrados. Cansei de sugerir medidas. O Eixo Tamanduatehy era indispensável ao futuro que chegou.
PAULINHO SERRA – Não acho que o jogo está perdido em logística. Estou confiante de que atrairemos muitos condomínios da área.
CELSO DANIEL – Condomínios para atendimento de atividades não produtivas, para atender o mercado de comercio eletrônico, não são condomínios com estofo para reduzir o impacto da desindustrialização.
CARLOS GRANA – Companheiro Celso, acho melhor não entrar em detalhes sobre economia porque tem gente aqui que vai ter dificuldade imensa de captar a mensagem. Você deu aula na Fundação Getúlio Vargas. Não desperdice seu tempo.
PAULINHO SERRA – Espero que seu olhar em minha direção não seja o endereçamento da sugestão ao Celso Daniel.
CARLOS GRANA – Imagine, Paulinho. Somos parceiros de jornada. Não é porque poderei voltar à batuta eleitoral que esquecerei os tempos em que estivemos juntos. Você foi meu secretário. Não consigo esquecer disso.
AIDAN RAVIN – Senti uma ponta de ironia nessa resposta, caro Grana.
JOÃO AVAMILENO – Vamos deixar de conversa fiada e retomemos o que interessa. Espero que cada um de nós faça sua mea-culpa. Eu faço a minha: a ruptura do PT em Santo André por conta da candidatura à minha sucessão, entre a Ivete Garcia e o Vanderlei Siraque, acabou sim por comprometer o futuro de Santo André. O plano do Celso Daniel foi jogado às traças. Esperar que a direita desse prosseguimento aquela proposta seria muita ingenuidade.
CARLOS GRANA – Tanto é verdade que o Paulinho Serra quer fazer uma colagem da herança do Celso Daniel e atribuir a si mesmo uma revolução. Agora que foi descoberto em flagrante delito autoral, provavelmente poderá mudar de ideia.
AIDAN RAVIN – E deveria mudar mesmo, porque projetar Santo André para 2053 é muita petulância quando se sabe que tanto ele quanto seus antecessores, inclusive eu, não deram conta do recado nos primeiros 22 anos desse século.
CAPITALSOCIAL – Até porque o futuro de Santo André está atrelado de alguma forma ou de muitas formas ao desenvolvimento econômico e social do Grande ABC como um todo, como ficam diante da situação que está aí?
CELSO DANIEL -- Mais uma vez sou obrigado a deixar a modéstia de lado. Também no campo de regionalidade, como da municipalidade de Santo André propriamente dita, deixei o legado para ser efetivado. Criei o Clube dos Prefeitos, a Agência de Desenvolvimento Econômico e a Câmara Regional. Tudo a partir do primeiro ano do segundo mandato de prefeito, em 1997. Infelizmente, as cidadelas foram caindo uma a uma.
CARLOS GRANA – É verdade. O pai da regionalidade do Grande ABC é meu amigo Celso Daniel.
AIDAN RAVIN – Sou obrigado a concordar. No campo público, ninguém falou tanto quanto Celso Daniel. Hoje o que temos de regionalidade é muito oportunismo.
JOÃO AVAMILENO – O companheiro Celso deixou muitas lições nesse campo.
NEWTON BRANDÃO – Não exercitamos qualquer política pública fora do quadrado de Santo André porque essa história de regionalidade não existiu durante os três mandatos que exerci. Era Santo André e o resto.
LINCOLN GRILLO – Se falasse alguma coisa fora do interesse de Santo André no período em que fui prefeito, na década de 1970, início de 1980, iriam me chamar de louco. A gente jamais olhou para os vizinhos como eventual parceiro. A gente tinha investimentos privados que corriam à margem de qualquer peça de marketing. Éramos todos municípios autossustentáveis.
PAULINHO SERRA – Não vou me manifestar muito sobre regionalidade porque já cansei de tentar enganar o distinto público. O Clube dos Prefeitos é um penduricalho que pode ser dispensado de avaliação.
CELSO DANIEL – Antes mesmo de iniciar minha viagem já tinha jogado a toalha da regionalidade. Senti que não havia vocação de meus contemporâneos de mandatos públicos no sentido de aproximação e ganhos sistêmicos. Estava muito preocupado com a região e me esquecia de Santo André. Era quase que um bobo da corte.
CARLOS GRANA – Regionalidade do Grande ABC só funciona em casos excepcionais em contextos excepcionais. É uma exceção à regra de individualidades municipais. Um exemplo? Acho que o PT deve repetir no ano que vem o que já fez em outras situações, ou seja, planejar disputas eleitorais que levem em conta a realidade de cada Município e um complemento estratégico que tenha os ganhos de escala na região.
CAPITALSOCIAL – O caso de São Caetano, nas eleições de 2012, é emblemático. O PT virou um Cavalo de Troia de Paulo Pinheiro, candidato do PMDB, e derrotou a médica indicada pelo prefeito José Auricchio para a sucessão.
CARLOS GRANA – Não sei o que aconteceu em São Caetano, mas o que posso dizer é que naquelas eleições a gente ganhou de lavada em todo o País.
AIDAN RAVIN – Bem diferente de 2016, depois do impeachment da Dilma Rousseff e do escândalo da Lava Jato.
CARLOS GRANA – Dá para você mudar de assunto? Aliás, pensando bem, devo dizer que foi exatamente por isso, entre outros pontos, que não me reelegi em Santo André. Fiquei com a brocha de obras incompletas na mão. Não tive recursos federais para completar o ciclo de investimentos e o ambiente político nacional se tornou tóxico para o PT.
JOÃO AVAMILENO – Bem lembrado, companheiro Grana. Bem lembrado. Quando ganhei em 2004, depois de dois anos como prefeito tampão, o cenário político nacional era melhor. Derrotei o Brandão por seis pontos percentuais de diferença.
NEWTON BRANDÃO – Foi minha última tentava. Queria ser tetra. O eleitorado em Santo André passou a ser dividido entre conservadores e petistas a partir da ascensão de Celso Daniel.
PAULINHO SERRA – Menos nas duas últimas eleições, que ganhei de lavada.
CARLOS GRANA – Não se pode esquecer da primeira, sob efeitos da Lava Jato e da Dilma, e da segunda, por causa do Coronavírus. No ano passado, para presidente da República, a situação já voltou à normalidade. O Lula teve 48% dos votos em Santo André. Que se prepare, Paulinho.
LINCOLN GRILLO – Cheguei à Prefeitura de Santo André em 1977 porque havia um ambiente oposicionista no Brasil. Fui beneficiado pelo voto de protesto, de contestação. Como em muitos outros municípios.
CAPITALSOCIAL – Vamos interromper esse encontro para um café parrudo. Mas, antes disso, uma perguntinha para todos: por que vocês acham que a Bridgestone está diminuindo participação em Santo André com o fechamento da divisão de pneus de passeio?
LINCOLN GRILLO – Os sindicalistas são frouxos. No meu tempo seria tudo diferente.
PAULINHO SERRA – No seu tempo foi tudo diferente nas relações entre capital e trabalho. Agora o buraco é mais embaixo.
JOÃO AVAMILENO – Acho que faltou conversa aqui, conversa ali, mas devo reconhecer que a maré não está para peixe sindical.
CELSO DANIEL – Acho que tudo está seguindo rigorosamente o roteiro previsto. Se tivéssemos um setor de serviços pujante a preocupação seria mínima. Como não temos, o desemprego e a perda fiscal vão se alastrar.
AIDAN RAVIN – Nunca me preocupei com a indústria de Santo André. Se falar agora, posso falar bobagem.
CARLOS GRANA – Como sindicalista que fui por muito tempo, prefiro me abster.
NEWTON BRANDÃO – Sigo o Aidan. Indústria nunca foi minha preocupação. Não visitei uma empresa sequer durante meus três mandatos. O dinheiro vinha fácil em forma de arrecadação. A gente só se preocupava com em fazer obras com dinheiro próprio, farto. Agora é empréstimo daqui e dali que não acaba mais. Quero ver quem vai pagar essa conta.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO