O Clube dos Construtores da Família Bigucci, (oficialmente Acigabc, Associação dos Construtores e incorporadores do Grande ABC) pode tomar conta do futuro urbanístico, logístico-competitivo e tudo que se refere ao uso e ocupação do solo de Santo André do prefeito Paulinho Serra.
A privatização do território de um dos maiores municípios do Estado de São Paulo não se daria num assalto de mão estratégica armada.
Seria uma espécie de cooptação do Poder Público.
A graça dos novos tempos do Brasil pós-Lava Jato é que as coisas não são como eram antes, ou como foram durante. Agora, são mais sofisticadas e sem perspectivas de complicações.
CONTROLE PRIVADO
O controle até onde seja possível do chamado Plano Diretor de Santo André não seria ação ilegal da Construtora MBigucci, envolvida no passado no escândalo da Máfia do ISS em São Paulo e em outros casos, agora regionais, como o empreendimento Marco Zero, em São Bernardo.
Desta feita, até prova em contrário, seria uma ação corporativa temperada de estofo institucional.
Corporativa porque envolve os interesses específicos da MBigucci. Institucional porque o Clube dos Construtores é uma propriedade informal da Família Bigucci desde que foi criado há 35 anos. Alguns poucos associados dão verniz de pluralidade.
A Acigabc é mesmo um clube de amigos travestido de associação empresarial. Não fosse o Bolsa Mesada do Secovi (Sindicato da Habitação, na Capital), não teria sobrevivido. A representatividade do Clube dos Bigucci é tão profunda quanto um desnível no asfalto.
REPRESENTATIVIDADE
Representatividade é aquele capital de classe espalhada por dezenas, centenas de associados. O Clube dos Construtores sempre foi uma espécie de Argentina em busca de ajuda para se manter.
Possivelmente nesta semana o Clube dos Construtores da Família Bigucci deverá entregar ao prefeito Paulinho Serra um anunciado elenco de propostas que seriam aplicadas na reforma do tecido urbano da cidade mais complexa em logística na região.
Santo André é um caso urbanístico que afasta investimentos em todos os setores. Há enormes armadilhas urbanas espalhadas por Santo André, com excessos de imóveis verticalizados em áreas sem infraestrutura de mobilidade. São armadilhas que convidam à improdutividade social no sentido de relações econômicas. A qualquer hora do dia em todos os cantos possíveis do Município há serpentina irritante de congestionamento.
PASSADO DE ESCÂNDALOS
Citar o Bairro Jardim, apenas, é discriminar muitos outros locais em que o uso de veículos é um exercício de paciência. Todos foram afetados ao longo dos anos por descuidos, negligências e, também, por corrupção.
O Escândalo do Semasa, durante a Administração de Aidan Ravin, caiu no esquecimento. E a maioria dos responsáveis está livre, leve e solta. As torres estão enfileiradas no território de Santo André como testemunhas físicas da libertinagem ética e do sadomasoquismo público.
Numa entrevista à versão de TV online do jornal Repórter Diário, Milton Bigucci Júnior, Milton Biguccinho, presidente do Clube dos Construtores da Família Bigucci, não só anunciou que uma série de propostas será apresentada ao prefeito Paulinho Serra como também fez vários comentários sobre alguns pontos que estariam reservados no documento.
BIGUCCINHO ENTREVISTADO
Na entrevista amistosa, ou seja, que não o apertou em nenhum momento, Biguccinho saiu-se melhor que o pai, Milton Bigucci, que, durante anos presidente do Clube dos Construtores da Família Bigucci e hoje um ocupante de cargo nominalmente secundário na entidade, sempre se utilizou de argumentados inconsistentes.
CÉU É O LIMITE
Milton Bigucção sempre defendeu o ponto crucial de interesse do setor imobiliário, a verticalização, usando como argumento capitais europeias. Inclusive e equivocadamente Paris. Esquecia-se, apenas, que aqueles tantos exemplos eram e são coalhados de infraestrutura de transporte público, principalmente redes de metrô.
Biguccinho demonstrou preocupação com o excesso de empreendimentos que tornam as ruas de Santo André um desafio a Indiana Jones. Também comentou sobre a possibilidade de incluir na legislação municipal a modalidade de retrofit, providencialíssima numa cidade que envelheceu demais e conta com prédios obsoletos.
Retrofit é pegar a unha prédios velhos, muitas vezes desocupados, outras vezes mal-ocupados, tantas vezes inadequados a determinadas atividades, e dar um banho de obras, transformando-os em residências, principalmente.
UMA BOA IDEIA
Biguccinho chegou até mesmo a falar, na entrevista, em conversão de prédios inúteis em residenciaissociais. Como São Paulo já anda produzindo. Não se deve negar que há apelo social na proposta. Independentemente de lucratividade, que faz parte e deve mesmo ser o combustível do capitalismo.
Por mais que eventualmente o Clube dos Construtores da Família Bigucci venha a apresentar sugestões, mesmo que tudo seja visto com olhos e mentes cândidos, nem assim a interferência da entidade deve ser saudada sem desconfiança. O braço do Secovi não seria diferente do Secovi de verdade, na Capital, acusado de interferir demais no Plano Diretor.
Nesse caso, nem o passado da Família Bigucci, declarada campeã de irregularidades pelo Ministério Público do Consumidor de São Bernardo, deve ser arguido como mecanismo de impedimento.
CADÊ A SOCIEDADE?
O que falta a Santo André e ao ABC Paulista como um todo é um contraponto da sociedade aos interesses públicos e privados que cercam a reestruturação do tecido urbano.
Diferentemente da Capital, por exemplo. Nestes tempos de produção do Plano Diretor, São Paulo conta com a atuação de um departamento temático do Insper e com isso vem atazanando a vida de mercadores imobiliários que pretendem fazer gato e sapato do espaço a ser ocupado com torres de tamanhos ilimitados.
Para se ter ideia do que aguarda a maior cidade da América Latina, o apetite do mercado imobiliário em forma de aumento do potencial de verticalização significa cinco vezes o tamanho territorial de São Caetano. São mais de 80 quilômetros quadrados que seriam liberados a prédios de todos os tamanhos.
SEM INTERLOCUÇÃO
No ABC Paulista órfão de pai e mãe de representação social no campo imobiliário, é natural que as forças de pressão não terão limites e tampouco vão abrir mão de vantagens muitas vezes comprometedoras à sociedade como um todo.
Afinal, quem não tem lugar numa mesa de discussões e estudos, porque não há quem represente o lado mais frágil da sociedade, acaba sempre levando a pior.
E a palavra-chave de qualquer Plano Diretor reúne tanta subjetividade quanto interesses nem sempre nobres. Trata-se de verticalização. Ou a construção o quanto mais elevada for possível de prédios de apartamentos, principalmente. Prédios comerciais também, claro, mas a demanda é numericamente inferior.
Os espertalhões do mercado imobiliário fazem do conceito de verticalização manobras semânticas que se desabam com um empurrão de bom-senso. Usam mil artifícios para amenizar o potencial de agressividade à qualidade de vida. Não lhes causa dor alguma na alma o entupimento de ruas e avenidas.
ALTURA DESCONTROLADA
Construir prédios elevadíssimos seria uma benção à classe dos empresários do setor. Eles têm o discurso pronto e não sem razão. Afinal, a compactação de moradias reduziria o grau de espalhamento de habitações no território municipal e, com isso, aliviariam os custos de investimentos públicos.
Levar infraestrutura material para atender novas demandas sociais custa mesmo muito caro. Sem contar toda a tralha de serviços públicos, principalmente nas áreas de educação e saúde.
Ou seja: verticalizar principalmente onde há eixos de transporte é uma graça divina produzida pelos construtores.
Claro que construtores e incorporadores omitem custos sociais da verticalização radical que tanto pregam. A saúde violada por engarrafamentos no trânsito custa comprovadamente muitos anos úteis de vida. A deseconomia de escala avança. Os psiquiatras proliferam.
Mas também há construtores que resistem ao mercantilismo insano e lutam por investimentos em moradias verticais que sigam alinhamento de qualidade de vida sob o risco de morrerem na praia da ganância.
OBSOLESCÊNCIA URBANA
Quanto mais se constroem arquipélagos verticalizados que eliminam ou reduzem a porosidade social como um todo, inclusive com a gentrificação dando as cartas, mais se condena um território à obsolescência urbana que um dia chegará.
Verticalizar a qualquer preço é um ganho de curto prazo para quem constrói, mas corrói dolorosamente o conjunto de atividades que se traduz em satisfação de viver numa determinada localidade.
Os bairros mais badalados do ABC Paulista são os piores endereços para quem quer sair ou chegar em casa e para quem não abre mão do silêncio noturno. Há situações que vedações nas janelas nada resolvem ante o alarido de bares barulhentos que rompem a madrugada e geralmente têm salvo-conduto para seguirem perturbando.
Domar o espírito de verticalização de construtoras em busca de lucro a qualquer custo não é tarefa fácil, mas o Poder Público Municipal, em geral, não está preocupado com isso. O prefeito de hoje não será o prefeito da próxima geração.
EXPRESSÃO-CONCEITO
A saída que o Primeiro Mundo já adotou há muito tempo, após experiências frustrantes com o conceito anacrônico e mercantilista de verticalização, é a complementariedade de duas palavras, que integram um conceito mais responsável: densidade demográfica.
Densidade demográfica combinada com edifícios controladamente confortáveis é permitir a construção de imóveis verticais que levem em conta não só a infraestrutura de serviços públicos disponíveis, como ou principalmente na área de transporte, como também uniformizar o tamanho das construções.
Mais prédios verticalizados sem pretensão de chegar aos céus são um acervo humanístico muito superior a muitos prédios sem eira nem beira que galgam o espaço aéreo.
O problema maior é que os maus construtores e os maus administradores públicos só pensam naquilo. O que é “naquilo?”. Ora, bolas, em verticalizar o máximo possível, onde for possível e deixar para o próximo prefeito a tarefa de corrigir os estragos que, de fato, vão se somar aos próximos dos próximos prefeitos.
ENCONTROS RESERVADOS
O que se sabe em Santo André é que não têm faltado encontros reservados entre o Secretário de Planejamento Acácio Miranda e dirigentes da Família Bigucci. Não só entre eles, mas também de um ou outros representantes do empresariado do setor que tem alguma relação com o Paço Municipal.
O mapa da mina do espaço a ser ocupado em Santo André é compartilhado por agentes públicos e privados. O Clube dos Construtores da Família Bigucci apenas formalizaria o que é possível formalizar.
O presidente Biguccinho prometeu aos ouvintes e leitores do jornal Repórter Diário que o documento a ser entregue ao prefeito Paulinho Serra está praticamente pronto.
O lobby de um lado apenas do balcão não é reconhecidamente a melhor prática ao equilíbrio de forças na sociedade. Mas o que se pode fazer se a sociedade de Santo André é apenas uma figura de linguagem. Não há lideranças que vejam e tratem o setor público e as entidades de interesses específicos com reservas mais que necessárias. A democracia não funciona bem com proibições lastreadas no passado. O contraditório é o melhor remédio. Mas isso está em falta há muito tempo na prateleira de institucionalidades do ABC Paulista.
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