A pergunta que faço na manchetíssima de hoje não invade necessariamente o terreno semântico ou objetivo de acusação ou denúncia, mas é sim teoricamente uma possibilidade que precisa ser ressaltada a bem da sociedade.
O direito à informação é um patrimônio moral de uma sociedade, principalmente quando do outro lado do balcão de demandas está a Administração Púbica. E como tal deve ser valorizado. Não demonizado, como se quem pergunta fosse um pária.
Infelizmente é isso que se tem configurado na região. O silêncio pactuado vale mais que a transparência obrigatória.
Está em execução o desenho imobiliário de Santo André para os próximos 10 anos. O problema é que o passado de irregularidades mal apuradas ou apenas parcialmente apuradas, quando não sufocadas, não recomenda tanta liberalidade como se tem visto. Há riscos de o desenho final jamais sair de acordo com os anseios dos contribuintes. Uma minoria de sempre, próxima do Poder, nadaria de braçadas.
FUTURO PREOCUPANTE
Portanto, o futuro pode ser tenebroso já que o presente é um desafio aos raios do sol. Parece que preferem outros raios. Raios que partem o coração. Quando não a razão.
Há várias questões que precisam ser colocadas sobre o Plano Diretor de Santo André. O leitor precisa entender que não é exagero ou forçada de barra a manchetíssima lá em cima. É precaução, não custa repetir.
Em qualquer lugar do mundo civilizado e disposto a punir bandidos sociais o arrombamento criminal gera reação em forma de medidas enérgicas.
Quando se rouba um Museu de Arte Moderna como se roubou em outros tempos em Paris por uma espécie de Homem-Aranha (o documentário está na Netflix) o mínimo que se espera é que o sistema de segurança então relapso seja revisto e reformatado.
PASSADO CONDENA
O mercado imobiliário de Santo André de um passado diagnosticado e provado como antro de assaltantes exige sempre muita atenção. O prefeito Paulinho Serra foi conivente ao desprezar a herança que recebeu. Não mexeu uma palha sequer para apurações profiláticas. As medidas corretivas podem ter sido jogadas às traças, ou quem sabe afrouxadas ainda mais.
Para retirar o Plano Diretor de Santo André do nicho também especulativo, de que seria um presente dos deuses aos predadores imobiliários, é providencial a contextualização.
Comecemos pelo presente. Quem está cuidando do assunto na Prefeitura de Santo André é o secretário Acácio Miranda, secretário de Planejamento. Ele manteve relações interativas principalmente com os maiores empresários do setor na região, alguns poucos é verdade, locados institucionalmente no Clube dos Construtores e Incorporadores, também conhecido como Acigabc.
ENTIDADE SEM LASTRO
O Clube dos Construtores é o reduto da Família Bigucci. Em mais de 30 anos de entidade criada para atuar como lobby do setor, Milton Bigucci pai e Milton Bigucci filho, mais recentemente, estiveram e estão à frente do poder em 90% do tempo.
O Clube dos Construtores é uma péssima organização junto a qualquer instância do Poder Público financiada pelos contribuintes. O passado o condena, direta ou indiretamente.
Quem tiver a sorte de registrar algum achado que coloque o Clube dos Construtores num terreno que não seja movediço, próprio do corporativismo introspectivo, que me apresente da forma que bem entender e eu transformo em aplausos.
O Clube dos Construtores é relapso no entendimento que tenho sobre responsabilidade social que vai muito além de produzir imóveis e vender imóveis a preços ainda recentemente mais especulativos do que de valor compatível com a realidade.
BURACO INSTITUCIONAL
O Clube dos Construtores jamais colaborou de fato e para valer, sem olhar para o próprio umbigo, para humanizar qualquer coisa que lembre morar com qualidade de vida na região. O Clube dos Construtores não honra o estatuto que o consagra. O vale-tudo é o passaporte moral do Clube dos Construtores.
Jamais em tempo algum o Clube dos Construtores se manifestou contrário aos escândalos do setor na região ou na vizinha capital. Nem poderia, porque a presidência de fato ou de direito está metida em denúncias graves.
Isto posto, o homem designado pelo prefeito Paulinho Serra para conduzir a tarefa de esquadrinhar a ocupação imobiliária de Santo André pelos próximos 10 anos tem um passivo a ser explicado. Passivo até prova em contrário é passivo, de quem tem no mínimo prestação de contas a cumprir. Se explicado e resolvido, vira ativo. No meio do caminho, sem uma coisa nem outra, temos um caso típico de omissão.
TORRE PIRATA
Acácio Miranda foi subprefeito da cidade de São Paulo no Distrito de Pinheiros num período em que se construiu uma torre residencial de alto padrão. Dezenove andares saltaram do nada no Bairro do Itaim, que está no escopo geográfico de Pinheiros.
Uma torre residencial de classe rica, porque Itaim é lugar de gente rica. Fosse um casebre em bairro de periferia, o então subprefeito seguiria a rotina dos homens públicos. Seria demais exigir que verificasse a irregularidade. Já no Bairro Itaim, uma torre de 19 andares estelares, a situação parece outra.
A torre foi construída sem autorização dos órgãos públicos. O escândalo ainda não se encerrou. A Construtora São José está na corda-bamba de penalidades. Para que não haja dúvida, não custa repetir: a torre residencial de luxo foi construída no coração do Itaim sem qualquer documento oficial que a autorizasse. Meteu-se entre outras duas torres, estas sim legalmente construídas. Teriam as duas sido colocadas para dar proteção à ilegalidade da terceira? Para confundir as bolas?
O que se pergunta e é legítimo que se pergunte tem tudo a ver com o xerife designado pelo prefeito Paulinho Serra para conduzir o Plano Diretor de Santo André.
MUITAS DÚVIDAS
Afinal de contas, Acácio Miranda tinha conhecimento da obra pirata na Capital e negligenciou medidas punitivas, ou não lhe passou pela cabeça e pelos olhos que aquela torre tão esplendorosa pudesse estar desprezando completamente a fila burocrático-administrativa do Estado?
Mais ainda: no período em que esteve à frente da Subprefeitura de Pinheiros, qual é a cronologia da construção clandestina? Estava Acácio Miranda já no cargo antes do início das obras, passou por ele algum tipo de demanda da construtora ou só chegou depois que as obras começaram? E se chegou depois, o que tem a dizer diante da constatação óbvia, exceto em caso de cumplicidade, de que foi traído por assessores?
Convenhamos que a última coisa que poderia ocorrer é o que está ocorrendo em Santo André, porque o que está ocorrendo transforma Santo André em casa da sogra de potenciais libidinosidades imobiliárias ainda maiores do que as já consagradas no passado e praticamente impunes aos empresários aproveitadores.
FALTA TRANSPARÊNCIA
Com esses gigantescos pontos de interrogação sobre a realidade da torre pirata na Capital, o mínimo que se poderia esperar é que Acácio Miranda promova o máximo de transparência na condução do Plano Diretor de Santo André.
Entretanto, porém e todavia, o que apareceu até agora na mídia chapa-branca é que o Clube dos Construtores, Família Bigucci à frente, praticamente lidera o processo. Não é exagero utilizar a metáfora de que a medida tem o mesmo sentido de raposas cuidarem das uvas.
Ou alguém considera normal sob todos os sentidos que uma entidade de classe empresarial praticamente sozinha escolha os caminhos a serem traçados no mapa de Santo André imobiliária?
Tanta audácia cheira mal eticamente. Geralmente o setor imobiliário disfarça bem, utiliza gente no interior do Poder Público para atuar nos subterrâneos de labirintos propositadamente instalados para vender dificuldades.
UMA CAIXA-PRETA
O Plano Diretor de Santo André é uma caixa-preta que possivelmente ganhará alguma visibilidade quando for levado à aprovação do Legislativo sempre servil. Foi assim com outros encaminhamentos, casos específicos da concessão do Semasa e da privatização de cemitérios, entre tantos.
A gestão pública de Santo André acompanha o padrão de entreguismo conveniente dos Legislativos em geral. O Plano Diretor é bola na rede no placar sempre favorável ao mercado imobiliário. Resta saber até que ponto.
Afinal, se na Capital, com todo o barulho e participação social de verdade, o Plano Diretor deste ano foi mamão com açúcar para os empreendedores imobiliários, imagine então onde o breu sufoca a claridade.
Por conta de ser uma caixa-preta, o mais recomendável é que não me enverede por qualquer análise sobre o destino do espaço físico de Santo André que será convertido em negócios imobiliários.
CAOS LOGÍSTICO
Até que ponto haverá benefícios escusos a empreendedores mais espertos? E a densidade demográfica dos bairros insanos que Santo André ergueu ao longo dos anos, entregue por antecessores e também durante a gestão de Paulinho Serra à simpatia dos mercadores imobiliários, como estará destinada a definições nos próximos anos?
Santo André é reconhecidamente um caos logístico muito por conta também do domínio dos mercadores imobiliários. Eles tomaram conta dos espaços mais nobres e levantaram edifícios cuja ambição mercantilista é chegar o mais próximo possível do céu, porque erguer prédios residenciais é exatamente isso, ou seja, flexibilizar o conceito de verticalização.
O que sobra ao rés do chão, nas vias públicas e na infraestrutura pública é problema dos contribuintes e também do Poder Público subsequente em forma de novas tragédias urbanísticas.
CIDADE MORIBUNDA
Por mais que se admita que Santo André é uma cidade de institucionalidade moribunda, onde falta capital social, sempre haveria a possibilidade ética de a Administração Paulinho Serra tornar o Plano Diretor mais factível à compreensão e a eventuais mudanças antes de ser levado ao Legislativo.
Algumas encenações não passam mesmo disso, de encenações. Como a que se viu com o secretário Acácio Miranda na sede da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André). A plateia, não mais que uma dezena de convidados ou voluntários, não abriu a boca a questionamento. Foi apenas uma cerimônia formal, dessas que se utilizam para dizer que a democracia supostamente exercida é o melhor caminho para tudo.
SOCIEDADE DESRESPEITADA
Entregar o Plano Diretor de Santo André aos cuidados do Clube dos Construtores (e é disso que se trata, porque o restante é figuração) é um ato de desrespeito à sociedade não só pelo exercício arbitrário de interesses corporativos muito acima do razoável para o conjunto da população, mas sobremodo porque se trata de uma entidade de fachada.
Entenda-se entidade de fachada uma organização que é incapaz de, em quase 40 anos de supostas ações, jamais ter colaborado para valer com algo que poderia ser chamado de pedagogia de morar bem e com qualidade de vida na região.
Distante disso, o que ao longo dos anos sob o controle de Milton Bigucci, um empresário enroladíssimo com corrupção, o Clube dos Construtores só se preocupou com o próprio espelho materialista, egocêntrico e alienado à gravidade econômica a social da região.
O secretário Acácio Miranda deve saber que esteve esse tempo todo em más companhias. Se não sabe, que fique sabendo. E que, em nome da própria reputação, venha a público e apresente as razões pelas quais não viu que uma torre residencial de 19 andares surgiu no território que gerenciava.
Total de 854 matérias | Página 1
26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO