Esportes

Grêmio Santo André no lugar
de EC Santo André, eis a saída

DANIEL LIMA - 07/04/2010

Vou escrever sobre um assunto complexo e abrasivo, mas não há escapatória em nome da transparência, da responsabilidade, da ética e do bom senso: o modelo de clube-empresa do Santo André é um atentado à lógica social, esportiva e negocial. Exatamente por isso, de imediato, é indispensável que, às portas de completar três anos, seja alterado profundamente. Mais que alterado, que seja sepultado. Antes que as consequências sejam terríveis.


Em vez de ser representado pelo Esporte Clube Santo André, sob a tutela do Saged (Santo André Gestão Empresarial e Desportiva Ltda), o futebol profissional da cidade contaria com a figura jurídica do Grêmio Santo André. Algo semelhante ao que caracteriza o Grêmio Prudente, ex-Grêmio Barueri.


A torcida, cada vez menor entre os avulsos e cada vez mais subdividida entre os grupos organizados, continuaria a gritar Santo André o tempo todo. Nada seria, portanto, alterado.


Uma série de vantagens mútuas demarcaria a mudança, entre as quais a possibilidade de o Grêmio Santo André mudar de nome e de endereço, se assim seus acionistas decidirem. Como fez o Grêmio Barueri.


No regime de futebol empresarial que se consolida como alternativa ao modelo tradicional no Brasil, a transferência de um ativo futebolístico para outra cidade, como foi o caso do Grêmio Barueri, não deve ser vista como o fim da picada. Se Santo André é incapaz de dar respostas à grandeza de uma equipe de futebol, como se tem verificado há muitos anos por conta do afastamento gélido do público consumidor dos estádios e também por conta da ausência de televisão de massa, comum em outras regiões, como impedir que o empreendimento bata asas em direção a praça mais rentável?


Do jeito que está há três anos é que não pode ficar a relação entre o Esporte Clube Santo André e o Santo André Gestão Empresarial Desportiva.


Corre-se o risco de responsabilização civil dos dirigentes, dos conselheiros e, principalmente, do Esporte Clube Santo André. Muito mais que dos dirigentes e acionistas do Saged.


Afinal, não há a menor integração entre essas duas faces de uma laranja que era representada até 2007 unicamente pelo Esporte Clube Santo André, fundado em 1967.


EC Santo André e Saged não se misturam.


Há alguns ensaios que só servem para confirmar a suspeita de que tudo não passa mesmo de encenação. É impossível qualquer equação que convirja para ganhos sistêmicos entre duas porções antagônicas. Quem manda não abre mão do poder. Quem mandava não tem como retomar o mando. O controle financeiro do clube, com créditos e débitos, é o modelo de democracia que prevalece.


Falta tanta integração entre o Esporte Clube Santo André e o Saged que dirigentes e acionistas não conseguem responder a uma questão simples: qual é o balanço financeiro destes três anos de parceria?


Sabe-se que ao Esporte Clube Santo André sobrou o ônus dos passivos do futebol anteriores à formatação da mudança, incrivelmente esterilizados da contabilidade do Saged.


O Saged fez um negócio da China, porque ficou com todos os ativos do EC Santo André e repassou automaticamente os passivos para o Clube Poliesportivo. Passivos que continuam sangrando a contabilidade do Esporte Clube Santo André, mesmo passados três anos das negociações.


Para que o EC Santo André não incomode o Saged e para que o Saged não se sinta pressionado pelo EC Santo André, o melhor a fazer mesmo é providenciar mudanças que confiram a nova nomenclatura e a nova configuração jurídica.


O EC Santo André, dono de um conjunto poliesportivo incrustado no Parque Jaçatuba, não pode eventualmente pagar o pato de desarranjos orçamentários do Saged, nem tampouco o Saged deve distribuir ao EC Santo André dividendos de uma empreitada empresarial da qual de fato é o único responsável, já que a direção do EC Santo André não tem poder de decisão algum.


Isso mesmo: embora tivesse entregue ao Saged todo o ativo futebolístico material e intangível erigido ao longo de quase quatro décadas, o Esporte Clube Santo André conta com apenas 20% das ações do Saged, sem qualquer direito assegurado de representação nas definições orçamentárias do clube-empresa.


A quem ainda não entendeu a equação, procurarei ser didático: o EC Santo André não manda em absolutamente nada nos destinos esportivos e financeiros do Saged, mas, em contrapartida, pode receber um presente de grego no futuro, ou seja, ficar com eventual mico de dívidas financeiras sobre as quais jamais sequer teve a menor responsabilidade executiva.


O desenho jurídico que transferiu do EC Santo André o ativo esportivo em favor do Saged é leonino para o clube poliesportivo em situação de desencanto de resultados financeiros tanto quanto é um transtorno para o Saged no caso de grandes sucessos financeiros com o futebol.


Trata-se, como se observa, de uma sociedade maluca, porque as duas partes desconfiam que estejam sendo ludibriadas. O Santo André porque tem 20% das ações mas não manda bulhufas e o Saged porque controla tudo e estaria desolado se tivesse que distribuir 20% para quem nada faz.


Não bastasse tudo isso, o EC Santo André teme que lhe sobrem dívidas estratosféricas num futuro não muito distante.


Trata-se de um negócio em que potencialmente os dois lados podem se arrepender profundamente, se já não o fizeram.


O Esporte Clube Santo André estaria chorando porque não viu a cor de dividendo algum até agora, segundo informações que obtive de várias fontes. Mais que isso: tem de socorrer o Saged nas dívidas trabalhistas anteriores ao repasse do futebol. E tudo indica que lhe sobrariam mais dívidas, principalmente trabalhistas, em caso de dissolução do Saged.


Já o Saged estaria incomodado porque sofre algum grau de observação de dirigentes e conselheiros do EC Santo André, aos quais, decididamente, não cede o menor espaço para decisões relevantes.


Como a jurisprudência é implacável, há sólidos estudos que asseguram a responsabilização do Esporte Clube Santo André por eventuais desatinos financeiros do Saged.


O Esporte Clube Santo André do presidente Celso Luiz de Almeida e de uma centena de conselheiros deliberativos não pode seguir nesse roteiro de faz-de-conta de que está tudo bem, porque não está nada bem. O descarrilamento do futebol pode custar muito caro ao patrimônio físico do Clube Poliesportivo, construído há quase 20 anos.


O Santo André Gestão Empresarial Desportiva do presidente Ronan Maria Pinto e de um agrupamento de acionistas não pode seguir nesse roteiro de faz-de-conta de que está tudo bem, porque não está. O sucesso do futebol pode custar muito caro ao patrimônio financeiro dos acionistas, resultante de ações negociais sem a mínima participação do Esporte Clube Santo André.


A única saída que se apresenta para preservar direitos e obrigações do Esporte Clube Santo André e do Santo André Gestão Empresarial Desportiva é a constituição do Grêmio Santo André sem a inclusão do Esporte Clube Santo André entre os acionistas.


Voltaremos ao assunto.


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