Publiquei em agosto de 2006, portanto há quase quatro anos, matéria especial sobre a transformação em curso no Santo André: a substituição do clube romântico, que fez tanto sucesso ao longo dos anos num regime esportivo igualmente romântico, por um clube empresarial. A efetivação legal do Saged (Santo André Gestão Empresarial Desportiva Limitada), só se deu em maio do ano seguinte, em 2007. O modelo capitalista imaginado está longe de ser alcançado. Mas precisa ser buscado, para o bem do Esporte Clube Santo André e do Saged.
Reproduzir aquela matéria é questão fundamental para quem pretende compreender sem mistificações e enrolações o que se passou com o futebol profissional de Santo André desde então. Sobretudo neste momento em que este jornalista toma a iniciativa de contestar o arremedo de contrato entre Esporte Clube Santo André e Saged. Há informações que dão conta de que tanto conselheiros do EC Santo André quanto acionistas do Saged pretendem reagir para resolver o problema. Tomara que tudo não termine em pizza, como é comum por estas e por outras bandas.
Estranha-se apenas que o ex-presidente Jairo Livolis, idealizador da privatização do Esporte Clube Santo André como clube-empresarial, se mantenha em silêncio, mesmo após tomar conhecimentos dos textos que escrevi sobre o assunto.
O Santo André deixou de ser clube romântico para, nas vestes do Saged, tornar-se empresa esportiva.
O grande e imenso problema é que a empresa esportiva não assume todos os riscos e também todas as vantagens, porque ainda transfere obrigações e deveres ao clube social.
Como se sabe, EC Santo André é uma coisa, Saged é outra. Oficialmente, para efeitos jurídico-esportivos, o EC Santo André é o representante de Santo André no futebol profissional. Mas de direito, as decisões estão centralizadas no Saged.
O Saged é um empreendedorismo de riscos limitados, porque passivos poderão ser juridicamente repassados ao Esporte Clube Santo André.
A solução é o Saged tornar-se Grêmio Santo André ou algo parecido. Ganharia autonomia completa. Ronan Maria Pinto seria o representante legal da associação em esferas esportivas, jurídicas e sociais. Celso Luiz de Almeida representaria apenas o Esporte Clube Santo André, dono do Poliesportivo do Parque Jaçatuba.
O Grêmio Barueri, agora Grêmio Prudente, é a jurisprudência de que precisaria o Saged para tomar a iniciativa de alterar o contrato vigente.
Também o Votoraty, que trocou Votorantim por Ribeirão Preto, reforça a jurisprudência.
Qualquer dia no futuro o Grêmio Santo André pode virar Grêmio Piracicaba, e estamos conversados.
Porteira que passa um boi passa uma boiada.
Coração nenhum de torcedor de verdade é de aluguel, mas os clubes, pelo andar da carruagem, principalmente os clubes mais suscetíveis às artimanhas de negócios, esses podem trocar de camisa a qualquer momento. Os torcedores do Grêmio Prudente são torcedores do Grêmio Prudente, não do Grêmio Barueri, origem da estrutura empresarial expurgada do Município da Grande São Paulo. Os deserdados do Grêmio Barueri que adotem o novo clube da cidade e percorram a subida morro acima de retorno à principal divisão de futebol do Estado de São Paulo.
Se o eventual Grêmio Santo André resolver bater asas em direção a Piracicaba, tenham certeza os leitores que aquela cidade do Interior vai adorar recepcionar um time da Série A Paulista e da Série B Nacional. Vão gritar Grêmio Piracicaba a todo fôlego.
Sempre fui favorável ao empreendedorismo no futebol, porque os tempos são outros em praticamente todas as manifestações culturais. Se até atividades circenses se profissionalizaram, por que o futebol seria diferente?
Já não se vive apenas de glórias. Os craques do passado, mesmo os melhores e mais badalados craques do passado, nem de longe acumularam vencimentos e patrimônios de jogadores apenas regulares desde que a televisão descobriu a força de marketing do futebol. Não seria o Santo André órfão de representatividade social já faz muito tempo, que fugiria do modelo de negócios.
Também os dirigentes esportivos do passado, mesmo os dirigentes mais espertos de clubes que inclusive nem existem mais, jamais encontraram tanto campo aberto para incursões ou mesmo para remunerações funcionais que bem mereciam. Diferentemente de dirigentes e executivos atuais da maioria dos clubes, cujas histórias de bastidores não são contos de fada. Até porque, se forem, estarão roubados. Capitalismo é isso mesmo. Voluntarismo é outra coisa.
É preferível, portanto, que os clubes que não se sustentam no modelo antigo passem mesmo para o outro lado do muro, do muro do empreendedorismo, sem que em princípio tenham qualquer obrigação de prestar contas a terceiros. Que restrinjam os balancetes aos próprios investidores e administradores.
Mas esse não é o caso dessa mistureba de EC Santo André e do Saged. Os números do Saged são segredo de Estado, a administração é autocrática, as medidas começam e terminam na presidência. Um modelo válido no regime empresarial. Não no modelo explicitado no contrato entre Saged e EC Santo André.
A introdução desse temário num momento de glória do futebol de Santo André é proposital porque risca qualquer possibilidade de se tocar no assunto e se procurar medidas restauradoras por conta de eventual infortúnio esportivo.
O desafio do futebol profissional de Santo André não é esportivo, puramente esportivo, em boa ou em má temporada da equipe.
O desafio é outro: é de transparência, de responsabilidade e de correções de uma rota desenhada com entusiasmo. Como mostrarei amanhã neste espaço sob o título “Santo André capitalista para resistir à avalanche no futebol“. O título original da matéria publicada na edição de agosto de 2006 na revista LivreMercado (então sob meu controle editorial) resumia-se a “Santo André capitalista”. Precisava mais?
Que capitalismo é esse que envolve Santo André e Saged cujo desenlace está a léguas de distância do que mostraremos no texto programado para amanhã?
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