Esportes

Azulão próximo do céu; Ramalhão
ameaçado com 37 noites no inferno

DANIEL LIMA - 31/05/2010

A linguagem bíblica é proposital e deve chamar a atenção mesmo de leitores não versados em futebol. Dificilmente esses leitores deixarão de reconhecer que Ramalhão e Azulão são os representantes do Grande ABC na Série B do Campeonato Brasileiro. Ou seja: estão entre os 40 clubes mais importantes do País campeão do mundo cinco vezes.


Vou traduzir o céu do Azulão como a possibilidade de a equipe de Sérgio Guedes terminar a primeira etapa do campeonato, no próximo sábado, entre os quatro primeiros. Seria um céu temporário mas como todo céu uma maravilha de bom de 37 noites. O inferno do Santo André é cair ainda mais na tabela e encerrar essa etapa entre os quatro últimos, na zona de rebaixamento. Conviver tanto tempo com a degola, mesmo que sete rodadas não passem de 18% dos pontos em disputa, seria um tormento para quem ainda outro dia disputou o título paulista.


De fato, seriam 37 noites de terror, mas ainda há esperança de que o Ramalhão escape e fique essas 37 noites no purgatório, ou seja, longe dos quatro primeiros mas também fora do grupo de quatro últimos.


Dificilmente o Santo André ficará nesse período entre os 10 primeiros, isto é, na página inicial da classificação que as emissoras de TV exibem a cada momento. Estar na página inicial da classificação é sempre um alento a um salto não necessariamente pirotécnico em direção ao grupo dos quatro melhores. Estar na página inferior é flertar com o fogo cruel do rebaixamento. A psicologia dos números no futebol é tão encantadora como devastadora. Mesmo que apenas um ponto, ou o saldo de gols, separe o 10º colocado do 11º, um viés psicológico demarca uma equipe e outra.


Talvez não fosse preciso, mas vou explicar as 37 noites tranquilizadoras para o São Caetano e insones para o Santo André: esse é, contabilizado nos dedos como nos antigos bancos escolares de infância, o tempo que separará o encerramento da sétima rodada e a retomada do campeonato, após a disputa da Copa do Mundo.


Talvez a contagem tenha de ser refeita em relação ao Santo André e quem sabe também ao São Caetano, porque a sexta rodada, nesta terça-feira, pode solidificar uma tendência desse início de competição: o Azulão encorpa-se a cada rodada, ganha ritmo mais constante, fortalece o ataque e melhora o desempenho defensivo; enquanto o Ramalhão que sofreu 10 gols nos últimos três jogos e ainda pensa que é o vice-campeão paulista que tanto encantou o Brasil até outro dia, foi totalmente desfigurado com a saída de quase todos os titulares.


Não se deu conta o Ramalhão de que se não recuar o ímpeto ofensivo que fragiliza o sistema defensivo, vai chegar ao ponto de entrar em pane e não recuperará a autoconfiança que alimenta a criatividade. Aí o desarranjo será geral e generalizado na competição.


Fiz de tudo na tarde de sábado para aperfeiçoar uma loucura que chamaria de ver dois jogos no mesmo televisor ao mesmo instante.


Está certo que a física inviabiliza com teoria o que a prática confirma: a impossibilidade de dois corpos sólidos ocuparem o mesmo lugar no espaço. Mas quando se trata de transmissão esportiva, tenho a impressão de que o aparelho de televisão, o mesmo aparelho de televisão, a mesma base de recepção de imagem e de som, se duplica.


Faço mágicas alimentadas pela experiência de avaliar o tempo mais ou menos exato de quando a bola está fora de combate e me lanço a trocar de canais. É um revezamento que também tem força intuitiva quando a bola está em jogo. Foi assim que vi o Santo André e o São Caetano no final de semana.


Observei o suficiente para dizer que o São Caetano está mesmo ganhando versatilidade ofensiva e solidez defensiva que podem dar o que falar na competição. Ganhou com méritos da Ponte Preta. Só não teve o controle do jogo quando vencia por 2 a 0. Retomou a iniciativa quando sofreu o gol e fez mais um.


Vi o necessário para garantir que o Santo André, além de estar totalmente desarrumado depois do desmanche, não conta com jogadores do mesmo nível dos que foram negociados. Principalmente as tentativas para refazer o trabalho de Bruno César, que já começa a brilhar no Corinthians. Somente nas bolas paradas o Santo André ensaia repetição das medidas que deram certo no Campeonato Paulista. Mas não tem as mesmas habilidades.


Mais ainda sobre o Santo André: os bons fluídos do Campeonato Paulista parecem dissipar-se. Está tomando gols que poderiam ser evitados se os adversários não fossem tão impiedosamente perfeitos na conclusão.


Entretanto, mesmo nesse ponto, a matemática é infernal: quanto mais oportunidades o adversário constrói, mais aumenta a possibilidade de o Santo André sofrer gols. E é isso que vem se dando. Em contraposição, embora não disponha de dados para dar corpo à informação, é latente que o número de arremates de qualidade do Santo André diminuiu. Entre outros motivos porque Bruno César alimentava o ataque com passes perfeitos, incisivos, e finalizações sempre surpreendentes. Xuxa, o armador que o substitui, tem técnica mas é excessivamente frio, não tem o mesmo dinamismo e arremata com deficiência.


Ao me multiplicar para ver os dois jogos de sábado das equipes do Grande ABC na Série B do Campeonato Brasileiro não tive como resistir à dor de fixar os olhos e esquecer o que ocorria em São Caetano, por isso perdi o terceiro gol do time de Sérgio Guedes. Dei sorte (ou seria preferível não ter visto o lance no exato momento em que ocorreu?) ao acompanhar a contusão do centroavante William. Foi um lance duro, mas absolutamente de jogo: William teve a perna direita prensada. Os segundos imediatamente após foram terríveis.


Gritei ao meu filho para correr à sala. Aquela perna direita dobrada na altura da canela foi um dos momentos mais tristes que já acompanhei ao vivo no futebol. Provavelmente só perde para a morte de Serginho, do São Caetano, quando, sentado na mesma sala, em sofá que já foi trocado, não tive dúvida de que, ao cair, o zagueiro já fazia parte do obituário do futebol.


Lembro-me que no exato momento em que Serginho caiu no gramado, liguei para a redação do Diário do Grande ABC, veículo no qual exercia o cargo de Diretor Editorial, e solicitei que, fosse qual fosse a manchete de primeira página programada, que se substituísse pela morte de Serginho. Dei apenas uma recomendação: que não se utilizasse “Azulão” no título principal, porque aquela dor ultrapassava o campo esportivo. Que se utilizasse “São Caetano” como instituição atingida pela fatalidade. Tanto naquela noite quanto na tarde de sábado fiquei chocado com as imagens. Não perco a mania de me emocionar.


Mas, voltando aos jogos de sábado, a diferença perceptível nas imagens quase sobrepostas dos dois jogos colocava em dimensões diferentes a dinâmica de um São Caetano versus Ponte Preta em relação a Guaratinguetá versus Santo André.


O jogo em São Caetano era mais intenso, mais vertical, mais veloz. O Santo André sem organização tática, sem dinâmica ofensiva, esburacado na defesa, não oferecia ao Guaratinguetá o grau de resistência que a Ponte Preta apresentava em São Caetano. Por isso o jogo no Vale do Paraíba perdia como espetáculo na disputa de dupla programação. Não fosse o horror com o centroavante William, teria me fixado mais tempo no jogo em São Caetano.


As duas rodadas que restam antes da parada técnica da Copa do Mundo precisam ser interpretadas pelas equipes da região como pontes a serem transpostas de qualquer maneira.


Para o Azulão, como bem disse o técnico Sérgio Guedes, o que mais interessa agora são os resultados, porque depois vem o recesso da Copa do Mundo para acertar o conjunto de uma equipe que ele mal acabou de assumir mas que guarda a base do Campeonato Paulista.


O técnico Sérgio Soares deveria seguir a trilha do homônimo, a partir de mais pragmatismo e menos plasticidade, ou seja, de mais marcação e menos exposição. Alguém precisa avisá-lo que Bruno César e tantos outros já se foram e, com isso, além de técnicas individuais superiores, evadiu-se também o conjunto bem azeitado que durante três meses encantou no Campeonato Paulista. Só restou mesmo, daquele time, a vulnerabilidade defensiva, que pode comprometer a confiança de possíveis novos talentos que desembarcaram no Bruno Daniel mas que precisam de um conjunto bem azeitado para mostrar valor.


Tenho cá comigo que o Santo André do Campeonato Paulista foi um achado técnico-tático que não se repetirá tão cedo neste futebol comoditizado que insiste em sair da rotina apenas na Vila Belmiro.


Tenho cá comigo também que o Santo André ainda não se deu conta que está em nova disputa, porque insiste em reviver o gol anulado na final contra o Santos.


Se continuar chorando o leite derramado, terá mais leite a ser derramado a chorar.


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