O Santo André vive dilema de araque para tentar justificar a vergonha sem tamanho nas finais do Campeonato Paulista contra o Santos. Apesar da tentativa de mobilização do Diário do Grande ABC, publicação de Ronan Maria Pinto, presidente do Saged, empresa que controla o futebol da cidade, o restrito setor do chamado Tobogã não acolheu nem metade da capacidade reservada a torcedores ramalhinos. Não foram mais que dois mil pagantes locais ao palco paulistano.
Tanto é verdade que o Tobogã foi apenas parcialmente tomado por ramalhinos que santistas sem identificação visual invadiram o espaço, último reduto disponível. No jogo seguinte, para confirmar o vexame, o setor foi entregue de vez aos santistas. Aos ramalhinos sobrou apenas uma lasca de arquibancada. O Santo André dividiu o mando dos dois jogos com o Santos e esperava continuar domiciliado no Tobogã.
Antes disso, não fosse a farta distribuição gratuita de ingressos inclusive por candidatos às próximas eleições, o Estádio Bruno Daniel receberia público ainda menor que o da semifinal contra o Grêmio Prudente.
Qual é o dilema de araque que dirigentes do Santo André decidiram espalhar para tentar explicar a inoperância para enfrentar a crise de deserção, envelhecimento e morte de torcedores locais?
Trabalha-se com a falsa idéia de que clubes médios sem time de qualidade não conseguem arregimentar torcida. Sem títulos não haverá adensamento de torcedores. Por isso, tenta-se justificar a inapetência de sensibilizar moradores de Santo André a pelo menos ter o Ramalhão como segundo time de coração. Como já escrevi, é melhor o Santo André ser o segundo clube de muitos torcedores do que primeiro de poucos.
O Santo André só passou o que passou no Pacaembu porque esse é o retrato fidelíssimo da incompetência geral e irrestrita de dirigentes antigos e atuais que jamais se preocuparam para valer com o aniquilamento da torcida face às transformações deste mundo globalizado no qual o marketing favorece tremendamente os grandes clubes brasileiros.
Vivemos na penumbra tecnológica de uma Região Metropolitana de transmissão de emissoras abertas de TV centralizadas na Capital. Esse é um problemaço que não pode ser desconsiderado nem minimizado, mas não serve de eterno biombo ao vazio cada vez maior nas arquibancadas do Estádio Bruno Daniel.
Não se trata de remeter a situação a dilema que tentaria enclausurar um problema de modo a torná-lo insolucionável: quem deve vir primeiro, o ovo do adensamento popular ou a galinha do sucesso dentro de campo?
Não achamos que o Santo André viva na encruzilhada de não saber para onde correr. Mas há gente que faz uso dessa imagem para mandar o seguinte recado: o Ramalhão depende da galinha do sucesso em campo, e dessa forma deve postergar o ovo de ações voltadas a converter ou a pelo menos sensibilizar torcedores em potencial.
Como os sucessos retumbantes do Ramalhão serão sempre pontuais, caso do título da Copa do Brasil e das finais do Paulista desta temporada, não restaria senão deixar sempre para segundo plano mobilizações para impedir a desertificação das arquibancadas.
Nenhuma ação de marketing desencadeada para amenizar, estancar e, em seguida, provocar reviravolta na ocupação do Estádio Bruno Daniel se dará com autonomia, isoladamente do clube. Terá de integrar conjunto de medidas estruturais que tanto o Saged há três anos quanto o Esporte Clube Santo André em quatro décadas não souberam desenvolver. Exceção apenas por volta dos anos 1970, quando intervenção contínua, persistente e messiânica de alguns torcedores-conselheiros conseguiu levar pelo menos dois mil torcedores mirins ao Bruno Daniel durante várias temporadas. Eram outros tempos, é verdade, de futebol menos globalizado, menos glamourizado, menos celebrizado.
É também por causa da pasmaceira fora dos gramados que não consigo despregar os olhos do futuro do Santo André. Se desse ouvidos a desculpas esfarrapadas, instrumentalizadas por quem jamais pensou de fato na formação de novos torcedores, principalmente a partir do Ensino Fundamental, onde os coraçõezinhos potencialmente a serem divididos estão bem mais disponíveis, teria desistido há muito tempo.
O futebol de Santo André perde de goleada a guerra biológica do envelhecimento de seguidores e a guerra esportiva de enfeitiçamento dos grandes clubes paulistas que saltam a todo instante dos diagramas, das telas, das telinhas e das ondas de rádio das principais mídias.
O Esporte Clube Santo André, que administrava o Ramalhão até 2007, não passou de uma associação fechada às institucionalidades do Grande ABC, dirigida bravamente, é verdade, mas sem entranhamento com entidades que poderiam lhe dar respaldo social.
O Saged, que gerencia o Ramalhão nos últimos três anos, virou balcão de negócios como tantos outros, levando ao paroxismo o interesse puramente mercantilista do futebol. Trabalho de base para formar novos torcedores é obra que se faz com mais gente, dedicação intensa e paixão, mas não significa rentabilidade monetária quando visto no curto prazo.
O Saged simplifica tudo ao acreditar que basta vencer para mudar a situação. As finais contra o Santos e novas finais que poderiam vir só confirmariam o quanto dirigentes e acionistas estão redondamente enganados. Ou, para ser mais preciso, o quanto estão manipulando um conceito sufocado a cada nova partida.
O ovo da mobilização popular, principalmente infantil, deve vir em raia distinta da galinha de bons resultados. Os bons resultados sempre ajudam, é verdade, mas não podem esquadrinhar as ações de marketing, até porque são medidas complementares, retroalimentadoras. No fundo, para que bons resultados não sejam episódicos, é bom mesmo que o ovo de novos torcedores venha primeiro.
Semelhantemente, portanto, à teoria da evolução, que responde ao paradoxo com a conclusão de que o ovo veio primeiro, de algum ancestral da galinha.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS