Administração Pública

GILVAN ALCKMIN ATACA
COM MELHOR ESQUINA

DANIEL LIMA - 17/07/2025

É mesmo de lascar. Quanto mais rezo por seriedade, preparo e respeito nas relações de autoridades públicas com a população, mais os gestores públicos do Grande ABC assombram com patetices. Agora é o prefeito de Santo André, Gilvan Júnior, que comprova a eficiência da Escolinha do Professor Paulinho, criador da Secretaria de Efeitos Especiais.

Está nos jornais de hoje uma declaração que remete Gilvanzinho ao modelo água com açúcar de Geraldo Alckmin. Modelo água como açúcar é aquela coisa típica de quem precisa agradar para transmitir a imagem de que é boa praça. Os resultados costumam ser um desastre para a sociedade, embora a mesma sociedade incauta e desinformada persista em eleger gente sem lastro para valer. Mas isso é outra história. Gilvan Alckmin Júnior não está nessa categoria, mas parece  caminhar nesse sentido.  

Gilvan Júnior, Gilvan Ferreira para alguns, disse que a desativada fábrica da Rhodia na Avenida dos Estados, onde mais de 10 mil trabalhadores ajudaram a construir a classe média de Santo André, tornou-se a melhor esquina do Brasil. Tudo porque um centro de distribuição de produtos está em construção.

E O CUSTO ABC?

Geraldo Alckmin disse algo com o mesmo sentido ou com a mesma insensatez sobre o trecho sul do Rodoanel em São Bernardo, há mais de 14 anos, e o que se deu? O Rodoanel incrementou a fuga industrial da região. A obra de relevante importância metropolitana e estadual,  praticamente foi interditada à logística industrial do Grande ABC. Esqueceram o chamado Custo ABC, entre outros contrapontos.

No caso de Santo André, estão esquecendo os efeitos colaterais do megacondomínio logístico. E mais que isso: as características econômicas de condomínios logísticos tipicamente de produtos de varejo acrescentam muito pouco de riqueza mensurável. A chamada logística de última milha não tem  relação  alguma com logística produtiva. É consumo, geralmente substituto,  nas veias, nada além disso.

Mais que isso:  condomínios logísticos de última milha ajudam a destruir ou a levar à informalidade a cadeia de pequenos negócios do varejo. Ainda faltam estudos sobre isso, mas basta contar com dados quantitativos do comércio eletrônico na relação com o comércio físico, de lojas físicas, para colocar a declaração do prefeito de Santo André num cantinho de suspeição. O comércio eletrônico cresce mais que o comércio físico, comprovadamente. E tanto um quanto outro provocam estragos monumentais nos pequenos negócios. A mortandade empresarial é subestimada no País.

GRAVIDADE DUPLA

Empreendedorismo de pequeno porte era sinônimo de mobilidade social. Hoje é um desafio à sobrevivência. Gilvanzinho deveria saber disso, porque inaugurou o placar de ocupação profissional num estabelecimento pequeno.

Está no Diário do Grande ABC de hoje a barbaridade de Gilvan Júnior que induz leitores e especuladores, não necessariamente nessa ordem, a conclusões equivocadas. “Gilvan diz que Goodman está na melhor esquina do Brasil”.

Quando se recorre ao dicionário da língua portuguesa e se juntam palavras que formam a manchete do  Diário do Grande ABC ou de qualquer outra publicação, e se dá essa orquestração fantasiosa, o melhor é acreditar que os astros conspiraram para um estrondoso bloqueio cognitivo do gerador da informação.

A gravidade da questão vai muito além, mas muito além mesmo, da notícia em si, que, para a maioria dos leitores, estabelece provavelmente uma realidade factual.

Primeiro porque a declaração de Gilvan Júnior não tem base sustentável. O dados econômicos deste século, apenas deste século, provam a decadência de Santo André em todos os setores, inclusive de serviços, quando se comparam com a média estadual e federal. Já escrevi muito sobre isso. Aliás, já escrevi muito sobre tanta coisa que se confirmou que talvez passe a adotar a frase em todos os textos. A região é muito previsível.

Segundo porque a declaração de Gilvan Alckmin Júnior provoca arrepios àqueles que acompanham a vida econômica regional. Afinal, é a reprodução literal de uma frase antológica de ignorância do então governador do Estado de São Paulo.

Se a repetição é fruto de despreparo técnico, deve-se lastimar unicamente por conta da retórica publicitária. Se a repetição for por inspiração no criador, então o caso é muito mais grave, um caso de reincidência deliberada de um delito propagandístico que se comprovou constrangedor.

Para encurtar a história e mostrar que há uma linha de tempo a dar sustentação a essa nova análise, reproduzo dois textos que escrevi em tempos distintos. O primeiro, sobre as declarações do então governador Geraldo Alckmin, agora adaptadas pelo prefeito de Santo André. O segundo, sobre as consequências (cantada a caçapa) da chegada do Rodoanel no território regional. 

 

Alckmin lustra ego do Grande ABC

com bobagem de melhor esquina

 DANIEL LIMA - 17/06/2011 

Algum assessor precisa alertar o governador Geraldo Alckmin para a improcedência, quando não à contradição, de rasgar seda ao Grande ABC quando repete com insistência publicitária que estamos na melhor esquina do Brasil. Desde a implementação do trecho sul do Rodoanel o governador utiliza essa frase feita do dicionário político. Quem sabe o deputado estadual Orlando Morando, líder do governo na Assembleia Legislativa, seja porta-voz da correção. Somos logisticamente uma sinuca de bico, isto sim. 

Está certo que dificilmente Geraldo Alckmin vai resistir à tentação do elogio fácil, porque é de seu estilo e do estilo da maioria dos políticos, mas ao suspender a máxima com que pretende definir essa região de sete municípios e 2,6 milhões de habitantes, estará fazendo um favor à sociedade.

Melhor esquina do Brasil é a ponte que caiu. Estamos encalacrados logisticamente há muito tempo. 

DINHEIRO CARIMBADO

Aliás, o volume de investimentos anunciados por Geraldo Alckmin (e cuja aplicação é outra história, como estamos cansados de observar na cena política) condena o bordão do governador à retórica. Afinal, dos R$ 6,3 bilhões que o Estado reservaria a investimentos no Grande ABC, a quase totalidade, R$ 5,2 bilhões, está carimbadíssima pelo compromisso de atender às demandas de transportes. Tudo porque a suposta melhor esquina do Brasil é uma parafernália logística.

O Rodoanel Sul, cantado como grande obra deste início do século no Grande ABC, depois de longa espera na última década do século passado, é um convite à evasão industrial.

Debitem na conta de improdutividades regionais do trecho sul do Rodoanel a baixíssima inserção com o calamitoso sistema viário do Grande ABC.

O Rodoanel Sul tem potencialidade poderosa de afastamento das empresas industriais do Grande ABC, exceto em poucas áreas nas quais a vizinhança mais acessível é compensadora.

De resto, com apenas três alças de acesso e tendo o metro quadrado de terrenos sob intensa especulação, a obra inaugurada em abril do ano passado é o caminho de maior produtividade em direção ao Porto de Santos e ao Interior do Estado — desde que o ponto de partida não seja o território do Grande ABC.

BANALIZAÇÃO

É impossível Geraldo Alckmin não dispor dessas informações. Possivelmente as tenha, mas certamente o blindam de tal forma que más notícias, ou notícias que supostamente devam ser evitadas, não chegam no seu gabinete.

Vivemos uma era em que a comunicação se banalizou a tal ponto que todo executivo público tem marqueteiro por perto. Sempre há algum prontíssimo a arrancar do coldre do oportunismo alguma tirada que supostamente definiria o conceito de governo. Imaginem os leitores, então, o quão cercado de especialistas no assunto está o governador do maior Estado do País. 

Quando qualquer instância de governo conta com a cultura da comunicação entranhada, a caminhada em direção aos consumidores de informação é mais que convidativa. Além do baixo senso crítico da sociedade, a maioria da mídia é cada vez mais dependente de publicidade oficial. Os profissionais de comunicação não têm como contornar desmandos publicitários.

Enquanto Geraldo Alckmin alardeia que o Grande ABC é a melhor porta de entrada do País, os problemas regionais se acentuam. Perdemos o bonde de investimentos, mas ficamos paralisados, quando não extasiados, diante de um governador bom de voto a nos embriagar com frases feitas que lustram o ego provinciano.

TRATAMENTO MIDIÁTICO

De todos os jornais que deram cobertura à comitiva liderada por Geraldo Alckmin e que teve em Orlando Morando anfitrião extraoficial, quem melhor retratou o encontro foi o Estadão, simplesmente porque praticou o jornalismo que a maioria dispensa: foi aos arquivos e contextualizou as novas declarações do governador. 

A manchete do Estadão de quarta-feira, dia seguinte à visita de Geraldo Alckmin, é elucidativa:

 Alckmin desengaveta projeto de trem expresso para o ABC lançado há cinco anos.

Nenhum outro jornal fez referência similar. Vejam os trechos principais da matéria do Estadão:

 O governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou ontem em Santo André um pacote de R$ 6,3 bilhões em obras para a região do ABC. A principal delas será um projeto que ele próprio havia lançado em seu outro mandato no Palácio dos Bandeirantes, em fevereiro de 2006: o Expresso ABC, uma ligação rápida sobre trilhos entre a Estação da Luz e Mauá (que na ocasião foi chamada de Expresso Sudeste).

Agora, apenas a título de curiosidade, vejam os títulos dos demais jornais que consegui amealhar para compará-los em termos de enfoque do noticiário:

 Diário do Grande ABC: “Alckmin libera R$ 2 bi para o Grande ABC” — Se contabilizados investimentos futuros do Estado, montante chega à ordem de R$ 6,3 bilhões.

 Valor Econômico: “Alckmin anuncia R$ 6,3 bilhões para o ABC, onde o PT lidera em prefeitos”.

 Diário Regional: “ABC terá R$ 6,3 bilhões de verbas estaduais”.

 Repórter Diário: “ABC terá R$ 5,2 bi em investimentos para o transporte”.

 ABCD Maior: “Diadema recebe pouco investimento do governo do Estado”.  

 

Grande ABC perde feio para

Grande Oeste após Rodoanel

 DANIEL LIMA - 17/01/2023 

Imagine dois maratonistas que disputam há 252 meses a mesma competição. O primeiro saiu em vantagem considerável e aparentemente inabalável.  O segundo reage. Corre a uma velocidade média superior a 60% e chega na frente com vantagem de 20% sobre o oponente.  

O primeiro corredor é a economia do Grande ABC. O segundo é o Grande Oeste. A maratona é o Desenvolvimento Econômico. O trajeto são os trechos Oeste e Sul do Rodoanel Mario Covas.  

Exatamente 21 anos separam o tiro de largada da fita de chegada que envolve os sete municípios do Grande ABC e os sete do Grande Oeste. O Grande ABC formado por São Bernardo, Santo André, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. O Grande Oeste com Osasco, Barueri, Carapicuíba, Itapevi, Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba. 

HORA DE ACORDAR  

Se você que ainda não se deu conta de que a ficha da economia do Grande ABC não é mais a mesma há muito tempo, de que é uma moeda desvalorizada, de que é uma ação decadente no mercado de competitividade, você precisa acordar.  

Já não somos o que éramos e estamos longe de ser o que é nossa vizinhança geoeconômica.  

Perder uma vantagem de 46,30%em forma da métrica mais respeitada de Desenvolvimento Econômico, o PIB (Produto Interno Bruto) sobre o Grande Oeste e ver, em 21 anos, uma reviravolta que coloca o adversário em vantagem de 20,45% não é pouca coisa. É uma tragédia. 

Entretanto, uma tragédia que passou e continua a passar em branco junto a autoridades públicas, privadas e agentes sociais do Grande ABC.  

ANTES E AGORA  

O PIB do Grande ABC em 1999, base dos cálculos, registrava em valores nominais R$ 26.884.250 bilhões. O Grande Oeste não passava de R$ 14.435,320 bilhões. 

Aí, em 2002, e mais tarde, em 2010, foram inaugurados os trechos Oeste e Sul do Rodoanel. Resultado? O PIB mais recente divulgado pelo IBGE registrou R$ 128.389,075 bilhões no Grande ABC e, acreditem, R$ 161.396.379 bilhões no Grande Oeste. Essa virada de jogo de superioridade de 46,30% para inferioridade de 20,54% é um cruel retrato de um Grande ABC que esqueceu de crescer e um Grande Oeste que não para de crescer.  

Em termos reais, quando se deflacionam os dados e se tem o valor atualizado a dezembro de 2020, o PIB Geral do Grande ABC cresceu 26,72% no período. Quando se divide o percentual por 21 anos, o crescimento médio anual não passa de 1,27%. Praticamente menos que o crescimento demográfico. Uma região literalmente congelada.  

Já o Grande Oeste disparou em crescimento. Em valores atualizados a dezembro de 2020, avançou em termos reais 68,69%. Quando se divide esse montante pelos anos percorridos, chega-se a um crescimento médio anual de 3,27%. Exatamente 61,16% acima do Grande ABC.  

No acervo desta revista digital, que completa 34 anos nesta temporada, há nada menos que 620 textos que tratam diretamente ou suplementarmente do Rodoanel.  



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