Administração Pública

SÃO CAETANO REINA NO
CAOS METROPOLITANO

DANIEL LIMA - 10/08/2026

Acabou de sair do forno de uma instituição sem fins lucrativos (e que, portanto, não tem nada a ver com o organograma do governo estadual ou do governo federal) o resultado do primeiro Campeonato de Qualidade de Vida da Região Metropolitana de São Paulo, oficialmente Mapa da Desigualdade da Grande São Paulo. São Caetano, como esperado, sagrou-se campeã entre os 39 municípios. O que isso significa? Significa que há constante superação da cidade no enfrentamento do caos metropolitano que afugenta muita gente e investimentos em direção principalmente ao Interior do Estado.

Grande São Paulo também conhecida como Região Metropolitana de São Paulo é uma área da qual fazem parte as sete cidades do Grande ABC. São 22 milhões de habitantes, metade na cidade de São Paulo, a Cinderela do espaço. E o dobro do Estado do Rio Grande do Sul. Ou maior que todo o Estado de Minas Gerais. Uma barbaridade de gente em oito mil quilômetros quadrados. E tudo malcuidado, quando não abandonado ao longo de décadas, tanto pelo Estado Estadual como também pelo Estado Federal. Não existe um organismo estatal sequer que cuide desse espaço com dedicação ampla e critérios técnicos.  

CALAMIDADE INSTITUCIONAL

Mais que isso: não existe coordenação e sinergia em qualquer tipo de temática que demande a atenção para valer mesmo, sem marketing eleitoral, do Poder Público. É uma calamidade institucional do tamanho do desprezo da mídia impressa e digital. A Grande São Paulo é um exagero demográfico que deveria virar peça-chave dos poderes constituídos e de representações da sociedade. Mas é uma colcha de retalhos de interesses extrativistas.

Por conta disso, o resultado de São Caetano deve mesmo ser comemorado, embora não seja surpreendente. Num estudo mais amplo e que tem como palco todo o território nacional, o Instituto Cidades Sustentáveis colocou São Caetano como o segundo melhor endereço em qualidade de vida no Brasil, na temporada passada. Os demais municípios do Grande ABC ocupam posições bastante discretas, quando não decepcionantes.

MAIS CURADORIA

Tenho desenvolvido ao longo dos meses uma série de avaliações sobre os segredos de São Caetano ser o que é principalmente porque é um dos redutos em que a desindustrialização das últimas quatro décadas mais impactou o perfil econômico. Voltarei nos próximos tempos a incursionar por São Caetano porque há um elemento sociológico, por assim dizer, que vai muito além da eficiência técnica nessa trincheira de exceção ocupacional numa área em permanente conflito e desajustes, como é a Grande São Paulo.

No caso do Campeonato de Qualidade de Vida da Região Metropolitana de São Paulo, com 39 participantes, a surpresa regional é Ribeirão Pires, que se classificou em terceiro lugar. Nada mal para quem ocupa a posição 1.866 no ranking nacional do PIB (Produto Interno Bruto) por habitante. Santo André ocupa a 11ª posição na metrópole. Bem melhor que a posição 1.415 no ranking nacional de PIB per capita. São Bernardo é a 12ª colocada na disputa metropolitana. Poderia ser melhor porque conta com PIB per capita na posição 371 no País. Bem melhor que Mauá, na posição 944 no PIB per capita e 14ª colocada no Campeonato Metropolitano de Qualidade de Vida. Diadema vai mal das pernas na competição metropolitana ao ocupar a posição 23, abaixo de Rio Grande da Serra, 22ª colocada. Diadema está na posição 1.184 no PIB nacional per capita, enquanto Rio Grande da Serra desabada classificação abaixo, na 3.091 posição.

TEMA-CHAVE

Existe uma lógica que pretendo esmiuçar em breve. Há uma correlação entre PIB per capita no posicionamento das cidades no Campeonato de Qualidade de Vida na Região Metropolitana de São Paulo. Entretanto, há situações que tornam a equação prevalecente, mas não insuperável. Um exemplo é que o PIB per capita de Santo André, de R$ 49.322,88, é maior que o PIB per capita de Poá, de R$ 44.434,64, mas a 11ª classificação metropolitana da cidade da região é inferior. Poá é a quinta colocada.

Metropolização é preocupação histórica desta publicação. Desde os tempos de duas décadas de circulação da revista de papel LivreMercado. São milhares de textos que fazem referência direta ou indireta a tudo que significa esse e outros conglomerados humanos desafiadores.

HÁ 25 ANOS

Não edição de novembro de 2001, assinei juntamente com os jornalistas André Marcel de Lima, Malu Marcoccia e Vera Guazzelli uma Reportagem de Capa que tratou da imperiosidade de o Estado dar tratamento especial à metrópole paulistana. Leia os primeiros trechos daquela análise sob o título “Metropolização, fracasso sem data de validade”: 

Carnaval de ilusões do recorte institucional formal e informal do Brasil. Parida pelo Regime Militar e alterada na Constituição de 1988, a formação de regiões metropolitanas ficou presa à burocracia do papelório oficial que infesta gabinetes de governadores. O jogo do faz-de-conta típico do Estado brasileiro cria carruagens miraculosas que se tornam abóboras de patéticas desilusões e torna as regiões metropolitanas brasileiras experiências indestrutíveis de anarquia urbana. Os indicadores de qualidade de vida estão aí para comprovar. Páginas policiais, escândalos políticos e péssimos exemplos de urbanismo massificam-se nos municípios só aparentemente protegidos pela legislação. Na prática são mesmo é discriminados.

MAIS METRÓPOLE

Foi exatamente para discutir a questão metropolitana brasileira, tendo como pano de fundo a informal regionalidade do Grande ABC que o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos dessa região colada à Capital paulista reuniu vários especialistas em meados deste mês em São Caetano. Organizado com antecedência, o encontro materializou a depauperação institucional do próprio assunto-tema. Dos sete prefeitos do Grande ABC, três nem deram as caras. Vereadores, deputados estaduais, deputados federais, representantes da sociedade civil, sindicalistas, acadêmicos e lideranças empresariais da região também se ausentaram em massa. 

MAIS METRÓPOLE 

Tudo isso não poderia ser mais emblemático da situação em que se encontra a regionalidade local. Se nem um evento que comemorava o 10º aniversário do Consórcio de Prefeitos conseguiu sensibilizar o público mais diretamente interessado, o que esperar do futuro dessa espécie de órgão gestor do que pretendia ser um Grande ABC metropolizado informalmente? Nem todos os debatedores que participaram do encontro no Grande ABC aparecem nesta reportagem. A explicação é simples: alguns perderam-se em meio aos debates porque estavam absolutamente despreparados para o temário, enquanto outros acabaram por cancelar presença. A essência do seminário foi minuciosamente acompanhada e a conclusão é bastante desagradável: as regiões representadas, exceto a Baixada Santista, são um descarado painel de desencanto. No fundo, no fundo, os depoimentos de especialistas ofereceram camadas sobrepostas de improdutividades do Estado brasileiro em suas três dimensões — União, Estados e municípios.

MAIS METRÓPOLE

Não é difícil entender por que as regiões metropolitanas expostas no seminário e as demais que constam do mapa geoeconômico nacional transformaram-se em enxadrísticos referenciais de vaidades, ciúmes e intrigas políticas. O que esperar de um encontro no qual o próprio prefeito da cidade-sede da festa de comemoração do aniversário do chamado Consórcio Intermunicipal, Luiz Tortorello, não constou de qualquer um dos painéis. O prefeito de São Caetano é o dirigente municipal que mais resiste à integração do Grande ABC por acreditar que perderia precioso tempo em discussões demais e resoluções de menos. 

NOTA OFICIAL

Na sequência, reproduzimos o material preparado pela Assessoria de Imprensa do Instituto Cidades Sustentáveis sob o título “ Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo: estudo inédito revela desigualdades entre os 39 municípios”. Acompanhem: 

O Instituto Cidades Sustentáveis e a Rede Nossa São Paulo lançam a primeira edição do Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), um estudo inédito que reúne 40 indicadores sociais, econômicos e ambientais, organizados em nove áreas temáticas, para retratar as desigualdades e as diferentes condições de vida nos 39 municípios da região. A publicação apresenta uma classificação geral baseada nos indicadores analisados. São Caetano do Sul ocupa a primeira posição do ranking, enquanto Pirapora do Bom Jesus aparece na última colocação. A capital paulista, São Paulo, figura na 16ª posição. 

Além do ranking geral, o estudo permite comparar o desempenho de cada município em temas essenciais para a qualidade de vida da população, como saúde, educação, segurança pública, mobilidade, meio ambiente, trabalho e renda, habitação e outros indicadores estratégicos para o planejamento urbano e a formulação de políticas públicas.

Ao reunir dados oficiais em uma plataforma acessível, o Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo busca ampliar a transparência, apoiar gestores públicos, pesquisadores, organizações da sociedade civil e cidadãos na compreensão dos desafios e oportunidades para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento sustentável na região.

MÚLTIPLAS DIREÇÕES

O mapa mostra também que as desigualdades metropolitanas não se organizam em uma única direção. Os municípios possuem estruturas econômicas, capacidades administrativas, perfis demográficos e redes de serviços distintas. Por isso, o estudo permite identificar as necessidades e vulnerabilidades de cada cidade, de modo que os gestores públicos possam definir prioridades em investimento e políticas públicas.

“Há municípios vizinhos, integrados pelos mesmos fluxos econômicos e populacionais, mas com condições muito diferentes de acesso a direitos e serviços públicos. O diagnóstico territorial é fundamental para orientar investimentos, fortalecer a cooperação entre as prefeituras e fazer as políticas públicas chegarem primeiro aos locais onde as vulnerabilidades são mais acentuadas”, comenta Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis.

Os contrastes mais expressivos do Mapa estão na área do saneamento básico. Em Juquitiba, a 70 quilômetros da capital, apenas 19,5% da população é atendida com rede de esgotamento sanitário – em Poá, Santo André e Taboão da Serra, esse percentual é de 100%. Em 11 municípios, todos dos moradores têm cobertura no abastecimento de água, mas em São Lourenço da Serra e Juquitiba menos da metade dos habitantes (49%) é atendida pelo serviço. 

LACUNAS NA COLETA

A coleta seletiva de resíduos também apresenta lacunas importantes. Em oito cidades da RMSP, a totalidade da população é atendida pelo serviço. No entanto, há municípios em que menos de 5% dos habitantes têm coleta seletiva; é o caso de Suzano (1,7% da população) e de São Lourenço da Serra (3%).

As desigualdades entre os municípios aparecem também na área de mobilidade e reforçam o caráter metropolitano do problema. Em diversas cidades, boa parte da população de baixa renda leva mais de uma hora para se deslocar ao local de trabalho. Francisco Morato tem o pior indicador: 52% das pessoas com renda inferior a meio salário mínimo levam mais de 60 minutos neste trajeto. Em Ferraz de Vasconcelos, o percentual é de 42%; na capital São Paulo, 37%.

A área da saúde concentra o maior número de indicadores do Mapa – são 14 no total. Desnutrição infantil, cobertura vacinal, mortalidade infantil, mortalidade materna, idade média ao morrer e gravidez na adolescência (incluindo recorte de raça) são alguns exemplos. Em São Caetano do Sul, a idade média ao morrer é de 76 anos; em Santo André, 71 anos. São as duas cidades onde se vive mais na Região Metropolitana e as únicas em que o indicador supera os 70 anos. São Paulo aparece na terceira posição, com 69 anos. No outro extremo, a idade média ao morrer em Francisco Morato é de 60 anos, ou seja, uma diferença de 16 anos para São Caetano do Sul. Em outras 14 cidades, as pessoas vivem menos de 65 anos, em média.

MAIS DESAFIOS

A cobertura vacinal também é um desafio para muitas cidades. Na maioria dos 39 municípios, menos de 70% da população-alvo foi imunizada. Os melhores indicadores estão Vargem Grande Paulista (99,8% da população vacinada) e Pirapora do Bom Jesus (97%). Rio Grande da Serra, no ABC Paulista, tem o pior desempenho: 29% de cobertura vacinal. São Lourenço da Serra (32%) e Jandira (34%) aparecem em seguida.

Na área da educação, o Mapa mostra que apenas 66,5% dos jovens entre 18 e 19 anos concluíram o ensino médio na Região Metropolitana de São Paulo. A cidade com o melhor indicador é Guararema (86%), seguida por Juquitiba e Poá (ambas com 79%). Salesópolis apresenta o pior desempenho (52%); em São Paulo, 59,8% dos jovens entre 18 e 19 anos concluíram o ensino médio.

Na dimensão econômica, Cajamar apresentou o maior PIB per capita, com R$ 312.708,11. O menor valor foi registrado em Francisco Morato, com R$ 13.549,01 –23 vezes a menos. Na capital, o indicador é de R$ 93.156,23. O PIB per capita expressa o valor da produção econômica dividido pela população e não representa, necessariamente, a renda efetiva recebida pelos moradores. Municípios que concentram grandes empresas, centros logísticos ou atividades industriais podem apresentar PIB elevado sem que essa riqueza se converta, necessariamente, em melhores condições de vida ou menor desigualdade.

MAUÁ FAVELIZADA

Na área de habitação, Mauá apresenta a maior proporção de moradores em favelas e comunidades urbanas: 27,5% da população. Em seguida aparecem Itaquaquecetuba, com 24,7%, e Diadema, com 22,3%. Sete municípios registraram percentual igual a zero neste indicador: Guararema, Juquitiba, Salesópolis, Santa Isabel, São Caetano do Sul, São Lourenço da Serra e Vargem Grande Paulista. Em São Paulo, 15% dos moradores vivem em favelas e comunidades urbanas.

A taxa de homicídios também apresenta diferenças relevantes entre os 39 municípios da RMSP. Biritiba Mirim e São Lourenço da Serra registraram taxa igual a zero, enquanto Pirapora do Bom Jesus chegou a 16,3 homicídios por 100 mil habitantes. Na área de segurança pública, o Mapa também contempla indicadores de feminicídio, violência contra a população LGBTQIA+ e diferenças nas taxas de homicídio entre a população preta e parda e a população branca e amarela.



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