Economia

BALANÇO DE EMPREGOS
E PATETICE ELEITORAL

DANIEL LIMA - 01/10/2026

Vou fazer breve balanço dos últimos 20 meses do mercado de trabalho com carteira assinada no Grande ABC. Somente desse período. A tentação de ampliar a cronologia foi domada. Vou deixar para outro dia. O foco está na gestão dos atuais prefeitos. Esse período de 20 meses abrange a porção de  responsabilidade dos atuais prefeitos dos sete municípios do Grande ABC. Não se pode esquecer jamais que em determinadas circunstâncias e em vários contextos o ritmo de emprego formal é de baixo controle e participação efetiva dos prefeitos. Aqueles que garganteiam resultados exageram na dose.

Já escrevi sobre isso várias vezes. Ser prefeito de uma cidade ou região escolhida pelos investidores e empreendedores é uma coisa. Ser prefeito de uma cidade ou região fora do mapeamento de investidores e empreendedores é outra coisa. Essa é a lógica econômica que precisa ser entendida.

Prefeito que cantarola feitos econômicos circunstanciais por puro interesse marquetológico é prefeito que abre a porteira de vulnerabilidade crítica quando os ventos trocam de rumo. E neste País todo o mundo sabe como a Economia ganha formato de biruta de aeroporto.

BOMBA FEDERAL

Acima de tudo isso,  no estrito ambiente municipal e regional, surge o governo federal, principalmente o governo federal, para orquestrar a situação. O atual governo federal, por exemplo, está deixando algo assustador que estenderia um rastro de destruição no Grande ABC somente inferior aos anos explosivos de Dilma Rousseff.

A bomba federal tem efeito retardado. E só seria desativada e não causaria maiores transtornos se houver mudanças na condução macroeconômica e microeconômica do País nos próximos anos. Os estragos de Dilma Rousseff,  em parte por causa da manjedoura do segundo mandato de gastança incontida de Lula da Silva, ainda não foram neutralizados no Grande ABC.

Perdemos somente nos dois anos mais graves -- 2015-2016 -- nada menos que  26% do PÌB Geral. O Brasil como um todo perdeu um terço disso e até hoje muitos acham que é um escândalo.  E é mesmo. No nosso caso, vivemos um terremoto.

E já se passaram 10 anos. Muita gente não se deu conta disso ainda.  Só poderia mesmo quebrar a cara. O varejo familiar que o diga. Não bastassem os danos de Dilma Rousseff, antecedidos por Fernando Henrique Cardoso, temos o domínio cada vez mais agudo do comércio eletrônico a ditar um futuro arrasador.

QUANTIDADE E QUALIDADE

Os resultados do mercado de trabalho, de maneira geral,  reproduzem os descaminhos históricos da Economia nacional e, particularmente, das enrascadas do Grande ABC. Saldos numéricos não dizem quase nada como argumento de supostas positividades quando desacompanhados de qualidade do emprego.

E o Brasil como um todo tem se esmerado em quantidade de emprego sem qualidade emprego. Sem tecnologia e inovação nas cadeias produtivas, o salário médio é uma barbaridade de frouxo.  Sem competitividade internacional, nada sobra.

Os 20 meses em questão são contabilizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Empregos mais qualificados têm saldos negativos na contabilidade geral. Vivemos de empregos de até dois salários mínimos. E festejamos bovinamente. As taxas de desemprego são despudoramente maquiadas. Milhões de subempregados e de tantas outras modalidades não são capturados tecnicamente como deveriam. Tecnicamente no sentido de qualidade de vida, não de estrutura fajuta ditada por acadêmicos de ar condicionado.

NÚMEROS POLÍTICOS

No caso regional, explicitamente do balanço de 20 meses, não há como deixar de focalizar a patetice de um então Secretário de Desenvolvimento Econômico.   Ele prometeu 100 mil carteiras assinadas nos quatro anos de mandato do prefeito que o escolheu. O resultado, como diagnostiquei assim que a barbaridade foi publicada no ano passado, não poderia ser pior.

Vamos aos fatos. Rafael Demarchi, o então secretário de Economia do prefeito Marcelo Lima, projetou 100 mil empregos líquidos no entusiasmo programado de um passo rumo ao futuro, que virou presente: ele, apoiado pelo prefeito, virou candidato a deputado federal. Vai levar uma surra daquelas, mas fortalecerá o projeto do prefeito de supostamente minar candidaturas do outro lado da gestão do Paço Municipal, principalmente de Orlando Morando, ex-prefeito e candidato a deputado federal.

É preciso ser muito ingênuo ou estar no mundo da lua para acreditar que Rafael Demarchi passará de um pingadinho de votos, mesmo com todos os esforços do prefeito Marcelo Lima. A tradição da Família Demarchi no ramo gastronômico já deu frutos no passado, contribuindo para eleger até um prefeito, no caso Walter Demarchi,  mas isso isoladamente já não tem mais valor eleitoral significativo. O mundo gira e a Lusitânia roda.

ANALFABETISMO

Tudo isso significa que não dá mesmo para descolar a barbaridade projetada por Rafael Demarchi da candidatura de Rafael Demarchi. É claro que para chegar a tamanha desfaçatez é preciso muita ignorância econômica. E Rafael Demarchi detém individualmente parcela significativa de analfabetismo econômico coletivo bruto no Grande ABC. Nosso PIE, PIB de Ignorância Econômica, é elevadíssimo.

É verdade que a concorrência de inapetência técnica é farta, mas a declaração proferida no ano passado coloca Rafael Demarchi temporariamente à frente no ranking de irresponsabilidade social. Ou alguém tem dúvidas sobre os efeitos danosos de declarações descabidas sobre a temperatura econômica da região quando se sabe que pouca gente conhece a realidade da região? Incrementa-se artificialmente um Eldorado econômico quando a realidade é completamente diferente. Comecem a reparar quantos estabelecimentos comerciais e de serviços viraram placas de aluga-se ou vende-se. Isso vem de longe e por motivos diferentes que têm o esvaziamento econômico da região como matriz.

Para que a projeção politiqueira de Rafael Demarchi percorresse o caminho da viabilidade, os 100 mil empregos que se acrescentariam ao estoque de trabalhadores com carteira assinada em São Bernardo deveriam ser distribuídos, em média, a cada mês, com  2.083 novas contratações. Pegue esse número e multiplique por 48 meses e se chega a 100 mil empregos. Sabe o leitor o resultado parcial depois de 20 meses sacramentados, ou seja, quase metade do circuito de quatro anos? Não mais que 8.931 contratações líquidas.

FAÇAM AS CONTAS

Agora o leitor pode fazer a seguinte operação: divida o total do saldo líquido pelos 20 meses já consumidos e multiplique por 48 meses,  que é a base de cálculo. O resultado? 21.434 novas contratações teríamos ao final de 2028. Ou seja: nada mais que 21% do total projetado pelo secretário da família gastronômica que marcou época em São Bernardo.

Exatamente o período em que a indústria automobilística crescia sem parar. O restaurante da família hospeda nesses dias o quartel-general de uma candidatura também apoiada pelo prefeito Marcelo Lima.

Prometi aos leitores que acompanharia atentamente o andar da carruagem do empregômetro e do desempregômetro em São Bernardo. Tudo por conta daquelas declarações de Rafael Demarchi. E o farei até que se esgote o primeiro mandato do prefeito, que, em última instância, fertilizou o terreno das bobagens de um executivo do primeiro escalão.

Os maus exemplos precisam não só serem denunciados como também escrutinados. O Grande ABC vive um século de intensas preocupações e gente como Rafael Demarchi presta desserviço à sociedade na medida em que faz da sociedade experimento político-eleitoral. Rafael Demarchi não é o único a manejar instrumentos desrespeitosos à cidadania. Há muitos outros que usam e abusam da mídia para vender ilusões e vantagens.

BALANÇO GERAL

O balanço geral ao final de quase metade dos atuais mandatos dos prefeitos do Grande ABC aponta que em termos numéricos, sem considerar os cromossomos das contratações, quem lidera é Santo André do prefeito Gilvan Ferreira.  Foram até agosto 9.853 contratações líquidas, 35,44% do total regional. Um pouco acima dos 8.931 contratações líquidas de São Bernardo, que representam 32,12% do total.

PROPORCIONALIDADE

Santo André supera São Bernardo tanto em termos quantitativos quanto relativos. Quantitativos porque tem saldo numérico superior. E relativos porque o estoque geral de São Bernardo ao longo da história é maior que o de Santo André.

Quando se divide o saldo de 20 meses pelo estoque, quem está na frente é quem tem melhor proporcionalidade. Falta atualizar o estoque dos sete municípios. As fontes primárias ainda não os expõem.  São Bernardo é maior no estoque geral em relação a Santo André assim como Santo André detém estoque superior a Mauá. Quem tem estoque maior só supera quem tem estoque menor se criar proporcionalmente mais saldo líquido.

O terceiro saldo numérico do Grande ABC em 20 meses de mercado de trabalho é de São Caetano, com 1.899 contratações líquidas. Diadema é o único endereço regional com saldo líquido negativo: desapareceram 63 postos de trabalho.  Mauá conta com saldo de 380 carteiras assinadas, Ribeirão Pires com 438 e Rio Grande da Serra com apenas uma contratação líquida em 20 meses.

Do jeito que a banda do emprego geral do Grande ABC está tocando nos últimos 20 meses, chegaremos ao final de 48 meses dos atuais prefeitos com saldo líquido de 66.720 contratações. É muito provável que não alcançaremos essa resultado. A economia nacional vive processo de desaquecimento industrializado pela gastança do governo Lula da Silva. O quadro fiscal é tenebroso. Os juros vão baixar mas nem tanto.  

Possivelmente não chegaremos a 50 mil contratações líquidas em 48 meses em todo o Grande ABC. São Bernardo dos 100 mil empregos de um secretário incompetente já terá dado o golpe de pretenso crescimento econômico. Infelizes daqueles que acreditaram no frango de irresponsabilidade com polenta de desfaçatez.


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