Paulinho Serra ainda não se deu conta de que o mundo da política gira enquanto a lusitana das circunstâncias roda. O golpe de Estado Regional que anunciou previamente na semana passada em entrevista ao Diário do Grande ABC é prova provada de que o ex-prefeito de Santo André sofre de síndrome de poder. Quem já passou por isso no campo político, sempre repleto de idas e vindas, acaba por se acostumar e a se preparar para surfar possível onda favorável.
Paulinho Serra é impaciente. Supõe contar com as costas largas de políticos estaduais e federais e entende reunir respaldo suficiente para poderes ilimitados. Ainda mais que usufrui permanentemente de marqueteiros atrevidos a embalar seus desejos.
Paulinho Serra quer comandar a operacionalidade de uma espécie de Clube dos Deputados Federais do Grande ABC. A informalidade do grupo subjugaria pretensamente nos sonhos de Paulinho Serra a formalidade do Clube dos Prefeitos.
Em toda a história política regional, jamais houve tamanha estupidez. E essa história começa com Celso Daniel, em 1990, ao liderar com a força de preparo intelectual a formação da instituição guarda-chuva de uma regionalidade ainda longe do ideal. Era o começo de tudo do Clube dos Prefeitos ainda pouco atento às transformações econômicas da região.
AÇÃO ISOLADA
Somente no segundo mandato regional de Celso Daniel, em 1997, eleito prefeito de Santo André, o Desenvolvimento Econômico virou prioridade das prioridades, seguindo, sem falsa modéstia, a vereda aberta pela revista LivreMercado, criada nove meses antes do Clube dos Prefeitos e tendo como espinha-dorsal a combinação de Economia e integração regional.
A proposta de Paulinho Serra não encontra sustentação nem entre potenciais deputados federais que serão eleitos nesta temporada, todos ou quase todos associados ou próximos dos atuais mandatários. Ou seja: além de golpista regional, Paulinho Serra exterioriza uma modalidade suicida de autoritarismo inócuo.
É impossível abordar no campo institucional qualquer questão regional sem levar em conta os legados de Celso Daniel. Pois Celso Daniel manifestou reiteradamente a este jornalista a intenção de incorporar ao Clube dos Prefeitos os deputados federais e estaduais, entre outros agentes, inclusive empresariais.
Aliás, tanto os primeiros quanto os segundos foram integrados à Câmara Regional do Grande ABC, arranjo institucional criado em seguida à dinamização do Clube dos Prefeitos e à criação da Agência de Desenvolvimento Regional. O governo do Estado, Mário Covas à frente, participou com equipe de secretários. Celso Daniel liderou tudo isso com a discrição e a eficiência possível quando mais de uma cabeça entra na contabilidade de resultados.
RABISCO RETALIADOR
O desenho pretendido por Paulinho Serra é na verdade um rabisco de fundo retaliador que tem como alvo ferir o potencial político e administrativo do sucessor Gilvan Ferreira, prefeito de Santo André com o qual mantém relações apenas protocolares.
Paulinho Serra deputado federal se incomodaria muito com Gilvan Ferreira a ser consagrado prefeito dos prefeitos do Grande ABC. Como se sabe, Gilvan Ferreira vai comandar o colegiado no ano que vem. Com isso, deixa Paulinho Serra inquieto: Gilvan pode fazer no Clube dos Prefeitos o que Paulinho Serra não fez, embora oportunidades fossem abundantes.
Fazer mais que Paulinho Serra não fez é caçapa cantada de efetividade, mas esse é apenas um dos pontos da questão. Com Gilvan Ferreira prefeito dos prefeitos e Paulinho Serra apenas deputado federal, haveria uma inversão de papeis na hierarquia política do Grande ABC, e especialmente de Santo André.
SEM CHEFIA
De que se trata afinal? Gilvan Ferreira ex-secretário de várias pastas na Prefeitura de Santo André então comandada por Paulinho Serra passaria à condição de chefe da companhia política regional. Algo insuportável para quem, como Paulinho Serra, detesta concorrência, quanto mais concorrência de melhor qualidade.
Não vou detalhar aqui o estoque de observações e análises que fiz durante a pífia trajetória de Paulinho Serra como prefeito dos prefeitos. O resumo é que seguiu a trilha de inapetência de antecessores. E não pode reclamar da sorte. A desgraceira da Covid foi uma oportunidade de ouro para exercer a regionalidade emergencial. Pouco fez.
Voltando à reportagem camicase publicada no Diário do Grande ABC, Paulinho Serra demonstrou que lhe faz falta um protagonismo local que abasteça o reservatório de ativos rumo à Brasília. Um exagero de autocrítica, porque o assistencialismo com que conduziu a Prefeitura de Santo André durante oito anos é um cartão de visita apreciável no mundo eleitoral.
SEM MÁQUINA
Duro mesmo, e aí a roda pega, é manter esse estoque nas mesmas proporções, inclusive com extensão à mulher deputada estadual, sem a máquina pública azeitada para lhe servir. E isso ruiu com a nova Administração Municipal. Gilvan Ferreira rejeitou o posto de simples pinguela ao retorno do ex-prefeito.
Todo o mundo sabe que o cargo de deputado federal isoladamente não assegura potencial eletivo a prefeito. Tem seu valor, mas está subordinado ao prefeito de plantão. Com o golpe do Clube dos Deputados Federais, Paulinho Serra imagina protagonismo de chefe de Executivo.
Convenhamos que a estratégia golpista que Paulinho Serra expôs no Diário do Grande ABC com formato de responsabilidade social é fantástica, mas acondiciona inexequibilidade gigantesca. Mais que isso: remete o pretendente à sugerida estupidez coletiva dos atuais prefeitos.
De fato, e para valer, ao revelar intenções de dar uma rasteira nos chefes de Executivos, Paulinho Serra aprofundou o buraco de dificuldades que vem encontrando junto à classe política regional, sintetizada na metáfora daquela companhia de transporte.
Movido a marqueteiros sem limites, Paulinho Serra está formatando um modelo de político de encontro marcado com uma coletânea de vícios e vieses que pareciam definitivamente desativados como estrutura de reorganização da classe no País. Paulinho Serra tem desafiado todos os limites de razoabilidade ao incursionar por terrenos batidos como se fossem recém-pavimentados de ideais republicanos. É um jovem político com impressionante vocação à perpetuidade de velharias.
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