Política

Veja coloca fogo e enxadrismo
eleitoral muda em São Bernardo

DANIEL LIMA - 02/04/2014

Uma noticia curta e maliciosamente apimentada na edição nacional da revista Veja desta semana deu um empurrão esperado no até então moroso enxadrismo eleitoral de São Bernardo. O lugar-tenente do prefeito petista Luiz Marinho, Luiz Fernando Teixeira, presidente do São Bernardo Futebol Clube, um dos alvos daquela publicação, já está executando processo de retirada do protagonismo de bastidores, enquanto os deputados estaduais Orlando Morando e Alex Manente, como Teixeira potenciais candidatos à Prefeitura em 2016, contam com ações dos respectivos entornos que pretendem aproximá-los. Manente concorrerá a deputado federal e Morando a um quarto mandato estadual. Teixeira quer uma vaga na Assembleia Legislativa como plataforma de embarque à sucessão de Luiz Marinho.


 


A situação de Luiz Fernando Teixeira tornou-se desconfortável e já teria levado o PT de São Bernardo, que manda com dificuldades no PT regional, a mobilizar-se para uma encenação politicamente ajuizada mas de efeitos práticos questionáveis: o advogado Edson Asarias, braço direito de Teixeira, assumirá oficialmente as tarefas de arrecadador de dinheiro da campanha do petista, que se preocupará mesmo com a estratégia eleitoral.


 


A iniciativa tem dupla carga: ao mesmo tempo em que afastaria Teixeira dos faróis de milha de desconfianças sobre a legitimidade arrecadatória, amenizaria hostilidades de outros candidatos do partido que se sentem preteridos, quando não prejudicados. Teixeira é visto como interlocutor privilegiado junto ao empresariado, porque se apresenta sempre e sempre com a chancela de Luiz Marinho.


 


A nota da coluna “Holofote” de Veja, assinada por Otávio Cabral, foi interpretada no quartel-general petista como algo mais que uma informação jornalística em estado puro, de virgindade interpretativa. Teme-se que a publicação descortinou uma fresta de eventuais incursões mais agudas, incisivas e abrangentes, sobre a candidatura de Luiz Fernando Teixeira.


 


Não falta quem avalie a informação como ameaça real, porque Teixeira comandou a arrecadação de dinheiro de muitas campanhas eleitorais às prefeituras da região, inclusive de São Caetano, onde o PT aliou-se informalmente ao peemedebista Paulo Pinheiro.


 


O texto de Veja


 


Não custa nada reproduzir o texto de Otávio Cabral, no topo da coluna da Veja e ilustrado com uma foto de Luiz Fernando Teixeira. Cabe um parêntese: como a informação também envolve o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanches, seria natural que a foto do dirigente tivesse preferência à ilustração. Como quem aparece é Teixeira, não faltam visões ainda mais especulativas sobre o conteúdo supostamente cifrado da nota. Vejam o que Veja publicou sob o título “Na bola e no cofre”: “Lula montou uma chapa de candidatos a deputado pelo PT paulista com cartolas de seus times do coração: Andrés Sanches, ex-presidente do Corinthians, tentará uma vaga de federal e Luiz Fernando Teixeira, presidente do São Bernardo, de estadual. Além de puxadores de votos, os dois são elogiados por dirigentes petistas pela capacidade de arrecadar dinheiro para as próprias campanhas e para as de Dilma e de Alexandre Padilha”.


 


Juntando-se os pauzinhos do que alguns chamam de possibilidade de esboroamento do esquema de arrecadação de dinheiro eleitoral com os pauzinhos de escândalos federais, sobretudo da pátria de combustíveis, a Petrobrás, não faltam incentivadores à junção mesmo que informal do contragolpe eleitoral em São Bernardo com Orlando Morando e Alex Manente.


 


O anúncio de que Alex Manente vai concorrer à Câmara Federal sinalizaria que a dupla poderá fechar de vez as porteiras à ocupação de preciosos territórios da classe média local pelo petista Luiz Fernando Teixeira.


 


Dobradinha improvável


 


Há algum tempo chegou-se a cogitar e a formular medidas que envolveriam uma dobradinha entre Teixeira e Manente, saída para o petista colocar os dois pés nos bairros de maior escolaridade e renda. Agora, ao que parece, a canoa virou. Com o suporte de realidades e de mitologias que uma nota da Veja sempre incrementa.


 


A notícia de Veja foi avaliada por cúpulas paralelas do PT na Província do Grande ABC, as quais mantêm relacionamentos apenas protocolares com Luiz Fernando Teixeira. Irritados com o que chamam de gulodice do presidente do São Bernardo Futebol Clube, esses petistas comemoraram o que avaliam como sinal vermelho institucional à ação dominante de Teixeira.


 


A ideia difundida por Luiz Marinho de candidatar-se ao governo do Estado, frustrada na sequência por conta de baixa potencialidade de votos, foi considerada por petistas de outras praças locais o nascedouro da concentração de poderes além do território de São Bernardo. A escalação de Teixeira para comandar monoliticamente o jogo arrecadatório alterou o mapa de forças municipais. O PT de São Bernardo criou o que se poderia chamar de Supremo Poder Arrecadatório na Província. Tudo teria de contar com o aval de Luiz Fernando Teixeira. A regionalização petista, uma inovação na política local, é contestada pelos próprios petistas. A nota de Veja, por mais paradoxal que possa parecer, é vista como a salvação da lavoura em âmbito interno do partido.


 


Sem a candidatura de Luiz Marinho e com o governo de Dilma Rousseff cheirando a queimado após as revelações de que Pasadena não é um endereço perdido no mapa norte-americano, o remanejamento e o reenquadramento de forças relativas petistas na Província começaram a mexer com projeto de centralização de decisões em São Bernardo.


 


A crise regional interna do PT incentiva mobilização de uma oposição até então cambaleante a enxergar um futuro que parecia inalcançável. Daí ações de bastidores para aproximar Manente e Morando. Ao concorrerem pela primeira vez em raias diferentes, a deputado estadual e a deputado federal, Morando e Manente atenderiam aos anseios do eleitorado de classes médias convencionais que não engolem o PT, assim como o grosso dos leitores de Veja.


 


Esse é o retrato momentâneo do quadro político na Capital Econômica da região. Mas política, como se sabe, tem mais relação metafórica com filme. Por isso, é melhor aguardar os próximos acontecimentos. 


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