Os petistas de carteirinha e os petistas de aluguel, metidos nas administrações municipais por conta de vantagens geralmente espúrias, vão adorar este artigo. Os antipetistas empedernidos, tanto por ideologia quanto por qualquer outro motivo, justo ou não, vão detestar. O que posso fazer se sou escravo das informações e dos fatos, sem qualquer relação com gregos e troianos?
A notícia é a seguinte: estou desconfiado, pela leitura de entrelinhas mais que de linhas inteiras, que Sérgio Gomes da Silva vai voltar às manchetes por conta do assassinato do prefeito Celso Daniel. Há mobilização nesse sentido para desgastar o já mais que desgastado PT. Afinal, temos eleições nesta temporada. Quem paga o pato, mais uma vez, é um inocente.
Os advogados de Sérgio Gomes já devem estar de prontidão. A expectativa é de que venha chumbo grosso por aí. A filha de um empresário de ônibus de Santo André, deputada Mara Gabrilli, até outro dia cotada para ser companheira de chapa de Aécio Neves à presidência da República, fez recentemente interpelações a Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, sobre o assassinato do prefeito, durante sessão da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Ela citou o livro de Romeu Tuma Júnior, lançado outro dia, como fonte das manifestações.
Provavelmente Mara Gabrilli não leu o capítulo relativo ao caso Celso Daniel com a isenção ou com o cuidado necessário. O relato do delegado, que diz ter conhecimento sobre o assassinato, é uma mistureba de incoerências e bobagens, com chutões interpretativos para todos os lados, além de grotescos equívocos factuais. Até mesmo o pai da deputada é envolvido nas possibilidades de ter, segundo a visão aparvalhada do delegado, mandado executar Celso Daniel.
Empresário canonizado
O velho pai da deputada, que já vive outra vida, foi canonizado durante o interrogatório. Ele era ao que parece um oásis de honestidade num setor notoriamente corruptor, como o de transporte público em Santo André e em qualquer outra localidade. Mara Gabrilli atingiu a jugular de Gilberto Carvalho ao inclui-lo no rol de contraventores da Administração de Celso Daniel. “O senhor sempre foi conhecido como o homem do carro preto. Era a pessoa que realmente pegava essa coleta de dinheiro extorquido de empresários e levava para o capo, como era conhecido o José Dirceu. Isso eu não li. Isso ei vivenciei”, disse a deputada.
É claro que ninguém se lembrou de perguntar a Mara Gabrilli sobre os motivos de, tendo vivido o que diz ter vivido, por que não denunciou a suposta tropa de choque de corrupção de Celso Daniel, listada nominalmente pela deputada durante o evento. Nem tampouco lhe indagaram sobre a reciprocidade que o governo estadual de São Paulo lhe ofereceu, entronizando-a na administração, logo após o aparecimento em cena das denúncias do Ministério Público. Os Gabrillis passaram de suspeitos de uma rede de maracutaias que vinha de longe, a heróis denunciantes.
Não está fora de cogitação que a morte de Celso Daniel tenha sido observada pelos Gabrillis como um ponto de inquietação ao futuro da concessionária de transporte. O lobby informal do enviado especial da empresa, João Francisco Daniel, diretamente com o irmão, em visitas frequentes ao Paço de Santo André, teria sido automaticamente interrompido.
Projetavam-se, segundo a versão de que o transporte coletivo de Santo André era um jogo pesado de interesses, dias difíceis para os Gabrilli sem as supostas benesses de Celso Daniel, já que a estrutura de comando do Paço Municipal seria outra e o irmão João Francisco seria carta fora do baralho. Daí, denunciar o esquema e associá-lo ao assassinato, foi um salto. Um salto tardio e de duvidosa veracidade quanto ao vínculo com o assassinato.
Tanto que nas primeiras investigações policiais que tomaram depoimentos dos irmãos de Celso Daniel, nada de irregular foi relatado. A morte do prefeito foi ocasional na avaliação dos irmãos. Depois, como se sabe, o MP entrou em ação com a versão de crime conjugado que a Polícia Civil jamais detectou e a Polícia Federal descartou.
Perdedor de sempre
A realidade é que, dando-se crédito à possibilidade de corrupção na gestão de Celso Daniel, nada seria diferente e tampouco menos grave do que em tantas outras administrações públicas. Como a de Mário Covas, por exemplo, notoriamente uma incubadora do escândalo metroferroviário. A historiografia demonstra que, em se tratando de gestão pública, na equação de vantagens entre servidores públicos, amigos mais próximos do rei e concessionárias de serviços de transporte coletivo, quem perde são exclusivamente os contribuintes.
Para a deputada Mara Gabrilli, num caso inédito, o velho pai era uma exceção. Quem é do ramo e acompanhou o vídeo da intervenção da deputada não conteve sorrisos sarcásticos, mas a mídia unilateral feita de blogueiros sob encomenda, prefere apenas uma metade da laranja podre para construir frases de efeito e sentenças definitivas.
A politização do caso Celso Daniel vem de longe. Pretende-se a todo custo juntar duas peças inconciliáveis (segundo todas as forças policiais envolvidas nas investigações), no caso o crime e a corrupção. A manipulação vem desde que a força-tarefa de promotores criminais foi criada pelo governo Geraldo Alckmin para combater a versão oportunista do PT de que o então prefeito de Santo André foi morto porque a Segurança Pública do Estado naquele não tão distante 2002 era um lixo.
É verdade que a Grande São Paulo era um convite ao banditismo, sobretudo aos sequestros, conforme farta documentação baseada nas publicações diárias, mas daí, como fez o PT naquela manhã de 19 de janeiro de 2002, partir de imediato à retaliação política, enquanto Celso Daniel ainda estava sob ameaça dos sequestradores, foi um excesso de ganância eleitoral naquela que seria uma nova temporada de votos presidenciais.
Não vou desfilar mesmo que resumidamente as razões que me levaram sempre e sempre a considerar Sérgio Gomes vítima político-eleitoral de gente que adora confundir realidade e fantasia. Há mais de uma centena de textos no acervo desta revista digital à disposição dos leitores. Sei que o tema é abrasivo. Tenho experiência de sobra principalmente sobre manifestações de leitores que, manipulados pela chamada grande mídia e ultimamente por um livro do patético delegado Romeu Tuma Júnior, manifestam-se até mesmo de forma deseducada.
Jamais me deixei impressionar por leitores desse nível entre outros motivos porque não escrevi uma linha sequer de orelhada, enquanto eles só repetiam informações de terceiros massificadas pela mídia de grande porte. Fui a campo de forma isenta.
Ao contrário, portanto, das grandes publicações que, passados anos, caem em flagrantes contradições. Como no caso de que o Ministério Público, antes soberano nas investigações que contrariavam os especialistas da Polícia Civil do governo tucano, passou a ser analisado como perigosamente autoritário e despreparado. Uma visão que prevaleceu até que as ruas se manifestassem em junho do ano passado e, em seguida, o MP ganhasse a batalha no Congresso Nacional pelo direito de investigar. Decisão com a qual concordo totalmente, desde que obedecidos os rigores constitucionais que, ao contrário do que afirmam os espertalhões ideológicos de plantão, existem mesmo para serem obedecidos. E que não o foram no caso Celso Daniel.
Aliás, o núcleo vital do recurso dos advogados de Sérgio Gomes no Supremo Tribunal Federal concentra-se sobre esse ponto, mais que no propalado direito investigativo do Ministério Público. A grande mídia, desinformada e permanentemente em rodízio de profissionais na cobertura do caso Celso Daniel, não faz outra coisa quando o temário volta à pauta senão recorrer à Internet e, preguiçosamente, copiar todas as bobagens já produzidas, num repeteco infernal que os leitores desmemoriados compram inadvertidamente.
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11/07/2022 Caso Celso Daniel: Valério põe PCC e contradiz atuação do MP