Não sei se rio ou se choro, mas de fato e sem fazer suspense, a verdade é que choro, porque não dá para rir de situação que no passado já era gravíssima e o tempo certamente a tornou ainda mais deteriorada e comprometedora às gerações futuras que sempre viram gerações presentes.
Trata-se do seguinte que traduzo em consequente indagação: o leitor tem ideia de quantos por cento da População Economicamente Ativa de Santo André trabalha fora de Santo André e por trabalhar fora de Santo André abre um fosso de cidadania (e um portal ao assistencialismo) porque cidadania é moldada no dia a dia de convivência social?
Se o parágrafo está cumprido, o leitor que se vire, porque fiz de propósito. O assunto é grave. Volte ao começo e releia, se for preciso. Embora provavelmente hoje como ontem em grau menos grave, os demais municípios da região vivem situação semelhante. A cidadania municipal foi para o espaço sideral. Quem trabalha a semana inteira só tem mesmo o fim de semana para entender um pouco o que se passa na própria rua em que mora. A cidade é um mistério.
PASSIVO PESADO
Duvido que o leitor tenha a mínima ideia de quanto existia de evasão de cérebros e de músculos no Grande ABC no começo da segunda década deste século. Entenda evasão de cérebros e também de músculos levando-se em conta dois universos: a População Economicamente Ativa que trabalha fora da cidade de domicilio mas restritiva ao território do Grande ABC, dos demais seis pedaços municipais, e, complementarmente, do território da Capital do Estado, a vizinha Cinderela, além de, eventualmente, outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo.
Foi por acaso ontem à tarde, ao remexer arquivos desta revista digital, que resolvi meu problema desta segunda-feira. Havia uma montanha de opções para desenvolver a pauta do dia. Havia tanta coisa que imaginei ficar perdido em meio a múltiplas alternativas. E olhem que sou organizado quando a pessoa jurídica está em jogo. Mas eis que encontrei a matéria que o leitor vai ler logo abaixo (espere, não se meta a descer os parágrafos senão você estraga tudo) que há muito procurava.
De que se trata afinal? Simplesmente não suporto ouvir agente público proferir a palavra “pertencimento” ao se referir como sinônimo à paixão de morar em qualquer cidade da região, Mais especificamente em Santo André. Tanto o então prefeito Paulinho Serra como seu sucessor, Gilvan Junior, por força certamente do marqueteiro de plantão, cansaram de utilizar o verbete para transmitir a ideia de que vivemos, em Santo André, uma situação de normalidade social invejável, em que o amor pela cidade e a cidade pressupostamente decorrente disso são argamassas de cidadania que valorizaria e também possibilitaria massa crítica a mensurar as ações públicas.
Só não dizem que Santo André tem um curral eleitoral de 120 entidades assistenciais como reflexo do empobrecimento encavalado a cada nova temporada.
BAIXÍSSIMA CIDADANIA
O Grande ABC gataborralheiresco de baixíssima cidadania municipal e nenhuma cidadania regional é resultado de uma catástrofe econômica nas últimas três décadas com fundas repercussões sociais a ponto de violarem qualquer sentimento mais nobre de morar na região.
Como ter sentimento mais nobre no sentido de honrar a camisa se uma maioria avassaladora vive para trabalhar intensamente fora do próprio Município, sofre horrores com a logística saturada até chegar ao trabalho e voltar cansada no final do dia, até meter-se televisão adentro? Ainda vou escrever mais sobre a destruição da identidade municipal no Grande ABC a bordo dessa ruptura dos canais econômicos provocada pela desindustrialização.
O que pergunto (e aí o texto que produzi há mais de uma década é relevante à compreensão dessa abordagem), utilizando o exemplo mais escandaloso de então, de Santo André, o que pergunto é como os andreenses da gema ou da clara, gozam de pertencimento se mais da metade da População Economicamente Ativa passava o dia fora da cidade? É isso o que ocorria (o texto abaixo mostra isso) em 2014, quando uma pesquisa de origem e destino escancarou a situação.
DEFASAGEM AGRAVADA?
É uma pena que os dados estão defasados. Procurei na Internet utilizando todas as medidas de rastreamento, para atualizar os números. Se a repetição daqueles dados já seria uma catástrofe, imagine então o agravamento mais que provável. Afinal, nos últimos 12 anos o Grande ABC continuou a ceder espaço ao empobrecimento e ao congelamento, quando não, à retração da mobilidade social. E também a mobilidade urbana tornou-se ainda pior.
Repasso integralmente aquele texto que de fato é análise. O fato é que o Grande ABC, mais precisamente o Clube dos Prefeitos do Grande ABC, jamais movimentou qualquer pedra de interesse e responsabilidade para entender também sob o ângulo de mobilidade urbana o quanto perdemos de potencialidade de desenvolvimento econômico e social. Uma pesquisa específica deveria ser encomendada junto ao metrô, que parece estar com essa responsabilidade na Grande São Paulo, já que a Fundação Seade, do estudo anterior, exime-se dessa geografia.
Garanto aos leitores que se resolvesse sentar à mesa para produzir uma lista de demandas essenciais à compreensão do estágio a que chegou o Grande ABC em várias atividades, provavelmente teria três dezenas como respostas. No entanto, apesar dessa avalanche, não se tem no Clube dos Prefeitos nada efetivamente prioritário para mudar o rumo econômico do Grande ABC.
Há uma série de ações nos últimos meses da atual safra dos prefeitos eleitos em 2024, mas é muito pouco e varejistas demais para decifrar os meandros do Grande ABC.
O gataborralheiresco Grande ABC foge da realidade como o diabo foge da cruz. A imperiosidade de entender a região obrigará os prefeitos e a Sociedade Servil e Desorganizada a se mexerem até mesmo por constrangimento ético e moral.
Nada surpreendente para quem há 12 anos apresentava o quadro social que reproduzo em seguida. Afinal, regionalidade é nossa especialidade. Nossa e de mais ninguém, como pretendem se arvorar os descuidados de sempre. Leiam e reflitam sobre o que éramos em 2014. Não precisa se penitenciar individualmente. A desilusão e a negligência são uma propriedade coletiva de mandachuvas e mandachuvinhas que ocuparam espaços públicos, privados e sociais do Grande ABC.
Estudo prova: evasão de cérebros é
mesmo dramática em Santo André
DANIEL LIMA -- 17/11/2014
Um estudo da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) comprova o que escrevemos há uma porção de anos, para não dizer décadas: Santo André sofre como nenhum outro Município da Província do Grande ABC as dores da desindustrialização, manifestada na fuga de cérebros e também de músculos. É verdade que a Fundação Seade deu interpretação diferente aos dados que colheu. É por isso que deve existir Imprensa livre para opor-se a festeiros visitantes.
São magérrimos os números sobre os trabalhadores que moram e atuam no próprio território de Santo André, outrora viveiro industrial: 47,5%, apenas. Isso quer dizer que mais da metade dos trabalhadores se mandam a outros endereços da Região Metropolitana de São Paulo. O índice regional de quem mora e trabalha no próprio Município é de 77%. O resultado confirma a condição de periferia que ostentamos em todos os campos. A cidade de São Paulo absorve em seu próprio território 96% da população empregada.
Há muito a escrever sobre o estudo da Fundação Seade, inclusive um reparo que deve ser reiterado: o porta-voz daquele organismo do Estado, Alexandre Loloian, transmitiu uma mensagem de falso poderio regional. Os jornais locais a reproduziram acriticamente porque na maioria dos casos os jornais locais são apenas repetidores oficiais de fontes programadas para agradar.
PERDA DE CIDADANIA
A evasão municipal de empregos é ruim em todos os sentidos ao afetar diretamente a possibilidade de, a partir do local, de moradia e trabalho, estabelecerem-se estacas de cidadania regional. Pior que a evasão municipal de empregos somente a evasão regional de empregos, ou seja, de trabalhadores locais que atuam fora da região, sobretudo na Capital. Cálculos da Fundação Seade chegam a 20% do contingente da população economicamente ativa que se dirige diariamente à Capital para ganhar o pão nosso de cada dia.
O tempo que se despende com mobilidade urbana é tempo desperdiçado na projeção de mobilidade social, que é o direito sagrado e democrático de evoluir economicamente na vida. O emprego industrial reduz de tamanho a cada temporada na região sem que o terciário ofereça contrapartidas semelhantes, porque é de baixa tecnologia. Diferentemente, portanto, da vizinha Capital, onde uma imensidão de alternativas na área de serviços a tornou palco de grandes investimentos em áreas tão distintas como gastronomia, entretenimento, shows, consultoria, hotelaria, entre tantos.
Vivemos na penumbra da Capital. Uma penumbra sem brilho próprio. No passado, nossa penumbra frente à Cinderela era uma penumbra com qualidade e vitalidade econômica. Nosso passado de industrialização revolucionária no campo social atenuava o gataborralheirismo típico das periferias de grandes capitais.
A evasão de cérebros e de músculos de Santo André só surpreende aos desatentos, aos triunfalistas ou aos imbecis juramentados que fazem das tripas coração para enganar o distinto público.
Já não é de hoje que escrevo sobre o fluxo de saída e o fluxo de entrada de veículos de Santo André a cada manhã e a cada final de tarde. Não fui o primeiro a observar essa prova provada de que Santo André se esvazia mais que outros municípios a cada dia, para alegria dos malandros de plantão.
Foi o professor Joaquim Andrietta, já morto, quem me chamou a atenção sobre isso, mais de 10 anos atrás. Provavelmente fosse outro o interlocutor, a conversa teria morrido ali. Como jornalismo exige atenção permanente, guardei a informação e passei à observação contínua. Por isso, o que a Fundação Seade revela em dados mas não em interpretação, não passa de confirmação empírica.
Santo André é o caso mais desalentador sobre a fuga de mão de obra a outros municípios da Grande São Paulo, mas não é o único. Mauá até supera o número relativo de Santo André com apenas 46,9% da população economicamente ativa ocupada na cidade. Rio Grande da Serra é a recordista, com apenas 32,5% dos trabalhadores em empresas locais. Em Ribeirão Pires são 53,5%.
Estranho os números de São Caetano, segunda colocada do ranking regional de trabalhadores que atuam na própria cidade, com 59,2%. Imaginava que os números se assemelhariam aos de Santo André, num texto que publiquei no ano passado e que consta do link abaixo, quando a Fundação Seade não revelou os percentuais municipais, apenas o resultado regional.
Por que São Caetano igualmente desindustrializada não conta com números semelhantes aos de Santo André, com maioria da população economicamente ativa deslocando-se a outros municípios? Seja qual for o motivo, praticamente 41% dos trabalhadores que moram na cidade atuam fora. É um número elevado. Quatro a cada 10 deslocam-se rumo a outro território todos os dias.
Também não se deve minimizar a situação de São Bernardo, primeira colocada na relação trabalhador-residência com 65,5% de participação. São 30 pontos percentuais abaixo da média da cidade de São Paulo. Para a Capital Econômica da região, nada mais cristalino de uma crise de emprego. Ou seja: nem mesmo o melhor endereço para trabalhar na região conta com possibilidade maciça de remunerar os próprios moradores. Em Diadema o jogo está praticamente empatado: 50,2% dos trabalhadores residentes no Município trabalham no Município. A outra metade mora na cidade e trabalha fora.
EMPREGOS DE MENOS
Há dois aspectos que devem ser considerados sobre esses dados. Primeiro, já não temos capacidade de gerar empregos à nossa própria população. Principalmente empregos de qualidade que a Capital absorve. Segundo, o custo do desgaste físico e mental, além de financeiros, nos deslocamentos, é imensurável.
Há quem tenha a cara de pau de dizer que a Província do Grande ABC é aceitável em mobilidade urbana, a ponto de, com essa falsa premissa, fortalecer uma conclusão ainda mais pecaminosa: estamos dando conta (e bem) do recado de empregar nossa própria população. Provavelmente o autor da loucura analítica não conhece nossas vias coalhadas de veículos. Principalmente nos principais corredores viários, invadidos pela verticalização insana do setor imobiliário controlador de instâncias legais de poderes públicos municipais.
Conciliar emprego e residência num mesmo Município deveria ser política de primeira ordem do Clube dos Prefeitos do Grande ABC. Forças-tarefas integradas por economistas e urbanistas deveriam ser convocadas para buscar alternativas macrogerenciais no campo físico-territorial, bem como nas corporações privadas.
Sem xenofobia municipalista e regionalista, o incremento do emprego local para os moradores locais regeria as relações dos empreendedores com o Poder Público e os sindicatos de trabalhadores e de empreendedores. Sabe-se que até por questão de sobrevivência de produtividade as empresas já adotam políticas direcionadas à contratação de mão de obra disponível nas proximidades das plantas, mas mesmo essa prática se exaure na lógica de mercado de que a rentabilidade não pode se subordinar à conveniência de tráfego.
O entupimento dos corredores viários que ligam a Província do Grande ABC à Capital inibe estragos ainda maiores no fluxo de retirada diária de trabalhadores locais em busca da Capital, calculada em 20%. Quando o circuito de monotrilho chegar à região, o muro da baixa mobilidade urbana será definitivamente destruído. Perderemos mais trabalhadores locais para a Capital.
Provavelmente teremos aumentado nosso índice de região-dormitório, hoje de 33% no geral. Perdemos a batalha da competitividade territorial porque, diferentemente de outros municípios da Grande São Paulo, não tivemos competência para ganhar com as sobras da Capital cada vez mais improdutiva por conta de deseconomias de escala mas mesmo assim imbatível.
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01/04/2026 E AS UNIVERSIDADES VÃO REAGIR MESMO?