O presidente do São Bernardo Futebol Clube, Luiz Fernando Teixeira, já emitiu os primeiros sinais dos aliados com que pretende contar para eleger-se deputado estadual por São Bernardo. A oitava edição da revista “Bernotícias”, colocada gratuitamente em centenas de pontos comerciais, dá o tom: Lula da Silva, presidente de honra do clube, ocupa a capa, distribuindo acenos aos torcedores do São Bernardo durante um jogo no Estádio Primeiro de Maio, palco onde o então sindicalista emergiu para a mídia nacional no final dos anos 1970.
Nas páginas internas, Luiz Fernando agarra-se não só ao ex-presidente mas também ao prefeito Luiz Marinho, uniformizados com a camisa do São Bernardo (a camisa de Lula é metade amarela do clube e metade branca do Corinthians). Resta saber o que acha de tudo isso Teonílio Barba, diretor financeiro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, também candidato a deputado pelo PT de São Bernardo.
A revista do São Bernardo Futebol Clube é campanha eleitoral explícita, mas não difere, convenhamos, do que a quase totalidade dos políticos praticam durante o período chamado de pré-eleitoral. Uma das minas de ouro da candidatura de Luiz Fernando Teixeira, as escolinhas de futebol que integram o projeto Tigrinho, ganha destaque editorial. Assim como o desempenho da turbinadíssima torcida do São Bernardo, quarta colocada em média de presença na Série A do Campeonato Paulista, competição através da qual Teixeira pretendia pelo menos garantir uma vaga na Série D do Campeonato Brasileira desta temporada porque, aí sim, teria um segundo semestre político e esportivo para cabalar votos. Sem o futebol, licenciou-se para dedicar-se integralmente aos votos.
Aprendizado rápido
De Luiz Fernando Teixeira pode-se dizer tudo sem que se fira o decoro ético, por assim dizer. O dirigente é atrevido, impulsivo, arrojado e atento a tudo que envolve a atividade esportiva e também o mundo da política. Colecionou bobagens ao longo dos anos, mas também apresenta como ativo inegável aprendizado. O São Bernardo que disputou a Série A Paulista deste ano é prova do avanço. Tanto que quase conquistou uma vaga nas quartas-de-final e por pouco não chegou à Série D do Brasileiro.
No campo político, Luiz Fernando Teixeira coleciona aliados e detratores como poucos. Reúne passivos e ativos que o distinguem como uma raridade do meio, porque não ocupa cargo diretamente escolhido pelos eleitores mas já conta com batalhões de amigos e inimigos típicos de um veterano. Move Luiz Fernando Teixeira uma ambição quase desregrada. O sonho de virar prefeito de São Bernardo, na sucessão de Luiz Marinho, passa por muitos mata-burros não só dos adversários dentro do PT e de fora do PT, mas também no próprio entorno de suporte e, principalmente, dele mesmo.
Luiz Fernando Teixeira não é o que se comumente chamaria de alguém em que se possa confiar plenamente. Pelo menos entre aqueles que não gozam de hierarquia equivalente. O prefeito Luiz Marinho o tem em alta conta porque eles dividem os poderes paralelos do Paço Municipal de São Bernardo. Anônimos ou pretensos protagonistas da vida esportiva e política não recebem de Luiz Fernando Teixeira atenção assemelhada. Há certa resistência que, claro, será quebrada no período eleitoral.
Mesmo os políticos que olham para uma fotografia de Luiz Fernando Teixeira como se a imagem projetada fosse de Judas não desdenham da possibilidade de o presidente do São Bernardo Futebol Clube consagrar-se deputado nas próximas eleições. A resposta é sempre a mesma: ele tem empatia quando lhe interessa dinheiro em abundância e amigos estratégicos que lhe devem favores e que favores vão ser cobrados em forma de uma rede de apoiadores políticos.
Celebridade passageira?
Diferentemente de tantos outros políticos emergentes na Província do Grande ABC ao longo dos tempos, casos em que supostas estrelas apareceram e desapareceram por conta de contextos, Luiz Fernando Teixeira é observado sob lentes rigorosas e as enfrenta com louvor no sentido de competitividade longeva. Traduzindo: não seria o encerramento do mandato de Luiz Marinho e eventual quebra da fortaleza política e financeira do PT em São Bernardo que fariam de Luiz Fernando Teixeira uma chuva de verão. Resta saber se essa avaliação não é fruto do contexto atual, cercado de vantagens comparativas. Na euforia do poder constroem-se castelos de areia.
Seja lá o que for do futuro, certo mesmo é que o presente imediato e o presente próximo favorecem Luiz Fernando Teixeira na caminhada rumo à Assembleia Legislativa de São Paulo. Mesmo se admitindo, por exemplo, que enfrenta barreiras no próprio PT, no qual, além de Teonílio Barba, encontra resistência do eleitorado de Ana do Carmo, deputada estadual há várias legislaturas e explicitamente adversária do conselheiro-mor de Luiz Marinho.
Ao se agarrar à imagem de Lula da Silva, carona que não se sabe se autorizada ou não, embora provavelmente o seja, Luiz Fernando Teixeira também transmite mensagem de realismo: como as portas sociais de Ana do Carmo e as portas sindicais de Teonílio Barba lhe estão quase fechadas, e como o eleitorado de classe média tradicional se dividirá em larga escala entre Orlando Morando e Alex Manente, numa dobradinha até outro dia impensável, não lhe restaria saída senão avançar as colunas em direção ao eleitorado do ex-presidente que, em tese, furaria todos os bloqueios instalados pelos concorrentes, menos, evidentemente, na classe média convencional, avessa ao petismo. Mesmo ao petista sedutor de Lula da Silva.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB