Política

Será que Miriam Belchior
vai virar Miriam Daniel?

DANIEL LIMA - 14/08/2002

O silêncio da secretária municipal Miriam Belchior sobre as possibilidades de ser ungida pelo partido à disputa da Prefeitura de Santo André em 2004 denota o caráter da principal herdeira político-administrativa do prefeito Celso Daniel, seu ex-marido. Sabe-se no Paço Municipal que Miriam Belchior tomou conhecimento do assunto tratado neste Capital Social -- é uma de nossas emeiadas, segundo consta de nosso cadastro -- mas não pretende se manifestar entre outros motivos porque está integrada à equipe do prefeito João Avamileno.


 


Nada mais lógico. Da mesma forma que a executiva pública acerta em cheio ao desvencilhar-se de qualquer tentativa de manifestação pública (não tentaremos essa tarefa porque consideramos a negativa da interlocutora tão óbvia quanto providencial), este jornalista cumpre o papel de bem informar, com base nas fontes de que dispõe. Certo também -- e que isso fique bem claro -- é que não estamos a serviço de ninguém que eventualmente nutre interesse de chegar ao Paço, e nem a desserviço de quem pretende eventualmente continuar no Paço. Estamos cumprindo com a obrigação social de transmitir informações e análises, de acordo com o movimento das nuvens, isto é, da política.


 


De qualquer forma, entendemos que a possibilidade de Miriam Belchior tornar-se Miriam Daniel não pode ser desqualificada de forma alguma. Por que transformação de Miriam Belchior em Miriam Daniel? Ora, a partir do momento em que eventualmente venha a lançar-se à Prefeitura, mesmo como companheira de chapa de João Avamileno, Miriam Belchior vai ter de recorrer ao nome familiar que já ostentou como mulher de Celso Daniel pela simples razão de que seria ela e não o irmão denunciador de Celso Daniel, João Daniel, legítima sucessora dos ideais do prefeito assassinado.


 


Impacto transgressor 


 


Já imaginaram o impacto transgressor das propostas de Celso Daniel se seu irmão, centrodireitista, se juntasse a qualquer um dos três principais candidatos da oposição nas próximas eleições? Uma dobradinha Duílio-João Daniel, Celso Russomanno-João Daniel ou Brandão-João Daniel venderia ao eleitorado uma fusão administrativa e ideológica que não faria jus à memória de Celso Daniel.


 


Por isso, Miriam Daniel-João Avamileno, ou João Avamileno-Miriam Daniel, se apresenta como melhor saída estratégica para o PT de Santo André não deixar escapar pelo ralo do descuido tudo o que Celso Daniel representou de sucesso eleitoral e administrativo. O histórico do triprefeito em Santo André e no Grande ABC e a forma com que foi covardemente abatido o mitificaram a ponto de, mesmo bombardeado ingenuamente pelo irmão João Daniel, continuar muito acima das idiossincrasias políticas que se cristalizaram em Santo André neste ano.


 


Como discretíssima militante e executiva do Partido dos Trabalhadores, Miriam Daniel provavelmente não se recusaria a reforçar o time do partido nas próximas eleições municipais. Não parece ajuizado, sob o ponto de vista de centro-esquerda e de compromissos históricos de Celso Daniel, que a logomarca da família seja solenemente utilizada pela centro-direita.


 


Versões múltiplas


 


Nada é definitivo nas análises político-eleitorais. Como no futebol, o passado tem mostrado que o que parece redondo hoje, em quadrado se transforma amanhã. Por isso que se multiplicam versões, sugestões, possibilidades, indagações, restrições, senões e tudo o mais quando o alvo são eleições. O caso específico da candidatura de João Avamileno à Prefeitura de Santo André, de que estamos tratando ultimamente por força de informações ramificadas no Paço Municipal, tem mais desdobramentos além daqueles aos quais nos detivemos nos últimos dias.


 


Responda, responda rápido, caro leitor: o sindicalista João Avamileno, de linha moderada, conseguirá sensibilizar as camadas mais conservadoras da classe média de uma Santo André que em três das últimas quatro eleições municipais aprendeu a votar em Celso Daniel, um centro-esquerdista de ligações menos evidentes com os núcleos sindicais mas que se orgulhava de botar a estrela vermelha no peito?


 


É esta a questão básica que se coloca na mesa de debates internos do PT sobre a viabilidade de João Avamileno. Pesquisas qualitativas e quantitativas deverão ser realizadas para diagnosticar o tamanho do apoio e também de restrições ao petista, tendo em vista que ele enfrentará coalização centro-direitista, formada por Duílio Pisaneschi, Newton Brandão e Celso Russomanno. Além, evidentemente, de outros pequenos partidos ou candidatos sem lastro econômico nem social para lhe fazer frente diretamente.


 


Dependência ou não?


 


Talvez as eleições ao governo do Estado e à Presidência da República contribuam imensamente, antes do pleito municipal, para lançar luzes sobre as reais possibilidades de João Avamileno, independentemente do desempenho como sucessor de Celso Daniel. Como será a performance dos petistas com perfil semelhante ao de João Avamileno -- isto é, saídos das bases sindicais -- nas próximas eleições em Santo André?


 


Principalmente os votos que se destinarão a Luiz Inácio Lula da Silva, sindicalista controverso inclusive no Grande ABC, determinarão os fachos de luminosidade que poderão auxiliar os mentores da candidatura de João Avamileno ao Paço em 2004. Parece razoável admitir que quem votar em Lula para presidente em Santo André neste ano poderá votar em João Avamileno em 2004. Seriam eleitores despidos de preconceito ao sindicalismo que tanto Lula quanto Avamileno representam.


 


O livro "Eleições no ABC", organizado e publicado por Carlos Laranjeira, jornalista que se debruça nas questões políticas da região, expõe números de Lula como candidato à Presidência da República nas três oportunidades em que colecionou derrotas. Em 1989, no primeiro turno, Lula obteve o primeiro lugar em Santo André com 132.464 votos, contra 77.708 de Mário Covas, 77.7098 de Paulo Maluf e 52.769 de Guilherme Afif Domingos. Foram 22 candidatos no primeiro turno. No segundo turno, Lula voltou a vencer, com 214.821 votos, contra 143.525 de Collor. Em 1994, Lula superou Fernando Henrique Cardoso com 162.136 contra 135.555 em turno único. Na soma de todos os candidatos, os 188.554 votos superam os obtidos por Lula. Em 1998, também em turno único, Lula atingiu 162.080 votos, contra 162.996 de Fernando Henrique e outros 32.374 dos demais concorrentes.


 


Conclusão: se depender do humor dos eleitores, manifestado nas três últimas eleições presidenciais, o Partido dos Trabalhadores teria dificuldades em Santo André, depois que perdeu sua grande estrela regional que, como todos sabem, estava acima do próprio partido. Os números da próxima eleição presidencial vão ser providenciais, na medida em que colocarão à apreciação dos estudiosos e dos curiosos políticos um retrato sobre o impacto provocado pela morte de Celso Daniel e também das denúncias espetaculosas de supostas propinas no Paço Municipal.


 


E as adversidades?


 


O fato -- e essa é uma verdade que o PT não pode desconsiderar -- é que a grande preocupação do partido situacionista em Santo André com vistas às próximas eleições municipais é conseguir superar duas adversidades conjugadas, determinadas pelos acontecimentos deste ano: encontrar o candidato que mais se aproxime do eleitorado legado por Celso Daniel e conter o ímpeto destrutivista dos opositores, reconhecidamente muito bem abastecidos de armas de grosso calibre. O desempenho de João Avamileno não pode descolar da herança administrativa e filosófica do melhor prefeito regional que já passou pelo Grande ABC se o atual ocupante do Paço Municipal pretender amealhar também votos mais moderados.


 


Por isso, a contenção do dique da Agência de Desenvolvimento Econômico explodido pelas representações empresariais rebeldes é simbolicamente provável divisor de águas que caracterizará Avamileno como efetivo sucessor eleitoral de Celso Daniel ou como um aprendiz de regionalidade que não passou pela sabatina das idiossincrasias que o prefeito assassinado soube superar.


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