Administração Pública

Vale transformado
num imenso verde

RICARDO DITCHUN - 05/05/1999

A resposta do arquiteto e urbanista espanhol Joan Busquets para o Eixo Tamanduatehy é transformar o vale do rio em um parque linear cuja paisagem será dominada pelo verde. Mais que uma cor ou uma idéia simpática, isso significa um sistema capaz de criar imagem marcante para Santo André. Busquets resume a proposta como verde ativo, algo que, antes de mais nada, sugere a articulação de diferentes usos no espaço.  De acordo com o urbanista, a formação de um tapete verde sobre o vale é componente fundamental de todo o projeto.

A incorporação e a manutenção rigorosa dessa premissa definem regras de atuação para toda a região: "Com isso, a cidade terá garantida toda série de atuações referenciais, ainda que, mais tarde, possam ser estabelecidos programas com conteúdos diferentes. O desenvolvimento poderá ocorrer por setores, como em um mosaico, com áreas abrigando maiores e menores densidades".

Partindo de exemplos de intervenções realizadas em escalas semelhantes em outras cidades (Roterdã, Barcelona e Buenos Aires, por exemplo), Busquets definiu método que cria situações de cenários plausíveis para o vale do Rio Tamanduateí. Graças a esse processo, torna-se possível supor quais seriam os impactos produzidos e os instrumentos urbanísticos de gestão mais adequados. Além disso, o urbanista levou em consideração aspectos concretos da história do desenvolvimento da cidade. Ou seja, seu passado industrial que se converte, hoje, em um mosaico de pequena indústria, serviços, comércio e residências. No entender de Busquets, essa situação é repleta de novas alternativas para a reorganização espacial. 

Extensão do metrô

O Eixo Tamanduatehy, apesar da aparente situação de caos, degradação e extensas áreas desocupadas -- ou ocupadas por favelas --, é, para Busquets, palco de condição potencial privilegiada. Segundo ele, o maior trunfo da região é dado pela via férrea e pela rede viária que corre ao lado. A leitura imediata do especialista é a possibilidade de se constituir novo corredor de serviço metropolitano, bem como a ampliação da área servida pelo metrô paulistano. A integração viária, melhoradas as condições das avenidas dos Estados e Industrial, se completaria com acessos a Santo André por meio de Mauá, São Bernardo e Diadema.  Para o eixo propriamente dito, Busquets projetou simbiose entre corredores viários e áreas verdes. O objetivo, em última análise, é integrar os dois lados da cidade, separados pela via férrea e pelo Rio Tamanduateí.

A Avenida dos Estados, de acordo com o urbanista, pelo fato de correr em paralelo à estrada de ferro e ao rio, deve atuar como eixo viário capaz de entrelaçar tramas transversais que têm por objetivo a união dos dois lados de Santo André. As novas morfologias que serão desenhadas no interior do eixo principal podem, segundo Busquets, se desenvolver sob a forma de retículas, em espinha e na transversal. "A idéia é formar um tapete que vai se modelando ao longo do vale" -- afirma. O requisito mais evidente dessa proposta é a recuperação do transporte ferroviário, contendo, inclusive, o prolongamento do metrô e, ao lado, nova estrutura viária. Isso confere ao eixo, também, clara função de corredor para o transporte público, mas absolutamente integrado à paisagem.

Ao mesmo tempo, e por meio de projeto urbanístico organizado por novas ruas e avenidas, Busquets propõe a integração entre bairros, tendo o tapete verde como sistema estrutural.  O Eixo Tamanduatehy, assim, conteria todas as condições necessárias para se constituir em alternativa de novo centro metropolitano. A idéia também contribui para o aumento da segurança pública. "A presença constante de pessoas nos lugares é a melhor solução para coibir a prática de condutas anti-sociais" -- diz. Outro ponto destacado pelo urbanista a respeito do projeto é o fato de contemplar característica cada vez mais cara aos empresários modernos: qualidade de vida e ambiental. "Lugares de trabalho mais confortáveis são, hoje, peças fundamentais da produção de riquezas" -- conclui. 

Estrutura geográfica

As propostas de Joan Busquets e equipe para o Eixo Tamanduatehy estão intimamente relacionadas com a estrutura geográfica dessa região de Santo André. Apesar da ressalva, é possível lembrar situações reais da simbiose entre áreas verdes e corredores viários sugerida pelo urbanista. A trama verde dos bosques do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e alguns dos canais que cortam a cidade de Santos, no Litoral paulista, exemplificam preocupação em obter qualidade estética em soluções urbanísticas de grande porte.

Nas alamedas do parque paulistano, as árvores, além de conforto ambiental, garantem efeito de grande transparência transversal.  Esse resultado, segundo Busquets, poderia ser obtido no corredor andreense ao longo da Avenida dos Estados, seja nas laterais das duas vias ou em caminhos que poderiam ser criados nas margens do Rio Tamanduateí. O processo poderia ser repetido nas margens dos muitos córregos em sentido transversal existentes no vale do rio.

O exemplo santista -- trata-se de braço do Canal 1 visto no trecho que atravessa o Orquidário Municipal -- contém boa parte dos benefícios listados pelo urbanista: conforto térmico, acústico e visual. Essas características, de acordo com Busquets, podem ser reproduzidas ao longo de todo o vale do Tamanduateí.

O objetivo é a obtenção de sistema linear de parques, mas com potencial de desenvolvimento em etapas, de acordo com os seguintes núcleos temáticos ressaltados pelo urbanista: ponto de articulação viária (divisa com Mauá), ponto de integração das atividades de transporte intermodal (área central, região da estação ferroviária e do terminal de ônibus), ponto de atividades cívicas e culturais (área do Moinho São Jorge) e ponto de atividades econômicas produtivas e culturais relacionadas com o ensino de Terceiro Grau (área da Estação de Utinga, aproveitando o núcleo de implantação universitária já em andamento no local).  O desenvolvimento de um grande tapete verde -- e eficiência de transporte intermodal -- é, para Busquets, a garantia para a criação de nova centralidade ao longo do Eixo Tamanduatehy.



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