Administração Pública

Secretário de Paulinho Serra
só atrapalha Paulinho Serra

DANIEL LIMA - 15/03/2023

Se houvesse uma Bolsa de Valores Individuais de Agentes Públicos do Grande ABC (essa é uma boa ideia, não é mesmo?), o secretário de Planejamento Estratégico de Santo André teria como déficit um caminhão de prestigio e respeitabilidade por conta da entrevista de segunda-feira ao Diário do Grande ABC.  

Pior que isso: acabou contaminando o prefeito Paulinho Serra e, por extensão, as atividades de gente mais qualificada da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.  

(O que o secretário disse ao Diário do Grande ABC, guardadas as devidas proporções, equivale à mistificação de que a Operação Lava Jato foi uma ação vingativa destinada a criminalizar o governo de um santo homem público). 

Acácio Miranda da Silva Filho seria reprovado num exame de vestibular sobre a regionalidade do Grande ABC porque não tem preparo básico do ponto de vista do espaço em que atua para conquistar admiradores e seguidores.  

Mais que isso: vivesse numa sociedade minimamente organizada o resultado de sua declaração mais embaraçosa seria alvo de redes sociais indignadas.  

Acácio Miranda teria como castigo a obrigação de começar a soletrar as letras do alfabeto de integração regional e de, no caso, de competitividade econômica, para, aí sim, começar a sonhar com algum cargo de influência nos destinos de Santo André e da região. 

(O que disse o secretário municipal ao Diário do Grande ABC, guardadas as devidas proporções,  equivale ao negacionismo do presidente Jair Bolsonaro quanto aos riscos inerentes do Coronavírus).  

Acácio Miranda pode e até deve ser competente em alguma coisa que não se explicitou nas respostas ao Diário do Grande ABC.  

Não é possível que o prefeito Paulinho Serra tenha escolhido alguém sem aferir qualificações. Possivelmente Acácio virou secretário de Planejamento Estratégico porque talvez era o que se dispunha no momento.  

Anteriormente, Acácio Miranda, que já foi administrador regional do Bairro Pinheiros, em São Paulo, também ocupou o cargo de secretário-executivo do Clube dos Prefeitos. Sempre com o apontamento do prefeito Paulinho Serra que, por sua vez, deu resposta positiva à demanda de um dos integrantes do agrupamento que ocupa espaços no Paço de Santo André, no caso o agora secretário estadual paulista, Gilberto Kassab.  

Antes de ingressar especificamente na questão em que Acácio Miranda se afundou como secretário de Planejamento Estratégico,  convém lembrar que a entrevista publicada no Diário do Grande ABC era mamão com açúcar. Nenhuma pergunta indesejada se pôs à mesa. Nada vezes nada. Tudo levantamento de bola para gol de placa. 

(O que disse o secretário de Santo André poderia ser alçado, guardadas as devidas proporções metafóricas, à nomeação do Recruta Zero para comandar um batalhão do Exército).  

Agora vamos ao ponto em que, ao ler a entrevista de segunda-feira, fui obrigado a dar uma parada técnica, respirar profundamente, sublinhar cada palavra e, aí sim, retomar o trabalho. Foi de lascar ler o que li.  Vou reproduzir a pergunta e a resposta do secretário. Em seguida, exponho o vexame. 

Diário – Em relação ao Projeto 500 Anos, como está a situação? 

Acácio – Santo André 500 Anos é um projeto prioritário do governo porque ele estabelece diretrizes para o futuro da cidade. Santo André sempre foi uma região importante em termos de planejamento urbanístico. O prefeito Paulo Serra resgatou essa referência. E no Santo André 500 Anos, ele pretende estabelecer diretrizes para o futuro da cidade, não só diretrizes urbanísticas, mas também ambientais. Afinal, a nossa geração e as futuras gerações têm uma obrigação com as questões ambientais e nós temos essa preocupação em Santo André. Diretrizes sociais porque de nada adianta termos uma expansão urbana se os aspectos não forem trabalhados. E também diretrizes de desenvolvimento econômico. O futuro da cidade passa por nós estabelecermos diretrizes relacionadas à vocação do nosso município, inclusive sendo Santo André uma cidade vinculada à produção tecnológica, diretrizes voltadas à questão logística. Afinal de contas, estamos na melhor esquina do Brasil. Entre o maior aeroporto da América Latina e o maior porto da América Latina. Então, todas essas diretrizes são pensadas no Santo André 500 Anos – disse o secretário. 

Faça as contas  porque não tenho paciência: quantas vezes o secretário repete a palavra “diretrizes” não como estilo de oratória, mas como falta de recursos técnicos  mesmo. Mas isso é de menos e não importa.  

Como resolvi contar, foram oito vezes que “diretrizes” virou pau para toda obra. Não vou estender a contagem à entrevista integral porque seria demais. 

O que choca é o que diz Acácio Miranda na reta de chegada da corrida contra o relógio de paciência e de coerência, ao se referir especificamente sobre a logística de Santo André, apontando Cumbica e o Porto de Santos como parceiros extraordinários de uma competividade econômica fora de qualquer questionamento. 

(O que disse o secretário de Santo André, guardadas as devidas proporções, é que nestas alturas do campeonato o São Paulo vai decidir o título paulista e o Palmeiras foi eliminado pelo Água Santa). 

Essa história de proximidade geográfica com Santos e Cumbica há muito virou conversa mole de desinformação para boi dormir de inanição de investimentos.  

Santo André (e São Caetano) são os municípios mais deficitários e comprometidos com o fator logístico.  

A Avenida dos Estados há dezenas de anos perdeu conexão com fatores de produção e principalmente de produtividade, que também significa competitividade. 

Virou uma avenida contraproducente à dimensão produtiva. Mal e porcamente serve para a segunda etapa de atendimento logístico, a chamada milha final, da qual participam pequenos veículos. Nada que tenha relação direta com acessibilidade à indústria de transformação. 

(O que disse o secretário de Paulinho Serra equivale, guardadas as devidas proporções, é que o supremo togado Alexandre de Moraes deu seguidos exemplos de imparcialidade durante o processo eleitoral do ano passado).  

Repetindo: se tem um endereço na região que se perdeu no tempo como uso de espaço de transporte para finalidade de atendimento à produção e distribuição de bens, essa cidade é Santo André. Juntamente com São Caetano.  

Não à toa são os dois endereços no Estado de São Paulo que mais perderam fábricas ao longo de décadas.  

Santo André saiu da condição de Viveiro Industrial avocada no Hino Oficial para Viveiro de Serviços de baixa capacidade tecnológica. Não à toa Santo André despencou no ranking de PIB per capita no Estado. Ocupava em 2020 a posição 168. Deve cair mais nos próximos anos porque a fila de competitividade anda e gera riqueza.   

(O que disse o secretário estratégico da Administração de Paulinho Serra, guardadas as devidas proporções, é que descobriram um componente químico que, pulverizado na Amazônia, todos os problemas de queimadas estariam resolvidos).  

Para completar a destruição de uma fajutice informativa que compromete qualquer iniciativa de recomposição do tecido econômico de Santo André (inclusive gestado no interior da própria administração de Paulinho Serra, com a equipe de Desenvolvimento Econômico bastante ativa e numa ação de incorporar tecnologia de verdade às relações comerciais), Acácio Miranda chega à façanha de trazer para Santo André um marketing de pé quebrado que o então governador Geraldo Alckmin destilou ao se referir ao trecho sul do Rodoanel, considerando-o vital à economia de São Bernardo, por se tratar, anedota das anedotas, da melhor esquina do Brasil.  

Acompanho como ninguém e há muito tempo as macrotranformações geradas pós-inauguração do trecho Oeste do Rodoanel (Grande Oeste, com Osasco, Barueri e outros cinco municípios) e também do trecho sul, que envolve as cidades do Grande ABC.  

Tínhamos uma vantagem extraordinária na produção de riqueza em forma de PIB, mas fomos ultrapassados já há muito tempo e hoje a diferença é brutal.  

Tudo porque, e já cansei de escrever sobre isso, o trecho sul do Rodoanel praticamente sacramentou uma vantagem competitiva que o Grande Oeste, de Barueri e Osasco, contava com muita facilidade.  

Bastam essas informações para remeter as declarações do secretário Acácio Miranda ao acostamento de credibilidade.  

(Guardadas as devidas proporções, as declarações do secretário remetem à mentira bem elaborada de que o Consórcio de Imprensa, a Velha Imprensa, está mesmo desfeito, quando se registra todos os dias tratamento semelhante a todas as questões, agora de apoio suportável e muitas vezes constrangedor, quanto não omisso, ao presidente de plantão). 

Fico a imaginar o quanto estaria preparando de surpresas o executivo morador de Santo André mas sem intimidade alguma com a região tendo-se como referência o absoluto desconhecimento do que se passa no cotidiano das pessoas e das empresas que sabem de cor e salteado que Santo André é uma parafernália de logística interna típica de endereço municipal maltratado no passado.  

Se de fato Santo André houvesse se organizado com olhos no futuro, não haveria tanta perda de tempo no trânsito e não necessariamente apenas no horário de pico.  

Vou deixar para outra oportunidade alguns aspectos da entrevista, especialmente o Projeto 500 Anos. Trata-se de um rearranjo do projeto deixado por Celso Daniel, a Santo André de 2020, sob bases apropriadas àquela situação.  

O populismo latente do Projeto 500 Dias em forma de consultas populares, como explicitou o secretário Acácio Miranda, é uma forma de politizar uma questão eminentemente técnica, sobre a qual vários profissionais da Secretaria de Desenvolvimento Econômico estão debruçados. 

É claro que o público deve ser ouvido, mas ser ouvido sem conexão com o conjunto da obra dos movimentos da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, como se observa, não é o caminho que resultaria em resultados agregadores.



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