Política

Corrupção pode definir rumo
das eleições em Santo André

DANIEL LIMA - 14/08/2023

Todas as alternativas razoavelmente ajuizadas colocam a sucessão eleitoral em Santo André como favas contadas. Poucos divergiriam quanto à manutenção do amplo conglomerado de apoiadores e cogestores da Administração do prefeito Paulinho Serra.  

Não haveria nada no horizonte que indicaria o contrário. Principalmente diante de uma ação de bastidores que se avoluma e que procura tirar da disputa o ex-prefeito petista Carlos Grana. 

Petistas mandachuvas de Santo André não querem correr risco de dar suporte a Carlos Grana. Preferem a garantia de continuar no barco da atual Administração. PT e PSDB em Santo André estão juntos e misturados antes mesmo de Paulinho Serra, tucano, vencer Carlos Grana nas eleições de 2016.  

O barco petista estava afundando por conta do desastre chamado Dilma Rousseff. Os petistas de Santo André foram rápidos no gatilho. Juntaram-se a Paulinho Serra, então secretário petista. A disputa foi uma formalidade. Dilma Rousseff arrasou o PT naquela temporada. Levou a região à maior recessão de todos os tempos. No ambiente federal, sofreu impeachment. 

PEDRA NO CAMINHO  

Mas há uma pedra no caminho da supremacia da Administração Paulinho Serra nas eleições do ano que vem sobre a qual cautela e caldo de galinha de ponderações não fariam mal algum.  

O favoritismo dos atuais ocupantes do Paço Municipal estaria dependendo de possíveis estragos provocados pelo ambiente de criminalidade administrativa até outro dia muito especulado nos bastidores, mas sem comprovação documental.  

O relatório-denúncia da Controladoria-Geral da União,  que dá conta de desvios milionários em Santo André durante o período de combate da pandemia da Covid-19, instala um grande ponto de interrogação onde só existia exclamação e convergência a uma espécie de jogo eleitoral amistoso.  

Nesse jogo, o PT participaria por participar e reservaria recursos financeiros para aplicar em São Bernardo, onde pretende tomar o poder do tucano Orlando Morando. Tudo ou quase tudo que o leitor lê na região de caça ao escalpo da gestão de Orlando Morando tem conexão com o poderio econômico do Município. Não se trata de regionalidade.  

PREFEITO-FANTOCHE?  

Dado que não se trata de especulação, mas de portentosa constatação documental de que a Administração de Paulinho Serra está envolvida em falcatruas com dinheiros federais, o que pode ocorrer diante de natural fragilidade do peso de decisão compartilhada que a gestão do tucano comporta? 

Seria Paulinho Serra um prefeito politicamente fantoche, para não dizer sequestrado, a partir desse caso de crime administrativo e diante de eventuais novos problemas que emergem nos bastidores ainda em forma de ameaças de denúncias? 

A pergunta tem toda a razão de ser feita e precisa ser feita por mais que aqueles que não queiram que seja feita esperneiem.  

Não há notícia no mundo da política que não ganhe conotações de enfraquecimento de quem está no poder quando o poder é abalado por irregularidades que ultrapassam o terreno de idiossincrasias.  

RELATÓRIO ARRASADOR 

Especular sobre corrupção nestes tempos de exageros e mídias viciadas por interesses nem sempre nobres é uma coisa. Argumentar com base em provas contundentes, é muito diferente.  

O caso de corrupção durante a Covid com dinheiro federal utilizado pela Prefeitura de Santo André diretamente da Central de Compras da Fundação do ABC não é intriga política.  

O relatório da CGU evidencia os desvios que, em resposta, a Prefeitura só os tornou verdadeiros e fundamentados.  

Resta saber o que ocorrerá com o relatório no ambiente criminal. E é nesse ponto que a Administração Paulinho Serra corre riscos. 

Ou seja: a Administração Paulinho Serra está metida em complicações que tanto podem ser mitigadas quando não abafadas, como as foram até recentemente. Mas a Administração de Paulinho Serra também poderá pagar um preço alto no caso de uma orquestração com faca no pescoço que visaria descartar todas as ameaças judiciais em nome da unidade do grupo de comando do Paço Municipal.   

RELAÇÕES FORTES  

É preciso contextualizar o controle do Poder Público municipal em Santo André. Paulinho Serra é um prefeito que integra uma associação de políticos e empresários com influência local, mas também está próxima de forças políticas estaduais e federais.  

Basta lembrar que é tesoureiro nacional do PSDB, partido em franca degringolada no Estado de São Paulo, onde perdeu o comando do Palácio dos Bandeirantes após três décadas. 

Paulinho Serra incrementou na Prefeitura de Santo André o que poderia ser chamado de sistema ecumênico de controle político centralizado em representantes de vários partidos. Especialmente do PT, do qual foi secretário de Mobilidade Urbana durante a gestão do prefeito Carlos Grana, a quem sucedeu em seguida, já contando – repetindo --  com o apoio de vários petistas da cúpula municipal. Especialmente Leandro Petrim, considerado o principal catalizador das relações entre tucanos e petistas no ambiente regional e federal. 

TRÊS CENÁRIOS 

Nos últimos anos, Paulinho Serra caiu nos braços políticos coordenados especialmente por Gilberto Kassab e Valdemar Costa Neto, comandantes do PSD e do PL.  

Há pelo menos três alternativas naturais que balizariam as eleições para prefeito em Santo André no ano que vem, considerando-se o cenário atual sem leva      r em conta o vetor corrupção. Em todas as alternativas, o favoritismo à manutenção do grupo do qual Paulinho Serra é o mais provável. 

Candidato à sucessão ligado historicamente ao PT de Santo André, parceiro da jornada da gestão de Paulinho Serra. 

Candidato à sucessão local com suporte do governador Tarcísio de Freitas. 

Candidato à sucessão sem histórico local, mas sustentado por caciques políticos do Estado numa costura com o governo federal.  

Se fosse exercitar todas as possibilidades que a ausência de centralidade de mando e a expansão de participação de influenciadores recomendariam diante do caso do Coronavírus, provavelmente construiria mais meia dúzia de cenários. Por isso, ficamos nos mais viáveis sem levar em conta o relatório da CGU. 

Entretanto, porém e todavia, antes de um breve resumo, volto à questão: tudo isso que está aí pode vir água abaixo se uma lupa de relativo preciosismo de forças judiciais colocar Santo André na agenda.  

Bastaria o que já está no relatório da Controladoria-Geral da União sobre os desvios milionários de dinheiro federal em Santo André durante a pandemia para que um escândalo de repercussão eleitoral dilacerador viesse à superfície.   

CENÁRIO UM -- Candidato à sucessão ligado historicamente ao PT de Santo André, parceiro da jornada da gestão de Paulinho Serra.  

Nomes não faltam no mercado de especulação, alguns lançados para desviar a atenção, outros para dar visibilidade à disputa por uma vaga no Legislativo. O mais cotado como fiador de relações seguras e confiáveis entre Paulinho Serra e as forças políticas e empresariais que o cercam é o especialista em Direito Eleitoral Leandro Petrim.  Petista de carteirinha, Petrim é discreto, pouco afável ao público, até supostamente arrogante, mas nada disso o impediria de concorrer e vencer simplesmente porque não haveria oposição consistente em Santo André. Ele condensaria a fusão do tucanato e do petismo que há muito está cristalizada em Santo André. São farinhas do mesmo pilão.  

CENÁRIO DOIS -- Candidato à sucessão local com suporte do governador Tarcísio de Freitas.  

Essa formulação é improvável, mas não pode ser descartada porque contemplaria também a introdução de um tucano ou um petista na composição da chapa. O candidato seria o vice-prefeito Luiz Zacarias, do PL, permanentemente ao lado do prefeito Paulinho Serra em inaugurações e outros eventos públicos. Há tentativas de aproximação com o governador do Estado, mas faltam elementos que convençam Tarcísio de Freitas de que não estaria se metendo em uma arapuca. É baixa, portanto, a viabilidade dessa alternativa. Mas em política não se descarta nem o seguramente descartável.   

CENÁRIO TRÊS -- Candidato à sucessão sem histórico local, mas sustentado por caciques políticos do Estado numa costura com o governo federal.   

Essa é uma configuração que demarcaria com mais precisão a fragilidade do grupo local de Paulinho Serra diante de intempéries criminais que poderiam desdobrar-se do caso da pandemia do Coronavírus. Nesse ponto, o respaldo político-partidário de caciques políticos estaduais e federais próximos da gestão de Paulinho Serra seria acionado para evitar estardalhaços que pudessem incendiar a gestão do tucano. Como haveria a possibilidade de uma coisa (os crimes cometidos durante a pandemia) multiplicar-se em outras coisas (supostas irregularidades em outras atividades) e, com isso, toda a estrutura de governo sofrer as consequências de investigações judiciais, nada seria mais prudente que buscar o anteparo de generais políticos bem relacionados na estrutura de poderes estaduais e federais. Há alguns nomes especulados como apropriados à formalização de acordo. Quem parece ganhar mais espaço seria o secretário de Planejamento Acácio Miranda, ex-subprefeito de Pinheiros, na Capital. 



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