Política

Veja o que o Conselheiro
Especial diz a Paulinho

DANIEL LIMA - 15/02/2024

Se tivesse aceitado o convite de Paulinho Serra para ser seu Conselheiro Especial, possivelmente o prefeito de Santo André não responderia como respondeu à entrevista amistosa ao jornal Repórter Diário.  E se respondesse como respondeu, prepararia breve relatório crítico. Um relatório com várias recomendações.

Veja o aconselhamento que entregaria ao prefeito de Santo André para justificar meu salário. Um salário bem mais honesto do que recebem alguns pistoleiros de aluguel nas redes sociais e também no chamado jornalismo profissional.

RELATÓRIO AO PREFEITO 

Caro prefeito, o senhor sabe que o combinado não é caro, por isso é indispensável na prática. Queria ter uma conversa pessoal sobre o que o senhor disse na entrevista para os nossos amigos do Repórter Diário. Mas acho que esse breve relatório será mais interessante. Sempre defendo que botar no papel é uma coisa, verbalizar é outra. Botar no papel é memorizar, é criar compromissos, é uma cultura de saber insubstituível. Mas vamos ao que interessa.

É possível controlar eventuais bobagens que a gente fala aos nossos amigos da mídia quando as entrevistas não são gravadas em imagens. No papel, na troca de mensagens, a gente redobra a atenção às armadilhas que muitas vezes nós mesmos criamos.

Num audiovisual nem tudo que é combinado é cumprido. Não que o pessoal do Repórter Diário tenha sido desleal. Nada disso. Eles cumpriram exatamente o figurino de boa-vizinhança. O problema está no que o senhor disse.

EUFORIA DEMAIS

Sei lá se estou enganado, mas o sinto meio eufórico demais nesta última temporada de votos indiretos a que o senhor concorre e também na temporada de decisões pelo comando do PSDB. Talvez essa euforia mascare um sentimento mais preocupante. O senhor pode estar muito preocupado com o andar da carruagem política e para disfarçar a preocupação parte para o voluntarismo oral, fora das quatro linhas de comedimento. Acho que deveria pensar sobre isso.

Como o senhor sabe, quando decidi atender a seu pedido para o cargo de Conselheiro Especial, não abri mão de minhas prerrogativas profissionais, que seriam colocadas a serviço de Santo André. E no interior dessas prerrogativas o senhor sabe que fiz questão de frisar que acima de votos, de boa imagem, de tudo isso, atuaria sim como conselheiro, mas não como marqueteiro. Até porque, marqueteiro é que não falta aqui no Paço Municipal. Tem os especialistas e tem os palpiteiros. Os segundos entendem de tudo.

Posto isso e para não esticar a conversa, como seu Conselheiro Especial, começo dizendo que não ficou bem o senhor bater no peito, avocar familiares e tudo o mais para dizer alto e bom tom que todos são andreense, nascidos todos de sua família em Santo André. Só faltou dizer que também os cachorros e os gatos são andreenses.

Pega mal, prefeito. Quem não é nascido em Santo André, ama Santo André e em muitos casos são mais cidadãos, se sentiram ofendidos. Competência e compromisso com Santo André não são atributos compulsórios de quem nasceu em Santo André. O senhor sabe tanto quanto eu que não nasci em Santo André. Vim do Interior de São Paulo na carroceria de um caminhão. Me deram o título de Cidadão Honorário de Santo André há mais de 20 anos, mas nem por ser um andreense postiço me sinto melhor do que qualquer andreense por acidente, ou inferior aos supostos puros-sangues.

CELSO DANIEL

Então ficamos assim, prefeito: não fale mais isso a ninguém, Muito menos numa entrevista.  Se o outro lado, do entrevistador, estivesse pronto para uma estilingada, ele poderia fazer um contraponto implacável. Bastaria questionar, então, supondo que o senhor não encontrasse palavras para rejeitar o xenofobismo exposto, a razão de ter trazido para Santo André gente que não é de Santo André. E de escalar secretários que também não têm berço familiar em Santo André.

Outra coisa, prefeito. Não sei quem enfiou na sua cabeça que o Celso Daniel “fez algumas coisas” em Santo André. Queria descobrir quem é esse mau-conselheiro. Celso Daniel, e você sabe muito bem, aliás, porque assim sempre se expressou, é um ponto fora da curva na Administração Pública da região. Não fosse especificamente nos três mandatos como prefeito, de sobra como o homem da regionalidade que ele implantou e que sem ele praticamente se foi.

Diminuir a imagem e o legado de Celso Daniel de forma explícita ou subjetivamente, enfiando-lhe uma corda no pescoço por causa de alguns programas supostamente mal-ajambrado, como o plantio de árvores, ou mesmo a questão dos precatórios, como o senhor insinuou, não fica bem. É retirar um debate do alto da prateleira de intelectualidade e enfiá-lo em botequim de quinta categoria.

ESPELHO, ESPELHO MEU

Relativizar Celso Daniel da forma que o senhor relativizou é um pecado capital. O homem que criou o Clube dos Prefeitos, a Câmara Regional, a Agência de Desenvolvimento Econômico e que, também, como prefeito, desenhou a Santo André do futuro que não existe porque quem o sucedeu não deu conta do recado, inclusive o senhor, relativizar tudo isso, prefeito, é um erro crasso. Celso Daniel sempre foi seu referencial. Não se deixe deslumbrar. Não o apedreje. O senhor sabe que ao olhar no espelho pretendendo substituir Celso Daniel que tanto admirava não significa que o senhor seria um Celso Daniel nessa disputa contraditória que a psicanálise explica.

Quer sabe mais, prefeito? Para de jogar os problemas financeiros de Santo André nas costas do Celso Daniel e da montanha de precatórios. Essa conversa ainda pega e se propaga entre os ignorantes, mas, como o senhor sabe, não estou aqui para bajular ninguém. Os precatórios foram substancialmente minimizados, e o senhor sabe disso, com a concessão do Semasa, aquele antro de corrupção e desperdício de dinheiro público.

Aliás, o senhor fez muito bem ao decidir o que decidiu, mas, como o senhor sabe também, e já lhe disse várias vezes, a operação foi positiva, embora sem a transparência que o senhor sabe não abro mão. Minha veia jornalística é indomável.

VENDENDO ILUSÃO

Também volto a fazer reparo à mania que o senhor tem de ficar vendendo ilusão de que os sete anos de dois mandatos foram frutíferos no campo de Desenvolvimento Econômico. Nada disso, bem sabe o senhor. Temos problemas crônicos que não foram superados.

A responsabilidade do senhor no Desenvolvimento Econômico é proporcional ao tempo em que está como prefeito. O senhor pegou uma bomba. Não sou ingênuo a ponto de sugerir que o senhor declare aos ouvintes e telespectadores que fracassou numa proposta que de fato nem foi levada a cabo, senão alguns fragmentos do conceito desenvolvimentista. Claro que o senhor não deveria dizer que tem uma bomba nas mãos. Daí a dizer que tem uma caixa de sonhos de valsa para consumir é outra coisa. E o senhor tem dito isso à exaustão. Não o aconselho a seguir nessa toada triunfalista.

Vou insistir nessa pauta de Desenvolvimento Econômico, caro prefeito, porque não há como dar um nó na realidade. Estamos caindo cada vez mais no ranking estadual de PIB per capita. Estamos nos aproximando da posição 200. Só durante sua gestão caímos 39 posições. Nada dá para engolir essa conversa mole, se me permite a liberdade de expressão, de que estamos construindo soluções.

PARTE IMPORTANTE

Temos sim muitos paliativos. Perdemos mais e mais empregos industriais, ficamos em 13º lugar no ranking dos 20 maiores municípios do Estado no saldo de emprego formal do ano passado. E o senhor insiste em dizer o contrário.

Pare com isso, prefeito. Aliás, o senhor não está cumprindo o que acertamos como eixo de nosso relacionamento profissional. Não está seguindo a prioridade de fugir de fantasias. Assim não dá, prefeito.

Reconheço que nem toda a verdade tenha que ser dita, mas o senhor sabe que abomino a substituição da verdade pela mentira, ou por meias-verdades. Como o senhor faz quando a pauta é a Economia da cidade.

Gostei da parte de sua entrevista quando falou de questões sociais, de infraestrutura, mas o senhor exagerou na dose ao dizer que se houvesse combate às enchentes duas décadas atrás não haveria problemas com enchentes hoje. Aí é demais.

O senhor sabe que gestão pública não é bem assim. E que o déficit estrutural de Santo André é enorme e precisa necessariamente combinar com o orçamento. Claro que duas décadas atrás as prioridades eram outras. Hoje, as questões climáticas, como o senhor bem formulou, muda a rota e o ritmo dos recursos públicos.

Aliás, por falar nisso, o senhor fez bem ao lembrar participação na COP. Até aceito que o senhor tenha sonegado informações de que participou de uma mesa de debate, sem grande importância.

AÇÃO IMPORTANTE 

Estou puxando pela memória sobre mais alguns pontos que anotei de sua entrevista. Estava bicicletando ontem de manhã na minha ergométrica quando acompanhei sua entrevista. Foram 110 minutos de atenção às pedaladas, que não são fiscais, e o bate-papo com o entrevistador, menino educado, fino, colaborativo, do Reporter Diário.

Quero deixar bem claro ao senhor que não sou contra, muito pelo contrário, esse tipo de entrevista. É melhor entrevista combinada do que entrevista indigesta, mas o senhor tem de estar preparada para as duas modalidades. Responder aos primeiros e sacanear os segundos não é obra de homem publico que se preza.

Estou dizendo isso, caro prefeito, apenas como retórica, porque não vejo na praça ninguém que possa incomodá-lo. Eu seria o único, mas abri mão de escrever sobre Santo André depois que aceitei virar seu Conselheiro Especial.

Tudo em nome de uma causa justa: colaborar intestinamente com Santo André, a cidade que mais amo na região, principalmente porque Santo André tem o Santo André. As demais cidades da região, como já lhe disse, também estão no meu coração, não abro mão disso, mas não são a mesma coisa. Problema de Santo André porque a gente se preocupa mais com quem a gente mais se preocupa, não é verdade? 

TESE FURADA

Mas no fundo mesmo, cá entre nós, e não fique zangado comigo, acima de Santo André e de cada cidade da região o que amo mesmo, como um cidadão não nascido aqui, é a nossa regionalidade. Sou, modéstia à parte, o último dos moicanos. Há mais na praça, mas disposto a dar a cara para bater, não encontro outro. Talvez lhes falte oportunidade.

Insisto em lembrar que o senhor voltou a falar que Santo André liderou pelo segundo ano consecutivo o saldo de empregos formais na região. O senhor sabe que isso é bobagem. Não vou dizer que seja mentira porque o senhor tem a defesa da tese furada de que empregos se contam em números absolutos. Todo mundo com juízo na cabeça sabe que, como tantos outros indicadores, emprego se conta pelo estoque variável, porque as cidades têm dimensões diferentes.

A questão relativa ao que o senhor chama da Poupatempo da Saúde, implantado lá no Atrium Shopping, foi certeira, mas também deixou um buraco de informações que me incomoda.

Nada me convence até agora que a transferência de dezenas de clínicas àquele shopping falido foi bom para todo mundo. Se fosse, não precisaria instalar um terminal de ônibus para atender à demanda. Tirar o atendimento do Centro e levar para a periferia causa transtornos de transporte público à maior parcela dos usuários do sistema de saúde. E mais gastos pessoais.

Sei que seu secretário de Saúde precisa ser prestigiado e viabilizado como possível sucessor, mas há certas coisas que podem gerar insatisfação. Ainda bem que não temos oposição encardida. Já imaginou se instrumentalizam a mudança de local e provam que criamos esses problemas de ida e vinda de usuários? E que também visamos, cá entre nós, aproximar a Grande Vila Luzita do Poupatempo de Saúde, em detrimento de outras áreas do Município?

Mas isso, prefeito, fica entre nós. Também não quero ser visto como um inimigo íntimo. Era e poderei voltar a ser um contraditório fértil como jornalista.

COMANDO PARALELO

Teria mais coisas para lhe dizer nesse breve relatório, inclusive sobre as questões estaduais e nacionais do seu partido. Poderia dizer que o senhor às vezes dá a impressão de que pensa mais no pós-mandato do que nos últimos meses de mandato.

Poderia dizer também ao senhor tomar certo cuidado porque ficou quase que à mostra eventual pretensão de continuar como espécie de prefeito paralelo de Santo André após a vitória de seu candidato à sucessão.

Acho que uma dinastia de 30 anos, como o senhor pretende com seu grupo, e isso está escrachado no Projeto Santo André 500 ANOS, não pode ficar tão à vista. Não sei se o senhor sabe, mas vários planejamentos de longas jornadas à frente de uma Administração deram com os burros nágua. Não fica bem desafiar o tempo. Há imponderabilidades insuperáveis.

Aliás, o senhor deve saber disso. A turma do PT de Celso Daniel imaginava comandar a cidade pelos próximos 20 anos deste século, mas o prefeito morreu no começo de 2002. Coisas assim e tantas outras acontecem.

TIRO CERTEIRO

Por fim, sou obrigado a reconhecer que aos olhos comuns e mentes doutrinadas o senhor foi nota máxima na entrevista ao Repórter Diário. Afinal, continuou a vender uma Administração totalmente perfeita. O trocadilho Prefeito Perfeito se encaixa como uma luva no senhor.

Mas o senhor sabe que eticamente refuto essa constatação. Primeiro porque não é a expressão da verdade. O senhor é um prefeito imperfeito como todo prefeito imperfeito. Meu medo como seu Conselho Especial é que o senhor acredite tanto no marketing da perfeição que não decida ouvir ninguém mais. Me avise quando isso acontecer. Serei o primeiro a cair fora.

Saudações alvinegras, caro prefeito tricolino.



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