Política

TERÇO INDEPENDENTE
É UMA GRANDE LOROTA

DANIEL LIMA - 20/05/2026

Os institutos de pesquisa e os jornais divulgam que um terço do eleitorado brasileiro é integrado por uma turma febrilmente independente. Quero entender essa bagaça mas não há instituto de pesquisa que decifre essa bagaça. Dizer que um terço é independente é uma coisa meio indecorosa, Conversa mole de dissimulação para boi de esperteza dormir . Ou estou errado?

A menos de cinco meses das eleições presidenciais,  numa disputa em que nomes e sobrenomes mais que manjados são os favoritos como representantes da polaridade, como pode o terço insensível a tudo isso ser chamado de independente? E mais que isso: com potencial de, conforme a divisão desse mesmo termo, dar a vitória a um dos candidatos polarizados.

Um terço independente significaria que teríamos uma margem expressiva de eleitores que não se vergam à direita ou à esquerda porque sabem de cor e salteado para onde devem caminhar. Independência é isso. Teríamos, portanto, uma elite eleitoral esparramada por classes econômicas e variáveis de altíssimo grau de amadurecimento. Terço independente é isso.

Não é bem assim e por não ser bem assim essa turma do terço independente não pode mesmo ser chamada de independente coisa alguma.

INDEPENDENTE UMA OVA

Por entender que não existe terço independente, como sugerem os jornais e os institutos de pesquisa, não vou dizer que toda a parte do terço é formada apenas por covardes, quando não desinformados, quem sabe omissos, essas coisas depreciativas de verdade e sem sofisma. Gente que ante uma barcaça que afunda nas águas turbulentas de um translado, prefere assistir a tudo com passividade visceral sem se dar conta inclusive de que pode aumentar a estatística como vítima.

Terço independente uma ova, portanto. Pode até ser que exista uma fração do terço com tanta consciência democrática a ponto de recusar tomar qualquer partido para não se sentir cúmplice do que estaria posto. Outras situações também são plausíveis, mas, diante da irredutibilidade da polarização, não é mesmo possível acreditar que entre os dois polos de eleitores o terço recuse-se a definir que lado tomar.

Reuniria esse terço virtudes olímpicas que o colocariam muito acima da raia miúda de eleitores confessionais à direita e à esquerda e variáveis consideradas mais brandas?

DE TODOS OS TIPOS

O terço que os institutos de pesquisa e os jornais chamam de independente é mesmo e também integrado por indecisos por natureza ou safadeza. Afinal, diante de tantas opções postas à mesa, inclusive dos demais competidores menos extremistas, por assim dizer, não é razoável concluir que nenhum deles preencha a lista de compromissos que tanto esse um terço tanto defende.

Fosse o terço decididamente, convictamente, extraordinariamente coerente com o pressuposto de independência, ninguém que o represente,  na rodada do segundo turno, de especulação sobre o segundo turno, optaria por candidato de um dos extremos que mais abasteceria seus sonhos. 

Está certo que para tirar todas as dúvidas sobre o perfil desse terço de acomodados ou valentes, quando não passivos ou descrentes, os institutos de pesquisa deveriam acrescentar ao formulário indagaçõesdirecionadas especificamente a cada integrante desse grupo. Ou seja: apenas os chamados independentes responderiam ao questionário suplementar em desdobramentos esclarecedores sobre a razão dessa suposta independência.

Entretanto, como a medida exigiria muito mais que o volume padrão de entrevistas que resguardam dois pontos percentuais de margem de erro, o que temos mesmo é a exposição desse terço escandalosamente indecifrável, mas de identidade falsamente qualificada.

TERÇO PACIENTE?

Afirmar que o terço é independente é, portanto, e também, uma precipitação ou, mais que isso, uma aberração em termos metodológicos, científicos. Não há insumos estatísticos de pesquisas levadas a campo que respondam às dúvidas. Gostaria muito de saber o resultado tecnicamente respaldado desse terço bajulado como a fina flor do eleitorado nacional. Acho que as máscaras cairiam, caso a pesquisa sugerida não fosse manipulada como tantas o são.

Sou tomado por uma nova interpretação na tentativa de salvar a credibilidade do terço em questão, retirando-o do patamar superior de possível desprezo à democracia ao se manter invicto mesmo com tanta quantidade de alternativas.

Será que o terço em questão não teria a paciência de permanecer à disposição dos votos a ponto de postergar cautelosamente a definição? Nesse caso, pensando bem, o terço de voto seria coberto pelo manto de alta probabilidade e, portanto, merecedor do carimbo de independente. Quem acredita nisso?

Em muitos casos, mesmo com o desconto de duplicata dessa fração de eleitores críticos que só pedem tempo para se definirem,  a turma do um terço invulnerável ao voto colabora imensamente para manipulações nas pesquisas eleitorais.

Quanto mais eleitores a ocuparem esse compartimento de isolamento democrático, ou de fervor tão paradoxalmente democrático que não pode ser misturado com profanações mundanas, mais os institutos de pesquisa aperfeiçoam a linha de montagem de elasticidade metodológica. Uso esse eufemismo – elasticidade metodológica – para não dizer com todas as letras que esse vácuo eleitoral possibilita coisas do arco da velha.

REGULAR COMPLEXO

Aliás, o espetáculo de picadeiro eleitoral não reserva somente ao terço de eleitores supostamente independentes facilidades de manobras. Também o critério de “regular” entre as alternativas de definição de uma gestão na corrida eleitoral é um jeitinho tipicamente apropriado para flexibilidades futuras.

A grade de gestão ótima, boa, regular, péssima e ruim para se chegar ao resultado de uma administração peca porque torna a banda larga de “regular” um espaço indecifrável ante o que seria mais próximo de positivo ou mais próximo de negativo. O “regular positivo” o “regular-regular” e o “regular negativo” são descartados ante a uma única e imprecisa definição em forma de “regular”. A movimentação de regular para positivo e de regular negativo (ou mesmo a manutenção sem retoque de regular-regular) ,  sinalizaria provavelmente, na rodada seguinte de pesquisa eleitoral, o crescimento ou a queda do candidato incumbente. Gestão apontada como “regular-positiva” em maior proporção que as demais opções de “regular” seria muito mais interessante à análise. As recíprocas seriam verdadeiras na forma de “regular-regular” e “regular-negativa”.

Não, não estou saindo do foco principal, que trata do terço independente. Aliás, pensando bem, mas muito bem mesmo, essa turma tão protegida pelos jornais e institutos de pesquisa ocuparia uma faixa de definições muito inferior ao tamanho que a identifique caso houvesse o desmembramento da avalição de “regular” do candidato incumbente. Possivelmente ou certamente o terço desapareceria ou entraria nas avaliações com menos vigor quantitativo e mais energia qualitativa. Deixaria certamente de ser um terço e trafegaria por uma zona bem mais estreita e também próxima da independência de fato.

PARA FANÁTICOS

Garanto aos leitores que não integro esse terço contraditoriamente independente e também não sobraria como representante de um terço efetivamente independente, depois da filtragem sugerida. Faço parte dos leitores e eleitores que têm identidade como votante – defendo a livre-iniciativa e o compromisso social. Sou de direita e de esquerda. Não existe nem sombra de armadilha paradoxal nessa definição. Basta pensar um pouco para entender o que quero dizer. Costumo lembrar que dispenso ocupar a memória com redundâncias. Tenho conceitos de vida que se expressam há 60 anos como jornalista. Os protagonistas públicos não são avaliados por nada que se desgarre do vínculo com meus valores. Só fanáticos enxergam contradição nisso.



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