Esportes

SAF DO SANTO ANDRÉ
VAI ALÉM DO FUTEBOL

DANIEL LIMA - 28/08/2026

A transferência do futebol do Esporte Clube Santo André para um conglomerado empresarial é a melhor notícia do futebol da região, independentemente do futuro que virá, mas guarda uma relação expansiva que poucos decifram quando fixam os olhos apenas no futebol. Do que se trata, afinal?

O desaparecimento do Santo André associativo como fonte de identidade da cidade é a confissão coletiva de que perdemos como sociedade o mínimo da capacidade de sustentar nossos valores dentro de padrões convencionais de pertencimento compulsório. Nada diferente de tantas outras expressões sociais da Detroit à Brasileira.

A metropolização que acossa a pífia regionalidade do Grande ABC já fez estragos em outros setores. A diferença é que um clube de futebol com a história do Santo André chama muito mais a atenção, porque se descobre que a derrocada do pertencimento aumenta.

PERTENCIMENTO DE FATO

Quem tem alguma dúvida sobre a essência do significado de pertencimento e quem pretende também observar como há demagogos na praça que utilizam o verbete pertencimento como as enfermeiras descartam fraudas geriátricas, não custa lembrar que tudo que dê orgulho de um lugar cheio de gente com a qual compartilhamos intenções e prática, se enquadra na modalidade.

Você é do time dos alienados ou próximos disso cada vez que seus valores pessoais e profissionais estiverem desligados do chão em que pisa. Pertencimento não se compra na loja da esquina.

Quem acompanha como acompanho o andar da carruagem regional em distintas atividades,  não resiste à tentação esclarecedora de que não temos apenas e tão-somente um noticiário esportivo realçado em forma de manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página do Diário do Grande ABC). O enunciado da publicação é histórico como retrato de um fato esportivo, é verdade, mas há uma reserva inquietante de cultura no sentido mais amplo que exige ponderações deste jornalista.

PAULINHO E GILVAN

Até porque me sinto com essa responsabilidade, depois de acompanhar a trajetória do Santo André desde pouco depois da fundação no fim dos anos 1960. Estava colado no Santo André como jornalista nos melhores e nos piores momentos do Santo André. Até que chegou o período do Santo André Zumbi, que temos hoje.

Foram tempos em que o Santo André do presidente  Wigand Rodrigues dos Santos  e de tantos outros igualmente apaixonados davam a vida pelo clube. Em São Bernardo o Aliança de Oswaldo Ferreira e em São Caetano do Saad de Felício José Saad também davam personalidade social à prática do futebol profissional.

Mas, vamos saltar no tempo. Sou intransigente defensor do modelo empresarial do futebol como regra e não exceção (que comportaria apenas alguns dos grandes, pelo menos enquanto não se afundam em dívida, como o Corinthians tão roubado) e por isso mesmo escrevi dezenas de textos desde a implantação da legislação que comporta a Sociedade Anônima do Futebol. Principalmente durante o período coincidente em que Paulinho Serra comandava a Prefeitura de Santo André e, para variar, prometia e não cumpria incrementar a medida em parceria com o Santo André do presidente Celso Luiz de Almeida. Precisou a Prefeitura trocar de comando, com Gilvan Ferreira à frente, para se estabelecerem articulações que, finalmente, deram na manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC.

VIZINHANÇA DESACONSELHÁVEL

Espero que os novos controladores do Esporte Clube Santo André fujam de alguns modelos de futebol empresarial que dominam o cenário regional. Tanto o São Caetano de glórias restritas ao passado, como o Água Santa de espasmos vitoriosos quanto o São Bernardo asséptico hoje na Série B do Campeonato Brasileiro, não têm o figurino sonhado para o Santo André empresarial que imagino.

Já escrevi muito sobre isso e não pretendo repetir em detalhes agora. O que gostaria de ver com a camisa do Santo André que é a camisa regional de minha paixão, sem que isso vire discriminação às demais, o que gostaria de ver seria um Santo André com a alma do passado combativo e cooperativo dotado de engenharia econômica sustentável a ponto de tornar  o organograma do conglomerado adquirente uma vitrine permanente de sucesso e de novos investimentos.

Quero o Santo André dos tempos de paixão nas arquibancadas, mas dotado de recursos financeiros que deixem no passado campanhas de arrecadação de fundos e até mesmo de papelão para pagar os salários dos jogadores.

LIBERDADE PARA DECIDIR

O fato que não pode ser subjugado porque se trata mesmo de situação preocupante é o seguinte: o Santo André de novos gerenciadores terá a oportunidade de proporcionar ganhos esportivos, econômicos e sociais na medida que olhar para os clubes vizinhos, diplomaticamente chamados de coirmãos e fugir completamente do que representam conforme os princípios de pertencimento às demandas locais e regionais. 

Entretanto, todavia e contudo, como se trata de investimento financeiro de especialistas em transformar oportunidade em dinheiro, legitimamente nas práticas do capitalismo, caberá aos novos proprietários do Santo André a determinação dos desígnios que bem entenderem.

Se pretenderem fazer do Santo André o personalismo vazio ou direcionado do São Bernardo, o obscurantismo do São Caetano e o hermetismo do Agua Santa, que o façam.  Teriam perdido uma grande oportunidade de revolucionar o futebol da região com o incremento de um entre muitos modelos de SAF de verdade.

Duvido que uma organização empresarial com ramificações em diferentes setores e que, portanto, acumula experiências práticas de gestão em situações distintas,  não se tenha preparado para colocar o Santo André como valioso produto.

A SALVO DO INFERNO

O que sei sobre a companhia em questão é que não existe no léxico concorrencial nada que se assemelhe à gravidade dos balanços que envolvem milhares de pequenas, médias e grandes empresas solapadas por um governo que gasta sem cessar e mantém, com isso, os juros em patamares insuportáveis.

Parece que essa constatação (ou seja, estar imune a uma devastidão federal) seria suficiente não só para tranquilizar os torcedores como também levantar bandeiras de esperança de que a SAF seria um golpe de sorte na história do Ramalhão.

Mais um golpe de sorte, por sinal, porque, no começo dos anos 1970, o presidente do clube, José Amazonas, preparou o velório da agremiação , desesperançoso de um futuro em meio ao caos de receitas improváveis e despesas contantes. O que ocorreu? O funcionário público Wigand Rodrigues dos Santos, ex-presidente e um dos líderes mais importantes da história do clube, levantou-se entre os conselheiros e bradou alto e forte: o Santo André não desaparecerá. E não desapareceu.

SALVANDO A PÁTRIA 

É verdade que desde muito tempo o Santo André tem tido trajetória ordinária, decadente, frustrante, exatamente porque a sociedade como um todo não criou ferramentas que atualizassem o modelo de resistência associativista a uma atividade cada vez mais submetida a testes de capitalismo em substituição ao voluntarismo velho de guerra.

O Santo André que emergiu no fim dos anos 1970 com a mobilização de Wigand Rodrigues dos Santos ao juntar os clubes amadores para dar vida ao time profissional é um Santo André que há muito morreu de morte morrida como competidor para valer num futebol cada vez mais seletivo em investimentos.

O Santo André que poderá ressurgir com o novo desenho lógico de probabilidades num mundo mudado valerá a pena ser acompanhado de perto. Quem projetar o pior cenário para o Santo André do futuro não alcançará jamais a realidade destes dias de inapetência competitiva, como integrante da Sexta Divisão do futebol brasileiro.

Pior do que está o Santo André não fica. E a sociedade metamorfoseada ao longo de quase 70 anos também, no conjunto, não fez nada para tornar uma demanda sentimental do passado demanda prática do presente. O vácuo será ocupado por empreendedores providenciais.

Para completar, por enquanto: o presidente Celso Luiz de Almeida segurou a peteca do Santo André no campo esportivo até onde o isolamento involuntário permitiu, até onde a sociedade desorganizada patrocinou e até onde o senso de juízo resistiu. Celso Luiz de Almeida é o último dos moicanos de um passado de pertencimento de verdade. 


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