Uma conjuntivite das bravas que se soma a uma gripe dos infernos e ao desencadeamento de soluços sem cessar tentam me tirar da linha de produção editorial nesses dias bravios, mas sigo em frente. É café-pequeno perto do balde de chumbo derretido daquele primeiro de fevereiro.
O fato é que o título desta análise poderia ser outro, com leve alteração. Bastaria retirar a interrogação. Isso mesmo: nos últimos nove anos, entre a base de 2014 (antes do caos de Dilma Rousseff) e o extremo de 2023 (depois do Coronavírus), o PIB de Mauá lidera folgadamente o mapa de produção de riqueza em produtos e serviços no Grande ABC.
Fico imaginando um marqueteiro da turma de marqueteiros sem pudores caso fosse contratado pela Prefeitura de Mauá e se colocasse na linha de frente para explorar a boa notícia. Boa notícia? Sim, boa notícia para o marqueteiro em questão, não para a Economia do Grande ABC como um todo. Aliás, para a Economia do Grande ABC como um todo, a constatação do que virou nosso PIB nesse período é preocupante e acentua o derretimento desse indicador que, goste-se ou não, sempre influencia os resultados gerais.
UNIVERSOS DIFERENTES
Na edição de ontem mostrei o comportamento dos sete municípios da região no Produto Interno Bruto nacional tendo como premissa a participação relativa de cada um dos sete endereços. Os resultados foram desastrosos. Participação relativa significa o que cada Município e a região como um todo têm como resultado do contraponto de dados com a média nacional. Vivemos no ritmo da chuva de ácido ante um País que está longe de ser um primor em Desenvolvimento Econômico e Social.
Hoje a abordagem é diferente. Como se o Grande ABC não passasse de um arquipélago com sete ilhas de tamanhos diferentes construído ao longo da história, vamos mostrar o que ocorreu internamente, ou seja, desconsiderando o mundo federal exterior.
Não falta quem ao longo dos tempos tenha praticado exatamente esse exercício, ou seja, de analisar o Grande ABC descolado de outros territórios e principalmente do ambiente nacional. Quando se pratica esse estratagema, o que temos é levar aos leitores a ideia de que somos o centro do mundo e que portanto nada que nos diz respeito tem qualquer relação externa. A vida não é exatamente isso. Somos parte de um conglomerado de mais de cinco mil municípios e tudo que diz respeito ao território nacional sempre implica em resultados na região.
LEI DE GRAVIDADE
Uma fábrica que deixa o Grande ABC e se instala no Interior do Estado abre um buraco no PIB caso não seja reposta em tamanho semelhante. Como durante as últimas quatro décadas compensações não houve, os números são implicitamente denunciadores. É assim que funciona a Economia. Contamos com políticos que fazem de tudo para revogar a lei da gravidade econômica em inúmeros indicadores. Eles vivem no mundo da lua, empesteados por marqueteiros sedutores.
Como no caso dos resultados no critério de participação relativa no conjunto chamado Brasil, internamente Santo André e Mauá são agressivamente opostos no PIB durante os nove anos de estudos. Enquanto o PIB de Santo André recuou 14,78% no período, Mauá petroquímica nadou de braçadas, com crescimento de 46,38%.
Mauá da Doença Holandesa Petroquímica que se espalha pela indústria química é imbatível porque a atividade gera muita receita fiscal que interfere diretamente no PIB. Esse é o lado positivo. O negativo é que cria pouca riqueza interna, porque a incidência de empregos é baixa. Traduzindo: as mudanças sociais ficam muito mais a cargo do Estado Municipal.
APROXIMAÇÃO
Por outro lado, as demais atividades industriais da região perdem viço sem parar. Com exceção da intermitência e do gradualismo de queda da Doença Holandesa Automotiva, estamos em constante mergulho em outros setores. E não custa repetir que praticamente todas as cadeias de produção regional foram para a cucuia ao longo dos últimos 40 anos. Por isso, o crescimento do PIB de Mauá também serve como atestado de desindustrialização permanente da região.
Em 2014, data-base desse estudo de nove anos, a participação relativa do PIB de Mauá no PIB de Santo André não passava de 40,29%. Uma distância quilométrica que, aliás, tem origem no passado de industrialização de Santo André muito acima de Mauá, sempre dependente do Polo Petroquímico.
Quando o PIB de 2023 chegou, a participação relativa de Mauá ante Santo André subiu para 67,7o? Ou seja, Mauá ganhou 27,41 pontos percentuais. Santo André de 2023 registra PIB de R$ 36.931.351 bilhões enquanto Mauá alcança R$ 25.000.732. Em 2014, em valores que desprezam a inflação do período, o PIB de Santo André registrava R$ 28.119.591 bilhões, enquanto Mauá registrava R$ 11.329.503 bilhões. Santo André que se cuide, porque Mauá pode avançar ainda mais. Até o ponto de ultrapassar em uma década.
DISTÂNCIA REDUZIDA
São Bernardo perde para Mauá no PIB dos nove anos de forma menos impactante. A distância que separava os dois municípios permanece elevada, mas já foi muito maior. Em 2014, O PIB de Mauá representava apenas 23,82% do PIB de São Bernardo. Já em 2023 passou para 34,74%. Nada menos que 11 pontos percentuais de avanço.
É muito improvável que nos próximos 50 anos o PIB de Mauá supere o PIB de São Bernardo, por mais que a Doença Holandesa Automotiva continue ativa e exija medidas drásticas. O setor automotivo espalha riqueza entre empresas primárias e os tentáculos de autopeças. Nos últimos nove anos o PIB de São Bernardo sofreu queda discretíssima, de apenas 0,38%. Não esqueça o leitor que Mauá cresceu 46,38%.
Mauá já superou o PIB de São Caetano. Em 2014, a participação relativa de Mauá ante São Caetano não passava de 70,13%. Em 2023, a reviravolta foi constatada. Mauá conta com PIB acima de São Caetano. Em 2014, o PIB de São Caetano registrava em valores nominais R$ 16.153.419 bilhões, ante os já mencionados R$ 11.329.503 bilhões de Mauá. Já em 2023, enquanto São Caetano subiu para R$ 22.553.448 bilhões, com queda de 7,98% no período, a Mauá de quase 50% de crescimento do PIB chegou a 25.000.732.
DIADEMA SUPERADA
Diadema também foi superada por Mauá nos nove anos. Composta principalmente por pequenas e médias industriais, Diadema conseguiu o milagre de ser batida em competitividade regional mesmo com a vizinhança logística da Imigrantes, da Anchieta e do Rodoanel. É um caso que já expliquei. Incompetência pura ao longo de gestões petistas e assemelhadas. Em 2014, Diadema contava com PIP nominal de R$ 13.910.517b bilhões. Portanto, acima dos R$ 11.329.503 da petroquímica Mauá. Em 2023, ao fim da corrida de nove anos, Diadema sacramentou crescimento de apenas 1,23% e chegou ao PIB de R$ 21.229.085; portanto quase R$ 4 bilhões abaixo de Mauá.
Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não devem ser confrontadas por Mauá. Afinal, não representam mais de 2% do PIB do Grande ABC. Qualquer movimentação numérica pode levar a conclusões precipitadas.
Um exemplo? Rio Grande da Serra cresceu nos nove anos tanto quanto Mauá, 48,80%, mas a mudança tem muita relação com os impactos do Bolsa Família, que também entra na conta do PIB, porque gera consumo. O PIB de Rio Grande da Serra em 2023 não passou de R$ 1.166,050 bilhão. Ribeirão Pires, que cresceu 2,35% no período, contava em 2023 com PIB de R$ 4.853,229 bilhões. Um quinto do PIB de Mauá.
Para completar esta edição, nos últimos nove anos o PIB do Grande ABC sofreu perda de 1%, enquanto o PIB do Brasil cresceu, em termos reais, descontada a inflação, 25,12%. A queda regional se deve muito a Santo André. Em valores monetários, foram exatamente R$ 5.458.932 bilhões na comparação ponta a ponta. Mauá, por outro lado, aumentou em valores monetários nada menos que R$ 7.921.507 bilhões. Não houvesse Santo André no meio do caminho, a perda regional no período, de R$ 1.821.261 bilhão, poderia ter-se tornado uma conta positiva. Aliás, bastaria Santo André perder pouco menos da metade do total que perdeu.
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