Ainda não conto com dados agregados essenciais para análise eleitoral que ultrapasse a linha da obviedades ou o caráter meramente informativo e encaminhe à metabolização dos resultados para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal. Por isso, vou dar preferência aos resultados no Grande ABC para a presidência da República e também, complementarmente, ao governo do Estado, até porque uma coisa está ligada à outra.
Portanto, vou deixar para amanhã o pretendido mergulho nos detalhes dos dados de deputados estaduais e federais eleitos – e alguns não eleitos -- com a marca do Grande ABC. Houve surpresas e decepções, principalmente na corrida à Câmara Federal. A turma da região na Assembleia Legislativa é praticamente a mesma de quatro anos passados. Renovação praticamente zero.
Por conta de tudo isso, não custa avançar tendo o segundo turno federal como cardápio interessante e o turno único paulista como peça incremental às especulações fundamentadas mas não por isso asseguradas. Escrever sobre resultados eleitorais e suas consequências é isso mesmo, especulação com fundamentação. Nada, entretanto, que possa se confundir com torcida organizada. Ou bancada televisiva organizada e atônita, como a que assisti ontem à noite na GloboNews. Aquele pessoal não sabe nem disfarçar.
QUARTA VITÓRIA
Por conta disso tudo, também, estou apontando que o segundo turno da disputa presidencial poderá marcar sim o fim da jornada de Lulacá e de Lulacá como presidente da República. Vou ficar no Lulacá, que mais interessa a todos. Um Lulacá, conforme já analisei, absolutamente frustrante para a região. Como o PT Federal, de maneira geral. Nota zeríssimo de zero a 10. E isso não é especulação analítica. São fatos consumados. Ou expectativas jogadas no lixo da desilusão.
Lulacá venceu pela quarta vez seguida no Grande ABC no conjunto de votos válidos deste primeiro turno. Desta vez, entretanto, o primeiro turno apurado acena a uma reviravolta no segundo turno, considerando-se que o Partido dos Trabalhadores teria esgotado a preferência do eleitorado ou mesmo ter chegado próximo a isso. Lula da Silva somou 721.266 votos nos sete municípios. Apenas um pouco acima de Flávio Bolsonaro, com 677.222.
O placar final de 51,57% ante 48,42% de votos válidos esterilizados diz bem o que foi a disputa regional. Esse resultado considera exclusivamente o total de votos dos dois candidatos e esse mesmo total como o total geral. Mas de fato esse não é o total geral. Nos votos válidos do primeiro turno, agora com base em todos os concorrentes, Lulacá soma 45,87% ante 43,07% destinados a Flávio Bolsonaro. Diferença semelhantemente inversa ao placar nacional.
LULISMO LATENTE
A soma dos votos de Lula e Flávio Bolsonaro chega a 1.398.488 milhão. O que estiver faltando para chegar ao total de eleitores no Grande ABC é o que foi para os demais candidatos, além de votos nulos, em brancos e abstenções.
Os resultados do primeiro turno confirmaram que o lulismo é muito mais forte e penetrante que o petismo no Grande ABC, como de resto no País, especialmente no Nordeste. Uma região de migrantes não poderia ser muito diferente do único conglomerado de Estados que deu vitória a Lula da Silva.
O PT municipalista do Grande ABC tem sido um fracasso atrás do outro, como prova Mauá, a única prefeitura estrelada da Região Metropolitana de São Paulo. O lulismo enraizado no Grande ABC continua a contar com Diadema como o principal reduto. Com 125.594 eleitores cravando o 13 nas urnas, Diadema registrou 52,43% dos votos válidos lulistas, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 37,50%, fruto de 89.832 votos.
São Bernardo sempre foi um degrau abaixo de Diadema como fonte lulista de votos. Por isso, a vantagem desse primeiro turno de 46,77% a 41,83% dos votos válidos ante Flávio Bolsonaro não foge um milímetro da normalidade. Foram 245.232 votos contra 192.478. Mauá, que se tornou reduto lulista a cada nova disputa presidencial , deu vantagem mais discreta ao presidente da República com o placar de 45,84% a 43,06% dos votos válidos—102.086 a 95.900.
A pequena Rio Grande da Serra também assegurou a vitória lulista, por 48,89% a 40,96%. Foram 12.124 votos para Lula e 10.158 para Flávio Bolsonaro.
TRÊS VITORIAS
As três vitórias do candidato do PL foram garantidas em Santo André, São Caetano e Ribeirão Pires. Em São Caetano, onde só ganhou uma disputa eleitoral, em 2002, por causa dos danos regionais do governo Fernando Henrique Cardoso, o lulismo perdeu feio: foram 53,96% dos votos válidos para Flavio Bolsonaro (63.410) contra 39.455 de Lula (33,57%). Um pouco a mais que o resultado no Estado de São Paulo – 51,93% as 38,20%.
Santo André e Ribeirão Pires têm eleitorados semelhantes no tratamento ao lulismo – desde muito tempo. Em Santo André, Flávio Bolsonaro obteve 47,21% dos votos válidos (195.045) enquanto Lula registrou 41,20% (170.225). Em Ribeirão Pires, Flávio Bolsonaro obteve 47.21% dos votos válidos (30.399) enquanto Lula da Silva registrou 41,23% (26.550).
O que me faz acreditar para não dizer ter a quase certeza de que o reinado de Lulacá vai desmoronar em 25 de outubro próximo é que o candidato do PL contará com um reforço considerável –nada menos que o governador Tarcísio de Freitas. Parece mais apropriado acreditar que a votação para a presidência da República no Grande ABC no turno decisivo se encaminhará em maiores proporções para Flávio Bolsonaro sob o impulso da liderança de Tarcísio de Freitas em comparação com qualquer outro fator lulista ou petista.
ESPAÇO PARA AVANÇAR
Os dados do primeiro turno no Grande ABC para o governo do Estado não indicariam conclusão ou projeção diversa do que acabei de sugerir. Afinal, Tarcísio de Freitas obteve no Grande ABC vitória com 11 pontos percentuais e 167.927 votos de superioridade quando se somam os sete municípios – 55,96% (788.590 votos) ante 44,04% de Fernando Haddad (620.663).
Comparem a votação no Grande ABC de Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro para entenderem que há um potencial de acréscimo do eleitorado do candidato presidencial de nada menos que 111.368 votos, ou seja, a diferença entre o que o governador somou na região acima da votação de Flávio Bolsonaro – 788.590 a 677.222.
No caso de Lula da Silva, sempre considerando a votação regional, o resultado é inverso – Lulacá obteve 100.603 mais votos que Fernando Haddad – 721.266 a 620.663. Ou seja: os eleitores do candidato petista ao governo do Estado de São Paulo não acrescentariam nada ao candidato presidencial. O lulismo regional é mais pronunciadamente expressivo que o petismo.
DIADEMA É EXCEÇÃO
Diferentemente de Flávio Bolsonaro, que perdeu em quatro dos sete municípios da região, o governador Tarcísio de Freitas só foi derrotado na cidade mais avermelhada ou lulista da região, e mesmo assim por margem escassa: Diadema deu 50,15% dos votos (110.289) para Fernando Haddad, ante 48,83% para o governador do Estado (107.394).
A vitória mais expressiva em votos válidos para Tarcísio de Freitas no Grande ABC só poderia mesmo ocorrer em Caetano, com 67,06% (75.531) ante 31,94% de Haddad (35.976). Santo André e Ribeirão Pires, assim como no caso dos votos à presidência, correram como irmãos siameses. Em Santo André, Tarcísio de Freitas venceu por 58,34% (224.433 votos) a 40,51% (155.836). Já em Ribeirão Pires, Tarcísio de Freitas obteve 58,64% dos votos válidos (34.844) ante 40,07 de Haddad 23.813).
Nem a São Bernardo menos lulista que Diadema mas mais lulista que Santo André resistiu à força do governador Tarcísio de Freitas no primeiro turno em votos válidos. Tarcísio alcançou 53,28% (226.480) ante 45,56% de Haddad (193.645). Resultados semelhantes aos de Rio Grande da Serra, onde Tarcísio de Freitas registrou 52,39% (11.666) e Haddad 46,31% (10.312).
VOTOS DOS DEPUTADOS
Quanto aos resultados para a Assembleia Legislativa e à Câmara Federal envolvendo representantes do Grande ABC, é melhor mesmo esperar por mais informações. De qualquer forma, não há como descaracterizar uma grande surpresa – os 102 mil votos obtidos pelo ex-prefeito de São Bernardo e ex-secretário de Segurança Pública, Orlando Morando, não foram suficientes para chegar à Brasília. A estupefação é muito maior que a gerada pela derrota de Alex Manente.
Mas há outras situações que provocaram sensações semelhantes. Havia expectativa de arrasa-quarteirão em São Bernardo sobre o potencial de concorrentes incrementados pelo prefeito Marcelo Lima. Todos nadaram e morreram na praia. Assim como os sindicalistas, que esperavam organizar o que chamaram de bancada dos trabalhadores em Brasília. Nem Vicentinho Paulo da Silva resistiu à autofagia que pretendeu eleger Moises Selerges, até outro dia presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, berço do lulismo e do petismo.
Sob qualquer ponto de vista, por outro lado, a votação de Paulinho Serra, concentradíssima em Santo André, mas muito abaixo do que se pretendia, também é um fracasso na disputa pela Cãmara Federal. Mas nada que tenha conotação de impiedoso alerta ao ex-prefeito de Santo André resiste ao fato pragmático: bem ou mal para o futuro que ele observa com avidez, tendo o Paço Municipal como meta em 2028, bem ou mal ele, Paulinho Serra, chegou lá. E quem chega lá, mesmo aos trancos e barrancos, sempre é vencedor. Mesmo que seja vencedor no curto prazo de uma carreira que acenou para uma vaga no Senado e vai ganhar anonimato nacional, como todos os deputados eleitos no Grande ABC.
Total de 957 matérias | Página 1
30/09/2026 VOTE NO GRANDE ABC! SERÁ QUE VALE A PENA?