O que o leitor vai ler em seguida é uma parcela ínfima, mas essencial, sobre o que ocorreu no Grande ABC durante a pandemia do Coronavírus. Foi uma catástrofe de repercussão sufocada pelas barbeiragens do governo federal, principalmente. A atuação do Clube dos Prefeitos, sob forte influência e comando do prefeito de Santo André, Paulinho Serra, transformou-se numa sequência de omissões, e tudo o mais.
Como nas edições anteriores desta série que compõe coletânea de 60 anos de jornalismo deste profissional, não será necessário antecipar o que consta do histórico retirado de quase 10 mil textos analíticos que compõem o acervo desta publicação que completa 36 anos de circulação. Tudo está logo abaixo.
O Grande ABC sofreu perda de 12 mil vidas ante pouco mais de 700 mil do Brasil. O índice de participação relativa de mortes no Grande ABC é 30% maior que a média nacional quando se fazem as contas correlacionando letalidade e participação relativa da população. Os resultados da região, nessa métrica, correram praticamente na mesma raia de mortes registradas no Distrito do Sapopemba, na Capital. Nada mais emblemático de um fracasso coletivo.
PRIMEIRA MATÉRIA
A primeira matéria foi publicada na edição de primeiro de maio de 2020 sob o título “Vírus: veja carta-proposta aos prefeitos do Grande ABC” – acompanhem:
Caros prefeitos do Grande ABC, instalados no que chamo de Clube dos Prefeitos, oficialmente Consórcio Intermunicipal.
Tomo a liberdade de apresentar o escopo de alternativa para minimizar os danos sociais e econômicos da pandemia da Covid-19 nesse território de mais de 800 quilômetros quadrados e perto de três milhões de habitantes.
Não se trata, como poderão ver, de nada extraordinário. É simples como qualquer operação matemática do Ensino Fundamental. Basta ter determinação e capacidade de mobilização para executar a tarefa. Já passou da hora, aliás.
Essa carta-proposta tem o objetivo exclusivo de colaborar com os senhores, eleitos que foram em outubro de 2016.
Sei que é iniciativa fadada a dar com os burros nágua. Se há algo de inútil no Grande ABC, o Clube dos Prefeitos está na liderança. Inútil no sentido de que historicamente está muito aquém das demandas que a desindustrialização provocou.
E particularmente esse grupo de prefeitos tem-se pautado pela continuidade agora de forma mais aguda da desconstrução de uma iniciativa importantíssima, tomada que foi em dezembro de 1990.
IMPACTO REGIONAL
Traduzindo em termos claros: os senhores jamais se dedicaram para valer durante todo o tempo ao Clube dos Prefeitos. Nem o prefeito dos prefeitos de plantão o faz. Isso vem de longe. É uma metástase.
Mesmo sem acreditar que os senhores juntariam forças e esforços para sair do marasmo de iniciativas de cunho regional, sobretudo que afetam o campo econômico sem resvalar no comprometimento da saúde pública, me vejo na obrigação moral de apresentar proposição que impactaria diretamente o ambiente regional nestes momentos de transe e inquietação.
Me coloco à disposição dos senhores, se necessário, para uma apresentação e mesmo um debate, mas creio que isso é desnecessário diante da urgência que nos move. Até porque, senhores prefeitos, perdi a esperança de mudanças depois de bater no mesmo teclado durante três décadas. Os arquivos de LivreMercado e de CapitalSocial são testemunhos desse desencanto.
TEMPO DE REAGIR
O mais importante nessa altura do campeonato em que estamos sendo goleados pelo vírus chinês é agir com celeridade. Muito tempo já foi desperdiçado. O que vivemos hoje na saúde terá consequências dramáticas mais adiante, em forma de desemprego generalizado. O desequilíbrio empresarial se acentuará e provocará mortandade recorde. Pequenos e médios empreendedores estão sendo alijados ainda mais de uma disputa concorrencial construtiva, entre outros aspectos.
Estamos cavando a própria sepultura com uma polaridade regrada pelo comodismo do piloto automático, pelo despreparo e também pelo baixo grau de compreensão das possibilidades de medidas restauradoras das próprias administrações municipais.
Não tenho dúvida de que a apatia generalizada do Clube dos Prefeitos nos últimos anos, que se rivaliza com a fragilidade que a precedeu, poderá passar por amplo revigoramento. Basta botar a mão na massa. Que se coloque o Estado, em forma de Prefeituras, como ponta de lança de solidariedade visível e resultados palpáveis.
HORA DOS SERVIDORES
O que pergunto, senhores prefeitos, como provocador em prol de uma iniciativa inédita no País neste momento em que todos os agentes públicos mimetizam medidas que acentuam a dicotomia entre saúde e economia, o que pergunto senhores prefeitos, repito, é quando vão deslocar a grande massa de servidores públicos (notadamente comissionados conhecidos pela baixa produtividade) a serviço da sociedade neste período tão sombrio?
Repito: quando os servidores públicos, concursados e principalmente os comissionados que seguem manuais de suporte político-eleitoral dos prefeitos de plantão, vão para a linha de frente, preparados claro, para dar à população a certeza de que o Poder Público Municipal está vigilante, colaborativo, solidário, preparado, para fazer o vírus assassino um adversário menos letal à saúde e à economia?
É esse o ponto central desta carta-proposta. Os senhores têm a maior oportunidade do mundo para dar um exemplo aos demais chefes de Executivos do País.
ATIVISMO PÚBLICO
Vamos, vamos lá! Sejam agentes públicos ativos. Deixem de correr na mesma raia reativa, quando não oportunista, quando não marqueteira, do governador do Estado. Saiam das barras da calça do governador. Mais que isso: repassem ao governador esse ovo de Colombo. Ele tem poder midiático para multiplicar a proposta por todo o território paulista.
Cada um dos senhores deve dividir os respectivos municípios em distritos. Peguem o mapa municipal. Há casos em que os distritos eleitorais podem servir de campo de batalha contra o vírus. Sei que essa vinculação pode ser mal interpretada, mas como não tenho nenhuma ligação com prefeito algum, o peso da ideia limita-se à praticidade interventora.
Até porque a sugestão tem dupla face. Quem for competente obterá respaldo das comunidades atendidas. Quem fracassar, pagará o preço.
Topem essa parada ou vão ficar a ver navios de desmoronamento das medidas aplicadas até agora e cujo resumo da ópera é a cada vez menos aderente política de isolamento. Propomos, com toda a segurança exigida, distanciamento social ante o aplicado isolamento social.
Vejam as ruas como estão cada vez mais coalhadas de veículos. Vejam como os aglomerados humanos retratam a perda relativa do medo. Quando o estrago do vírus chega ao bolso e ao estômago, não há quem segure o repuxo. Caminhamos celeremente para a industrialização de abusos e arbitrariedades que pontuaram nas redes sociais.
PREPARO E AÇÃO
O que fazer, caros prefeitos, com esses respectivos redutos populacionais? Simples: treinem servidores públicos (principalmente os batalhões de comissionados) para se tornarem agentes de monitoramento com repercussão tanto na saúde quando no empreendedorismo.
Prepare-os adequadamente. Distribua-os preferencialmente nos espaços territoriais onde moram. Coloquem cada um deles em contato direto com as comunidades mais próximas. Proteja-os com instrumentais recomendados pelos especialistas para que não virem vítimas do vírus. Prepare-os para agir nas duas frentes: orientando os moradores na fluência garantidora de proteção contra o vírus e no disciplinamento contido ao atendimento de consumidores de produtos e serviços nos estabelecimentos locais. Os mesmos estabelecimentos que também seguiriam normas rígidas para combinar faturamento e segurança.
Coloquem esses batalhões organizadamente nos bairros. Deem-lhes instrumentos tecnológicos já massificados e dotados de aplicativos que, conectados a uma central de operações, muito contribuíram para o armazenamento de dados, cujos estudos e análises poderão dar mais racionalidade e respostas aos desafios que se apresentam.
SINERGIA DE CAMPO
O que pergunto é o que andam fazendo os servidores públicos (notadamente os comissionados) nestes tempos de pandemia? Seja o que for que estejam fazendo o lugar de muitos deles é prestar atendimento à sociedade que paga os seus salários em forma de impostos.
Senhores prefeitos: coloquem esse pessoal para trabalhar. Botem eles nas ruas com planejamento, preparo, conhecimento e dedicação. Forrem os bairros com esse exército de servidores. Deem a cada um deles tarefas que vão enobrecê-los em sintonia com a mitigação dos danos diretos e colaterais da pandemia.
Não faltam especialistas em saúde que acrescentariam medidas providenciais no combate local da pandemia. Os servidores públicos poderão virar referência de eficiência. Eles serão a cara, o corpo e a alma da Administração Pública. A sociedade não se sentirá abandonada pelo Poder Público.
Já imaginaram, senhores prefeitos, o quanto os servidores públicos podem, estando no front, trazer de informações sobre o comportamento da população tanto reclusa em suas moradias quanto de empreendedores de pequeno e médio porte deslocados há mais de 30 dias de uma condição inerente a quem abre uma porta para atender a clientela – a sobrevivência familiar sempre a reboque da resistência do negócio.
CAPILARIDADE FUNCIONAL
Sei, senhores prefeitos, que essa iniciativa dá trabalho. Exige muito esforço de todos. Requer desprendimento sem tamanho. Mas, pergunto: o Coronavírus não vale tudo isso?
Por que a inflexibilidade de ficar em casa quando esses batalhões de servidores poderiam seguir regras rígidas de segurança sanitária de modo a associar uma coisa à outra.
Já imaginaram, senhores prefeitos, a capilaridade dessa iniciativa? Quantos ensinamentos à população assustada e reclusa não teria materializado? Bairro por bairro, rua por rua, esses agentes públicos transmitiriam confiança aos moradores. Ninguém se sentiria desamparado pelo Poder Público como hoje.
Uniformize-os, senhores prefeitos. Deem-lhe identidade facilmente decodificadora da ação. Caracterize-os como agentes da salvação. Ou não o seriam se agirem para valer no nascedouro dos problemas e de eventuais soluções?
Talvez a visibilidade da operação perca em marketing político para os hospitais de campanha, mas, podem acreditar, fosse essa medida já transformada em realidade, o fluxo de doentes teria caído acentuadamente.
MITIGAR SEM RISCOS
Mais que supostamente quebrar a cadeia de interação social, essa iniciativa promoveria uma mobilização moderada, cuidadosa, solidária e amenizadora do congelamento de atividades econômicas que se tornará um tiro no próprio pé da gestão pública em forma de recuo comprometedor de recolhimento de impostos.
Preferi, senhores prefeitos, não desenvolver nenhum desdobramento mesmo que preliminar dessa iniciativa. Acredito que há profissionais no setor público que contribuiriam imensamente com essa proposta.
Precisamos colocar um ponto final no ambiente desértico das ruas. Precisamos parar de ter medo do vírus. Devemos enfrentá-lo com todo o aparato técnico que a Organização Mundial da Saúde recomenda. Mas não podemos virar as costas para os indicadores econômicos.
Senhores prefeitos: transformem os servidores públicos em agentes mobilizadores de uma retomada econômica específica em cada bairro. Toda a cidade, toda a região, estará tocando a mesma melodia.
Senhores prefeitos: abram as portas da economia para todos os empreendedores que seguirem as regras do jogo. Regras que podem e devem ser flexibilizadas, retirando a rigidez do temor do descompasso entre infectados e infraestrutura hospitalar.
Grande ABC contra o Coronavírus não seria meramente uma frase de efeito. Seria uma reação bem articulada. O Clube dos Prefeitos é uma instituição inadimplente, quando não concordatária, no Grande ABC. Essa é a maior oportunidade que a história regional oferece a uma grande reviravolta.
Senhores prefeitos: coloquem os servidores nas ruas. Preparados, disciplinados, comprometidos com o equilíbrio entre saúde e economia. Forrem as ruas de todos os bairros do Grande ABC. Não falta gente para essa intervenção. E se faltar, requisite assessores dos vereadores. Coloque-os também na dança da salvação.
Senhores prefeitos: estamos fartos de ver cenas de hospitais em transe. Tudo isso poderia ter sido fortemente reduzido se tivéssemos servidores públicos nas ruas agindo como agentes de saúde. Treinados, preparados, organizados e solidários. E seguindo protocolos internacionais básicos. Menos confinamento, menos isolamento. Distanciamento regulamentar. Sem aglomerações. Vamos lá, prefeitos!
Afinal, os senhores estão esperando o quê? Ordens do governador?
SEGUNDA MATÉRIA
A segunda matéria selecionada para este capítulo foi publicada em 27 de maio de 2020 sob o título “Alô, prefeitos arrogantes: sigam o exemplo da Itália”—acompanhem:
Mais que arrogantes, os prefeitos do Grande ABC são capachos no enfrentamento ao vírus chinês. Arrogantes porque desprezam proposta deste jornalista que, vejam só, está sendo adotada pelo governo italiano. Capachos porque entregam os fundilhos ao governador João Doria.
Tratar os prefeitos da região fora da bitola do deboche seria idiotice. Há excessos que são mais que justificáveis. A bordo do inútil Clube dos Prefeitos, os titulares dos paços municipais observam a região superar a marca de 500 mortes pela pandemia e nada farão de substantivo até que mil mortes chegarão. E ultrapassarão.
Vamos aos fatos. Em primeiro de maio enviei a carta-proposta ao Clube dos Prefeitos sugerindo que se convocassem sobretudo os servidores comissionados (“servidores comissionados” é um exagero, porque os verbetes são antípodas na cultura da Administração Pública em geral) preparando-os para atuar em todos os bairros na luta contra a expansão dos casos do Coronavírus.
Está na primeira página desta revista digital os termos da proposta. A cada dia de espera pela resposta, acrescentamos a progressividade do tempo. Como se pode ver.
APRENDAM COM A ITÁLIA
Passado praticamente um mês, nenhuma resposta foi encaminhada a este jornalista. É claro que esperava essa atitude. O Clube dos Prefeitos, como se sabe e não se deve negar, além de não ser nada do que poderia ser em tempos normais é ainda pior em tempos de guerra contra o vírus.
Não bastassem serem os prefeitos refratários à regionalidade de ações, contam com equipes e também com assessores no Clube dos Prefeitos sem a necessária competência para sair do quadradismo de servilismo. Eventuais exceções confirmam a regra.
E o que vem de Roma em forma de notícia que deu uma volta ao mundo ontem, inclusive nas páginas do Estadão, é exatamente o seguinte, que reproduzo aos leitores:
A Itália começará nesta semana o recrutamento de 60 mil voluntários para monitorar o cumprimento de suas medidas de segurança. Nos últimos dias, multidões se reuniram em áreas de lazer em várias cidades após a reabertura de piscinas, ginásios e academias. A permissão de usar os equipamentos esportivos é parte do plano de relaxamento da quarentena, iniciado há três semanas. Ontem, por exemplo, muita gente foi à Catedral do Duomo, acompanhar um festival de acrobacias de aviões da Força Aérea – a exibição marcou o aniversário de 74 anos da República. A partir de agora, os voluntários serão responsáveis por informar as pessoas que não respeitem a distância física, segundo o Ministério de Assuntos Regionais. Caso haja resistência violenta ao tentar dispersar uma aglomeração, eles devem ligar para a polícia. Os voluntários usarão distintivo da Proteção Civil, trabalharão 16 horas por semana, passarão a atuar no mês de junho e durante todo o verão. A decisão foi tomada após a indignação desencadeada no fim de semana por cenas de multidão de jovens festejando, sem respeitar as medidas de segurança. --- escreveu o Estadão de ontem.
TEMPO DE ESPECIFICIDADE
O que difere a carta-proposta deste jornalista e a ação do governo italiano é o tempo combinado com as especificidades do Grande ABC.
No caso do tempo, refere-se ao fato de que somente agora um governo nacional move-se no sentido de utilizar aparato de voluntários para atuar num determinado estágio, de recuperação, da pandemia.
No caso deste jornalista, a sugestão encaminhada referia-se a um momento crucial de medidas, quando o Grande ABC acumulava muito menos da metade de casos letais registrados hoje pelo Diário do Grande ABC – exatamente 512 vítimas.
Não pensem os leitores que me regozijo com o fato de que queiram ou não estou por cima da carne seca dos prefeitos acomodados com a situação dramática do Grande ABC nestes dias.
VIDAS QUE SE PERDEM
Diferentemente disso, aliás. Muitas vidas já poderiam ter sido salvas e muitos leitos hospitalares poderiam ter sido poupados se os prefeitos não fossem o que são quando se trata de olhar um pouco adiante.
Além de cegos e surdos eles também carregam uma dose cavalar de teimosia e desprezo a colaboradores voluntários que, no caso de um ocupante da mídia regional, não pretendia ou pretende outra coisa senão ver na prática a extensão de um projeto mais que viável, porque emergente.
Agora que a vaca da economia está indo para o brejo e o carneiro da saúde toma rumo ao matadouro, porque os casos fatais se agigantam, os prefeitos da região começam a dar sinais de que podem pressionar o governador do Estado a rever os conceitos ortodoxos de trancamento horizontal a que submeteu todos os paulistas.
PAULINHO ISOLACIONISTA
O prefeito Paulinho Serra, num gesto isolado, interpretado também como eleitoreiro, de quem estaria em busca de um salvo-conduto ao servilismo junto ao governo do Estado, decidiu mesmo que tardiamente seguir os passos da Frente Nacional dos Municípios.
A entidade, presidida pelo prefeito de Campinas, Jonas Donizette, promove uma campanha de flexibilização das medidas de governadores pouco habilidosos em equilibrar os danos entre saúde e economia ao tomarem iniciativas lineares, tratando espaços urbanos diferentes com o mesmo calibre de restrições.
Sabe-se que houve estremecimento no seio do Clube dos Prefeitos após a arrancada isolacionista de Paulinho Serra. Como uma motoniveladora de marketing personalista, o prefeito de Santo André atropelou os demais integrantes daquela instituição. O pacto natural de resoluções colegiadas foi para o escambau.
O prefeito de Rio Grande da Serra, Gabriel Maranhão, prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, e que se achava no pedestal da hierarquia regional, sentiu-se como quem caiu do andaime.
O mal-estar no Clube dos Prefeitos impera, embora um ou outro prefeito minimize os estragos ao avocar a situação de estresse emocional nestes temos de pandemia.
CAMINHO PRAGMÁTICO
Voltando à ação do governo italiano, a semelhança em relação ao que apresentei ao Clube dos Prefeitos poderia ter ganhado configuração de igualdade se eu acreditasse no poder de mobilização da sociedade, em forma de voluntariedade, no enfrentamento ao vírus chinês.
Preferi pegar o caminho do pragmatismo ao encaminhar aquela proposta tendo como vértice de atuação os comissionados públicos. Essa gente, em larga escala um exército de improdutivos, é mão-de-obra de fácil aproveitamento.
Por estarem disponíveis a qualquer momento a diferentes tarefas (principalmente como cabos eleitorais permanentes, requisitados que são quando há interesses nada republicanos dos chefes de Executivos) os comissionados poderiam ser treinados para atuar sem qualquer risco pessoal diretamente nas comunidades.
O exemplo do governo italiano aniquila a máscara de arrogância e desprezo de chefes de Executivos da região (e também de assessores) no tratamento da carta-proposta deste jornalista.
Enquanto isso, vamos continuar a contar nossos mortos que poderiam morrer (com perdão do pleonasmo) num ritmo de morte bem menos veloz e quantitativo caso fossem adotadas medidas preventivas.
Sem a representação do Poder Público nas ruas, o relaxamento social em confronto com a volúpia do vírus chinês não teria e também não terá outro desfecho senão o duplo genocídio que impacta e impactará por longo tempo a região: a debilidade na saúde e os estragos na economia.
TERCEIRA MATÉRIA
A terceira matéria desta coletânea foi publicada na edição de 30 de junho de 2020 sob o título “ Vírus: Fundação e Faculdade de Medicina fora de combate” – acompanhem:
Não se joga um jogo de futebol com bola de basquetebol. Não se pilota um avião com motorista de taxi. Não se prepara uma refeição de milionários com preparador de cachorro-quente. Não se movimentam as pedras de xadrez com jogador de carteado. Tudo parece tão óbvio que não se entende por que até agora não caiu a ficha do combate ao vírus chinês no Grande ABC.
O que estão fazendo a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina do ABC? Por que especialistas não assumem a coordenação geral? Por que o Clube dos Prefeitos, incapaz de sustentar qualquer política pública sem passar vexame, continua à frente da empreitada?
O Grande ABC está no bico do corvo das estatísticas de letalidade do Coronavírus, mas nem por isso reage de forma coordenada. Entregar a tarefa ao Clube dos Prefeitos é uma barbaridade de equívoco. No máximo, a entidade poderia coordenar o quinhão político-institucional do Grande ABC junto às esferas estadual e federal, como vem mal e porcamente fazendo.
Mas daí a desdenhar da ciência, da qual cuidaria a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina do ABC, é demais. Se tanto uma instituição quanto outra tem o que há de melhor em recursos humanos de saúde, por que estão fora desse combate?
SERVILISMO IMPRODUTIVO
É provável que os sabidões que assessoram os prefeitos da região deem de ombro ante a sugestão de entregarem a rapadura a quem é da ciência. O secretário-executivo do Clube dos Prefeitos, Edgar Brandão, é desses personagens que não aceitam propostas e sugestões de terceiros, mas arrastam servilismo aos poderosos de plantão. Tudo que venha de fora sem recomendação de mandachuvas ele joga na lata do lixo.
Por isso a reviravolta no combate à pandemia é uma obrigação precípua dos prefeitos. E, principalmente, dos três prefeitos responsáveis pelo comando da Fundação do ABC.
Nesse ponto, é melhor esquecer temporariamente (ou deixar a tarefa para o Ministério Público Estadual ou forças federais) os problemas que a instituição apresenta na Central de Convênios, a caixa de pandora que um dia será aberta.
A Fundação do ABC precisa botar a mão da expertise na massa de necessidades. Com um quadro de 25 mil funcionários, o que a torna megacorporação em vários fronts da medicina, está mais que consolidada uma reserva de especialistas e também uma imensidão de capilaridade espacial para enfrentar o vírus chinês com impetuosidade, sabedoria e eficiência.
CLUBE PARA POLITICAS
Deixem os chefes de Executivos fazerem políticas municipalistas e também regionais a bordo do Clube dos Prefeitos com a crise da pandemia. Coloquem os especialistas, os técnicos, para definir estratégias e ações para enquadrar o vírus nos rigores da saúde pública.
Não é mais possível admitir que o confronto seja às cegas em termos de regionalidade. O Grande ABC está a reboque da Capital durante a pandemia. Corre atrás do governador João Doria. Foi até onde o desgaste tornou impossível seguir à risca as regras do contingenciamento horizontal.
Quando a situação econômica começou a pesar demais na avaliação da sociedade, dispararam em busca de remediação. E abriram a economia quando não deveriam mais abrir, até porque abriram sem ciência, sem arte, sem medidas bem articuladas. Quem é o Clube dos Prefeitos que mal sabe o que se passa na economia da região a ditar regras na saúde da região?
PARA QUEM ENTENDE
Mas esse não é o problema principal. O que interessa mesmo é entregar o que é de direito a quem entende do riscado. A Fundação do ABC pode ser um poço sem fundo na área da Central de Convênios, mas conta com centenas de profissionais de saúde que, reunidos em grupo, sob a mesma coordenação, desencadeariam medidas de enfrentamento ao vírus.
Imaginem esses profissionais que seguem diariamente no campo de batalha para atender a população mais sofrida caso se juntassem a servidores públicos em geral, sobremodo os comissionados, formando batalhões de gestão e atendimento e também de campo? Uns cuidariam do corpo, outros da obediência diplomática às regras de confinamento e abertura.
Mas o Grande ABC não tem nada disso. Não tem a Fundação do ABC nem a Faculdade de Medicina onde interessa. Nem os servidores públicos, sobretudo os comissionados, em trabalho de campo, treinados e uniformizados para orientar a população. O Poder Público afasta-se da sociedade.
EXEMPLO ITALIANO
Na Itália, o governo colocou voluntários nas ruas. Gente com alma para evitar o agravamento da pandemia. No Grande ABC, servidores públicos teriam muito a contribuir, mas sem incentivos motivacionais permanecem como reservas inúteis. Tudo porque o Clube dos Prefeitos não é do ramo da regionalidade responsável. É um escritoriozinho burocrático repetidor dos mandos e desmandos do governador do Estado.
A Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina mantêm laços de parentesco funcionais. Teriam, portanto, facilidades para se entenderem e combaterem o que deve ser combatido. Sem chutometria. Sem achismo. Sem gataborralheirismo em relação à Capital e ao governo do Estado.
O divisionismo municipalista no confronto com o vírus é um desperdício de energia, de racionalidade, de recursos financeiros e humanos. É tudo que o adversário precisa para continuar a multiplicar vitimais fatais.
PODERES LIMITADOS
O Clube dos Prefeitos é apenas e tão somente uma ferramenta de exposição interna junto à mídia. Sobretudo nos encontros com o governador para tomar conhecimento da eventual nova fase cromática a ser liberada para tentar reanimar a economia sem comprometer a saúde pública mais que já foi comprometida.
O Clube dos Prefeitos é a plástica mal-ajambrada. Não combina com pressupostos de atenção médica qualificada que a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina multiplicam por centenas de profissionais.
A parceria entre Fundação do ABC e Faculdade de Medicina do ABC amplia esforços da ciência. Arregimentaria proposições e ações coordenadas entre os municípios, e mesmo dentro de cada Município.
Há uma imensidão de possibilidades ainda abertas para reduzir os estragos da pandemia no Grande ABC. Mas nada será possível obter em forma de diagnósticos certeiros sem que a ciência se aproxime e dê as cartas de acordo com as características municipais e regionais do Grande ABC.
Os milhares de profissionais de saúde da região sabem melhor do que ninguém onde estão os vácuos que propiciam o avolumar da pandemia.
Se a Fundação do ABC serve tanto à Central de Convênios para a compra de materiais e equipamentos dos municípios durante a pandemia, por que não serviria para uma articulação densa e a salvo de improvisações tendo os sete prefeitos como clientes a serem atendidos?
O maior erro do Grande ABC durante a pandemia é ter-se fingido regionalizado quando mais uma vez se comporta de forma municipalizada.
As prefeituras atuam dentro dos estritos limites cartográficos. O vizinho que se vire. Sinergias que se explodam.
O Clube dos Prefeitos é um arranjo institucional usado numa emergência sem ter sequer a cultura da regionalidade. Ao longo dos anos viveu de troca-troca de ocupantes dos postos de comando e de assessoramento. Sem solução de continuidade.
SEM CULTURA E EFICIÊNCIA
Os bons profissionais que passaram pelo Clube dos Prefeitos logo se foram com a troca de comando presidencial. A cada novo titular, novas filosofias, novas decisões, novos colaboradores. Não sobra quase nada em forma de cultura de regionalismo. Nem de projetos. Nem de programas. Nem de ações sequenciais.
Antes de desaparecer desse mundo o então presidente do Clube dos Prefeitos, Celso Daniel, em entrevista a este jornalista, antecipava a pretensão de fazer aprovar numa das próximas assembleias a contratação de quadros técnicos que teriam atuação permanente, independentemente de quem fosse o prefeito dos prefeitos. Nada se consumou após a morte do único prefeito regional do Grande ABC.
Por essas e por outras é um contrassenso entregar ao Clube dos Prefeitos o comando de algo que nem pode ser chamado de grupo de trabalho para derrotar o Coronavírus.
O Grande ABC precisa o quanto antes de uma força-tarefa de profissionais do ramo para estancar a hemorragia. Somos um território que amarga dados calamitosos sobre o vírus. Sem contar a obscuridade dos investimentos com dinheiro federal. Mas isso é outra história.
ARREMEDO INSTITUCIONAL
Em recente entrevista ao Diário do Grande ABC, o prefeito dos prefeitos do Grande ABC, Gabriel Maranhão, expôs o tamanho da cratera que se abriu na interlocução daquela instituição com a sociedade em geral. Vivemos um vácuo de lideranças de cunho regional tão grande que entre os atuais prefeitos não há um exemplar sequer que possa ser catalogado como vocacionado a enxergar os sete municípios com preocupação semelhante ao que observa o próprio Paço Municipal.
O Clube dos Prefeitos não tem estrutura física e de pessoal para o enfrentamento ao vírus. É um arremedo institucional que alguns pretendem vender como símbolo de competência de regionalidade durante a pandemia. Só faltou combinar com os russos em forma de dados catastróficos que todos os dias saltam das estatísticas de mortalidade. Enquanto isso, um exército de especialistas está desalojado da empreitada.
Instalaram a política partidária acima da ciência e também da economia. O Grande ABC consegue, portanto, ultrapassar a dicotomia federal e estadual que coloca Economia e Saúde em cantos diferentes. Aqui tudo é possível em matéria de superação de erros dos outros.
Para completar: já morreram de Coronavírus no Grande ABC 1.109 pessoas, média de 39,04 a cada 10o mil habitantes. Vinte por cento a mais que a média do Estado de São Paulo, com 14.398 vítimas fatais. E 30% acima da média nacional, com 58.314. A densidade demográfica relativamente elevada e a localização geográfica, na Região Metropolitana de São Paulo são complicadores que deveriam ser enfrentados com organização coletiva. Superamos largamente a maioria das capitais do País, semelhantemente complexas em desigualdades sociais e mobilidade urbana.
QUARTA MATÉRIA
A quarta matéria separada para esta coletânea foi publicada na edição de 14 de dezembro de 2020 sob o título “Balanço geral: Grande ABC é goleado e não reage ao vírus” – acompanhem:
Nem a mais pura das almas e o mais generoso dos corações negariam a realidade do balanço da temporada do Coronavírus no Grande ABC: perdemos de goleada para o vírus chinês e não reagimos. A medição se dá por meio de referenciais consistentes, sem chutometria. Estamos no topo do mundo. Temos comorbidades urbanas, econômicas e sociais que nos infligem derrotas inquestionáveis. Mas também colecionamos erros próprios, estruturais e culturais que nos tornam reféns da pandemia.
Passo de imediato a alguns números que, mais que qualquer outro elemento de sensibilização, desnudam o quadro socio-sanitário em que nos situamos.
Chegamos a 3.272 mortos, segundo emissão diária do balanço do jornal Reporter Diário. O resultado para cada grupo de 100 mil é de 115,21 óbitos. Bem mais que a média nacional de 85,57 mortes. Precisamente 25,74% acima. A região conta com 1,32% da população brasileira, mas nos registros de mortes pela pandemia alcançamos 1,80%.
SÃO CAETANO LIDERA
O endereço regional mais suscetível aos estragos do Coronavírus é São Caetano desde os primeiros momentos. Os 283 mortos representam 175 casos fatais para cada grupo de 100 mil habitantes. O dobro da média nacional. E 34,28% acima da média do Grande ABC. Diadema desgarrou-se da segunda colocação com 531 mortes para um total de 426.727 moradores. São 124,65 mortes para cada 100 mil habitantes. Está em terceiro lugar. São Bernardo lidera em números absolutos com 1.130 óbitos e assumiu a vice-liderança na métrica mais ajuizada. Morreram 1.130 de uma população de redondos 844 mil habitantes. São 133,88 mortes para cada 100 mil habitantes.
Santo André segue estranhamente com números muito abaixo de São Bernardo, embora quase nada as diferencie em vários vetores. No campo sanitário, do universo de potencial de atendimento em saúde. São Bernardo é mais efetiva. São 105 mortes em Santo André para cada 100 mil habitantes. Muito acima, como se vê, da média nacional. Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra completam a lista com o total de 570 óbitos até agora, ou 17,42 do total regional.
O caso de São Caetano é singular no Brasil e em níveis internacionais. A tempestade perfeita de estar numa região metropolitana de elevadíssima mobilidade urbana, contar com uma população expressiva de idosos e ter alta densidade demográfica, instala São Caetano no topo do ranking nacional. Os 175 mortos por 100 mil habitantes colocam a cidade à frente do Rio de Janeiro, que contabiliza 173.
O problema central é que não somos uma região. Somos um arquipélago de sete ilhas que não se comunicam. O vírus, integrado ao globalismo sanitário, não reconhece fronteiras. Nem a segunda onda (ainda primeira segundo muitos especialistas) possibilitou a arrumação da casa regional. Somos teimosos, cegos e surdos quando se trata de ganho de escala que o regionalismo de complementaridades oferece.
O fracasso do Grande ABC se mede no placar de óbitos pelo Coronavírus quando contraposto à população geral. Essa é a métrica mais ajuizada e sem conotação política e partidária que a mídia em geral despreza nestes tempos de fake news que vão muito além do mundo-cão das redes sociais.
A chamada Grande Mídia que faz tudo para demonizar as mídias sociais também pratica à exaustão trambiqueiras informativas. E isso vem de longe. Muitos que acreditavam na preciosidade ética da mídia tradicional abandonaram o barco da ingenuidade. Os interesses são múltiplos.
TERRENO DA FICÇÃO
E na métrica de confronto entre mortos e respectivas populações que o Grande ABC se dá muito mal. Era previsível que se desse mal. O que não se esperava, apesar do histórico de isolacionismo institucional, é que a integração regional mesmo ante um terrível inimigo, seria mantida no terreno da ficção.
Os eventuais arroubos de ajuntamento regional não passaram mesmo disso. Cada Município cuidou das próprias fronteiras. Ganhos sinérgicos na formulação e execução de medidas cooperadas entre os municípios jamais alcançaram dimensão sequer razoável. Perdemos feio para praticamente todos os concorrentes.
As chamadas comunidades no Rio de Janeiro, especialmente da Favela da Maré, são muito mais articuladas no combate ao vírus chinês do que o Grande ABC cantado em verso e prosa por usurpadores da verdade.
Não existe combustível mais apropriado para o desequilíbrio no combate à pandemia do que deixar às forças incontroláveis do próprio vírus a disposição de fazer vítimas.
QUARTETO DA MORTE
As condicionalidades que o Grande ABC apresenta como alertas à uniformização do que for possível na trincheira de enfretamento do Coronavírus deveriam ser estampadas diariamente pela mídia e em forma de cartazes e faixas em todas as repartições públicas, com adesão em campanhas de entidades privadas. Temos um quarteto da morte a nos rondar mais que na maioria dos territórios brasileiros:
1. Densidade demográfica elevada.
2. Focos de populações mais idosas.
3. Franjas de extrema pobreza.
4. Parte da Região Metropolitana.
Esses quatro vetores são aliados incondicionais do vírus chinês. Está provado tanto em estudos científicos quanto na numerologia da morte.
O governo do Estado, tão cioso em definir o grau de risco da pandemia com a distribuição cromática que torna o vermelho evidentemente mais grave e o verde mais esperançoso, deveria ter produzido algo mais explicitamente didático.
Um mapeamento também cromático, porque explicativo, indicaria as áreas do Estado em que as condições de vulnerabilidade compulsórias deveriam receber tratamento especial, discricionário até.
O Grande ABC e outros municípios da Grande São Paulo seriam destaques. E teriam de adotar medidas operacionais diferenciadas no campo da prevenção que impactasse menos a economia. Seria ponderadamente combativa na origem dos problemas, ou seja, nos respectivos micro territórios locais.
GOVERNADOR E PRESIDENTE
Não foi feito nada disso tanto em nível regional quanto do Estado. A burocracia na esteira de interesses políticos e partidários prevaleceu. Faz-se ainda muito marketing em torno do combate e das medidas redefinidoras de combate à pandemia.
O governo do Estado é especialista em tirar proveito do drama sanitário. Ele ocupa no ranking de oportunismo político espaço semelhante ao do presidente da República em matéria de estupidez permanente. São faces da mesma moeda de despreparo.
A diferença é que o governador passa a imagem de cientificidade em contraponto aos achismos do presidente. Mas ambos têm o mesmo destino popular – são rejeitados por larga parcela da população. Tanto que se esconderam nas disputas eleitorais. Viraram mico.
AO ENCONTRO DA COMUNIDADE
Quando sugeri (e a contagem progressiva mostra isso) que o Clube dos Prefeitos agisse de forma agressiva no combate ao Coronavírus, não faltaram ignorantes e insensatos que desdenharam das medidas adotadas em várias porções do mundo. Ou seja: a comunidade participando ativamente.
Em linhas gerais, propus que o bando de comissionados das prefeituras (um exército que ultrapassa a cinco mil servidores públicos sem concurso) fosse preparado para ir ao encontro dos moradores, sobretudo da periferia. O exército de colaboradores, devidamente treinados, poderia detectar na origem os casos da pandemia e orientar os moradores sobre as medidas a serem tomadas. Haveria, com isso, um filtro que desafogaria as unidades de saúde e abortaria muitas mortes.
Os prefeitos fizeram ouvidos de mercador e os executivos do Clube dos Prefeitos, alienados a ponto de estarem mais preocupados com a inauguração de uma agenda paralela sem a mais ínfima relação com o vírus, além da nova sede do Procon, não moveram uma palha sequer.
PERDENDO O JOGO
O resumo da ópera-bufa é que o Grande ABC não adotou qualquer política preventiva de enfrentamento ao vírus chinês. Houve sim estardalhaços municipalistas que não resistiram às consequências da avalanche de mortalidade.
Em São Caetano, por exemplo, onde mais morrem moradores do que em quase todo lugar do Brasil, entre outras razões porque um quarto da população é formada por gente com mais de 60 anos, os drive-thrus ganharam muita visibilidade e baixíssima eficiência. Os testes em larga escala passavam a quilômetros de distância da metodologia recomendada.
O estado de letargia institucional do Grande ABC, que se aplica em todas as áreas, também contaminou o ambiente de inquietação ditado pelo Coronavírus.
A sociedade desorganizada -- que alguns caras de pau chamam de sociedade organizada -- se manteve distante de qualquer mobilização grupal ou coletiva. Nenhuma instituição saiu da clausura e do raquitismo procedimental.
A dependência da inércia inovadora do Poder Público Municipal manteve-se intocável. Houve uma outra mobilização para sensibilizar os prefeitos seguidores incontestes do governador no fechamento de estabelecimentos comerciais. Nada mais que ações corporativistas.
GÊNESE DA DERROTA
O vírus chinês fez a festa no Grande ABC (e continuará a fazer) porque o Grande ABC é um vasto campo no qual tudo de nocivo cresce e aparece.
Somos uma terra sem lei, bem senso e indignação. Aqui tudo de danoso prospera. Somos a Terra do Sempre em forma de consolidação de uma vasta bagagem de impropriedades culturais que o tempo sugere descarte e esquecimento.
Fingimos que somos uma região quando, de fato, não passamos de sete unidades provinciais que se toleram em nome do politicamente correto de um regionalismo mentiroso e omisso.
Esperar que o vírus chinês, ante tamanha oferta de desprezo à sociedade, tivesse comportamento diferente do que o cardápio de expansão apresenta, é muita ingenuidade.
As mortes que se acumulam são a consequência natural do estágio de paralisia social de um Grande ABC tolerante às falcatruas, desídias, enrolações e falsas verdades de todos os tipos.
Cultuamos a obscuridade. Tratamos uma desgraça sanitária sem um gesto sequer de associativismo de mandachuvas e mandachuvinhas e ante o silêncio acovardado da opinião pública.
QUINTA MATÉRIA
A quinta análise capturada para esta coletânea foi publicada na edição de 12 de abril de 2021 sob o título “Vírus: Grande ABC perde até
para Sapopemba em letalidade” --- acompanhem:
O decadente Grande ABC está pagando o preço de ter-se transformado num dos piores endereços do Estado de São Paulo em comportamento econômico, negligência institucional e desigualdade social neste século. O presente de grego veio em forma de bumerangue com o vírus chinês. No conjunto de sete municípios, a região supera o distrito de Sapopemba, um dos aglomerados humanos mais pobres de São Paulo, no critério de letalidade. Ou seja: morre mais gente na região a cada grupo de 100 mil habitantes do que naquela área da Capital.
Teria sido melhor a pandemia não aparecer no radar de complicações dos administradores públicos municipais. Daria, por conta disso, fôlego suficiente para os triunfalistas continuarem a enfeitar o pavão com ficções que, agora, não resistem à prova dos nove no que há de mais inquietante, ou seja, a incapacidade de traduzir indicadores sanitários em eficiência administrativa.
Se no âmbito da regionalidade o Grande ABC é um fracasso frente ao desprezado Sapopemba, um dos piores indicadores de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano entre os distritos da Capital) em termos municipais o desastre é semelhante.
SÃO CAETANO MAIS LETAL
A festejadíssima São Caetano, com o menor estrato municipal de pobres e miseráveis relativamente à população no Grande ABC, ultrapassa de forma ainda mais vexaminosa o território à Leste da Capital. O constrangimento é acompanhado por Santo André e São Bernardo. Ou seja: as peças geoeconômicas mais tradicionais e mais consolidadas da região apanham duramente de um distrito carente da vizinha Capital.
A Folha de S. Paulo dedicou uma página inteira na edição de ontem ao estágio de precariedade de Sapopemba no enfrentamento do vírus. A manchete de página (” Número de óbitos de Sapopemba é maior que o de 626 cidades de SP”) expressava um conteúdo detalhista.
Não é preciso dizer que a reportagem seria muito mais bombástica se o confronto fosse entre Sapopemba e a ainda cultuada região do Grande ABC, como a Grande Mídia trata este território outrora avançadíssimo em relação à média brasileira graças sobretudo à chegada da indústria automotiva.
A diferença entre a reportagem da Folha de S. Paulo em relação ao que CapitalSocial publica neste texto é que traduzimos a quantidade de mortes de números absolutos para números relativos, padrão estabelecido pela ONU (Organização das Nações Unidas).
Essa métrica-padrão determina a divisão de casos letais pelo número de moradores. A conta mais comum é definir resultado para cada grupo de 100 mil ou um milhão de habitantes. CapitalSocial adota desde as primeiras informações sobre o Coronavírus o padrão por 100 mil habitantes em caso de municípios. Também o utiliza nas comparações entre países, embora estenda os dados ao padrão “por milhão de habitantes”.
MÉTRICA IDEAL
Não tem sentido prático e explicativo desprezar a métrica por 100 mil habitantes ou um milhão de habitantes. Exceto quando se pretende trabalhar os números de forma inadvertidamente culposa ou deliberadamente dolosa, Territórios de tamanhos populacionais distintos não podem ser dispostos como se fossem iguais ou semelhantes.
Números absolutos enganam tanto que retiram qualquer resquício de interpretação ajuizada. Exemplos não faltam em todas as atividades. Na área de Segurança Pública, municípios e Estados são uniformizadas com a adoção do critério que leva em conta cada grupamento de 100 mil habitantes. O Estado de São Paulo é em números absolutos campeão destacado em homicídios no País. Entretanto, quando entra em campo a razoabilidade populacional, é um dos pontos da Federação de menor incidência de mortes.
Parece exagero ter de repetir de vez em quando esse conceito, mas a audiência rotativa impõe esclarecimentos. As redes sociais são termômetro desse desconhecimento ou da tática de tergiversar. Sempre que se anuncia em chamada de aplicativo a publicação de determinada análise que leve em conta critério por 100 mil habitantes, não faltam objeções sem fundamentação técnica. A discordância geralmente é político-partidária, quando não ideológica. As redes sociais são um festival de provocações em forma de contestações vazias.
NÚMEROS DESANIMADORES
O confronto entre o Distrito de Sapopemba e o Grande ABC é ultrajante quando se tem a história de desenvolvimento econômico da região. Badaladíssima pela mídia triunfalista como a sétima maravilha do capitalismo brasileiro, a região registrava ontem, segundo informações do jornal digital Reporter Diário, 6.526 óbitos por causa do vírus chinês. Com 2.807 milhões de habitantes, chega-se ao registro de 232,49 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Já a Folha de S. Paulo contabilizava 667 mortes em Sapopemba, que, divididas por 300 mil habitantes resulta em 222,33 mortes pelo mesmo padrão populacional.
A situação do Grande ABC, município por município evidencia o que é São Caetano no balanço geral do Coronavírus um ano depois do primeiro caso de óbito. Com população de 161.957 habitantes, São Caetano registra 583 mortes, ou 359,97 para cada 100 mil habitantes. Traduzindo: o morador de São Caetano corre 38% mais risco de morrer do vírus chinês do que o morador do Distrito de Sapopemba.
Embora em outros confrontos São Caetano tenha o respaldo de que conta com alguns vetores decisivos à vulnerabilidade na pandemia, caos de densidade demográfica, população de idosos e localização na Grande São Paulo, na disputa de letalidade com Sapopemba há menos atenuantes.
MORFOLOGIA SEMELHANTE
Com apenas 13,5 quilômetros quadrados de território e 300 mil habitantes, Sapopemba só tem mesmo de diferencial de São Caetano como passivo compulsório a menor proporção de habitantes com mais de 60 anos. Em São Caetano são 23% da população. Faltam números de Sapopemba, mas a demografia ocupacional sugere que a participação da população idosa é bem inferior.
Santo André também registra mais letalidade por 100 mil habitantes do que Sapopemba. São 1.771 óbitos até ontem para uma população de 721.368 habitantes, o que dá 245,50 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes. Um pouco mais que São Bernardo, também superior a Sapopemba. A Capital Econômica do Grande ABC, um dos endereços que mais se empobreceram no País neste século, registra 1.974 óbitos pelo Coronavírus para uma população de 844.483 habitantes, ou 233,75 por 100 mil habitantes.
Diadema tem características semelhantes à do Distrito de Sapopemba em densidade demográfica, situação geográfica na Grande São Paulo e na ocupação por classes sociais. E registra média por 100 mil habitantes inferior ao distrito da Capital, com 205 mortes. Um pouco abaixo dos 211 por 100 mil habitantes de Mauá, com população de 477.552 mil habitantes e 1.011 casos letais. Ribeirão Pires de 124.159 habitantes registra 234 óbitos, o que dá 188 por 100 mil habitantes. Rio Grande da Serra de 51.436 habitantes registrou até ontem 76 mortes, o que dá como resultado 147 para cada grupo de 100 mil habitantes.
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