Regionalidade

Novos prefeitos precisam ter
a harmonia de boa orquestra

DANIEL LIMA - 05/01/1997

Os prefeitos que assumem neste mês a gestão de 48 meses nos Municípios do Grande ABC só não conhecem o fardo de responsabilidade que os espera se estiverem no mundo da lua. O quadro socioeconômico regional não permite mais improvisações, sob pena de agravarem-se os indicadores de precarização da qualidade de vida.


Resta saber se, embora pressupostamente conhecedores da situação regional, esse grupo vai reunir apetrechos técnico-operacionais para interpretar sem teimosia e personalismo uma canção que exige a harmonia de uma orquestra, ou se vão mesmo fantasiar-se administrativamente com os farrapos do Exército de Brancaleone.


Embora tenham surpreendido os mais ajuizados, ao se apresentarem em bloco, antes da posse oficial, para fotografias, o passado do Consórcio Intermunicipal recomenda cautela. A unidade numa foto é tão consistente quanto a realidade do Mortal Combat em game.


Esse bloco de prefeitos que assumem o Consórcio Intermunicipal representa a terceira tentativa de o organismo lancetar o tumor do descaso institucional integracionista. O primeiro bloco, do qual fizeram parte quatro dos atuais sete ocupantes dos Paços, casos de Celso Daniel, Luiz Tortorello, Maurício Soares e Cido Franco, até que ensaiou trabalhos, embora os temas fossem restritos a algumas áreas.


O segundo bloco, que retirou o time de campo agora, praticamente nada fez, exceto através do pandeiro solitário de Valdírio Prisco, cujo ritmo não satisfez a platéia porque único e monocórdico.


É provável que a experiência anterior leve esse quarteto a consolidar o envolvimento dos outros três prefeitos. Maria Inês e Oswaldo Dias naturalmente serão catequizados por Celso Daniel, seguindo ritual corporativista (sem preconceito) do Partido dos Trabalhadores. Gilson Menezes tem-se mostrado interessado no assunto.


A maior proximidade entre os sete prefeitos, ação inerente de um Consórcio ativo, poderá amenizar a perspectiva de deflagração de guerra fiscal interna na região. É até recomendável que o Custo ABC sofra duros reveses, até porque está provado que menores impostos significam maiores níveis de arrecadação, mas não é sensato provocar rupturas no relacionamento dos integrantes do Consórcio e desequilíbrios nos cofres públicos com ações isoladas, como as que insinuaram Tortorello e Menezes.


Além disso, a visão puramente fiscalista como estímulo à engorda da arrecadação, pressuposto da queda de alíquotas municipais, é recomendação típica de quem prefere enxergar o quarto pelo buraco da fechadura, em vez de abrir a porta. A não ser que se trate de voyerismo econômico, não se admite que uma série de medidas, entre as quais a elaboração de densa pauta destinada a melhorar a infra-estrutura viária regional e a aquecer o inter-relacionamento mais consistente dos agentes econômicos internos, deixe de constar da agenda dos novos governantes.


O breve histórico do Consórcio Intermunicipal não confere aos novos membros a confiança de quem se debate contra o municipalismo bairrista que forjou a tradição do Grande ABC. As barreiras culturais ainda resistem. Os limites territoriais que deveriam servir apenas de referências das cartas geográficas ainda funcionam como trincheiras do individualismo.


Grande ABC continua a ser uma expressão ousada, prospectiva, sonhadora. É verdade que houve avanços nos últimos tempos, por força de movimentos como o do Fórum da Cidadania, mas ainda se está distante do necessário. Os novos prefeitos não podem perder essa perspectiva. Por mais que façam em seus municípios, sempre será pouco diante das demandas metropolitanas, que são sinérgicas, contaminadoras, interdependentes.


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