É impossível compreender o Grande ABC deste novo ano, que avança na terceira década do século, sem recorrer às entranhas econômicas, sociais e culturais a partir de um determinado marco temporal significativo, porque transformador. Dividimos o Grande ABC de sete partes municipais em quatro períodos, a partir da década de 1960 e sempre tendo como pano de fundo conceitos de regionalidade, amálgama de Desenvolvimento Econômico.
Não vamos espalhar dados estatísticos exaustivamente expostos ao longo dos anos. O voo panorâmico é um convite especialmente direcionado ao embarque de jovens autoridades públicas que, à frente das prefeituras, desconhecem a herança que receberam e, por conta disso e da mistificação de medidas, colaboraram para elevar a temperatura de depauperação social. Todos viraram ferramentas de alquimias de marqueteiros profissionais.
As quatro gerações em que subdividimos o Grande ABC não são compartimentos autônomos. A genealogia cultural implícita nessa breve análise tem a fundamentação sociológica da lógica complementar, de camadas que se sobrepõem e cujos pesos relativos no percurso definido são relativamente maiores ou menores, de acordo com a cronologia inescapável.
MOVIMENTO INTERGERACIONAL
Isso quer dizer entre outras coisas que resistem na percepção regional valências da primeira etapa desse trabalho, da Geração Abastada, mas é cada vez menos relevante os valores que comunga. A Geração Abalada, dos anos 1980-2000, conta com peso maior que a primeira, mas está distante da Geração Deserdada e também da Geração Desintegrada, pós-2020 e em plena ação.
O que existe em comum entre essas quatro janelas do tempo é a ideia equivocada de que o Grande ABC da proteção do Regime Militar da Geração Abastada ao diversionismo da Geração Desintegrada do presente, passando pela Geração Abalada e pela Geração Deserdada, não saiu Conto de Fadas para o Conto do Vigário. Por mais que os fatos mostrem que a lua de mel dos indicadores de riqueza permanente está comprometida, forças políticas de comando agem como se tudo fosse como antes.
Embora o Grande ABC jamais tenha resvalado com solidez no conceito clássico de capital social, de cooperação entre diferentes ocupantes de esferas públicas, privadas e sociais, a realidade destes tempos de quarta geração é que atingimos excessos de individualismo como padrão de comportamento.
Resumidamente, o que se verá em seguida é a exposição de um gigantesco laboratório social que o tempo retirou de uma plataforma de encantamento para lançar às traças do descaso. O Grande ABC está cada vez mais, e em todos os sentidos, semelhante à média nacional. Com a diferença letal de que o primo rico do passado experimentou o que existia de mais gratificante como sociedade e a cada nova temporada se vê na condição de primo pobre que antes esnobava.
GERAÇÃO ABASTADA
SOB PROTEÇÃO MILITAR
O Grande ABC da Geração Abastada viveu anos dourados. Um Conto de Fadas Econômico e Social predominante entre 1960 e 1980. Tudo, absolutamente tudo, conectado a uma engrenagem do destino macropolítico federal. O território regional dividido a partir de meados do século passado em sete partes de olho nas vantagens da riqueza que exalava em cada espaço não encontrava barreiras para dar saltos de prosperidade. O bilhete premiado federal contemplava a todos.
A indústria automotiva se concentrava com a fanfarra protecionista e incentivadora do Estado Federal comandado pelos militares. Os mandamentos do Estado nacionalista e dirigista determinavam a substituição de importações. E atraia diferentes cadeias produtivas, diretamente ou não relacionadas à estrutura sobrerrodas.
Havia sólida perspectiva para todos num Grande ABC chamado ABC Paulista. A que se tornaria poderosíssima indústria automotiva se instalava sem gerar desconfiança de que envolveria também dupla face de uma enfermidade insidiosa. Do céu ao inferno seria um pulinho. E o inverso também. Especialmente no mundo automotivo.
MUDANÇA DE EIXO
A Doença Holandesa Automotiva é a contraface da oportunidade em forma de perigo. A Doença Holandesa Petroquímica é menos invasiva, menos instável, mas interfere diretamente no organismo econômico e social. Tanto uma quanto outra plantaram bases no Grande ABC. E seguem influenciando decididamente os resultados econômicos, à falta de inovações setoriais fora do enquadramento de produção industrial.
São Bernardo, servida pela Rodovia Anchieta, desbancava Santo André como Capital Econômica da região. A Avenida dos Estados e o paralelismo físico-operacional com o transporte ferroviário, desbravadores da industrialização do Grande ABC, aos poucos tornavam Santo André secundária a investimentos e empregos. O Brasil rodoviarista encontrava em São Bernardo a matriz de novos tempos.
Nada, absolutamente nada, aflorava no horizonte naquele período que pudesse sugerir inquietação. Menos, claro, ambientalistas de olhos abertos na chegada de chaminés poluidoras e de esgotos industriais refratários a tratamento preventivo. O vale-tudo de investimentos industriais encantava pela força arrecadatória dos municípios. Quanto mais Valor Adicionado Industrial, mais repasses do ICMS, então a força-matriz dos cofres públicos. Era um círculo virtuoso do Desenvolvimento Econômico com repercussão social.
GIGANTE METROPOLITANO
A Grande São Paulo contava com o maior mercado consumidor do País. A indústria paulistana já dava sinais, nos anos 1970, de que pretendia deslocar-se à vizinhança mais próxima do Litoral para fugir dos primeiros sinais de exaustão da qualidade de vida em forma de mobilidade urbana e do custo da terra mais concorrida.
O Grande ABC estava geograficamente próximo e oferecia vantagem à ocupação industrial. O Porto de Santos e o Aeroporto de Congonhas eram cerejas do bolo de competitividade.
Competitividade ainda não constava do léxico econômico no sentido dos tempos modernos. O protecionismo do Governo Militar era a senha ao sucesso. Bastava investir. Inclusive com dinheiros subsidiados do próprio Estado. Déficit fiscal e outros instrumentos de medição da eficiência estatal não incomodavam. A Economia nacional crescia em média dois dígitos a cada temporada.
O Grande ABC contava com 80% da produção nacional de veículos. Os militares caprichavam no presente desenvolvimentista. Os políticos locais não tinham nada a ver com isso. Eram tempos de autonomia completa entre os poderes também no sentido prático de ser. O Grande ABC era visto apenas como ponto de referência geográfica com embocadura logística. As montadoras e as autopeças desembarcaram sem riscos.
EMPREGOS FÁCEIS
Os migrantes chegavam aos borbotões. Havia empregos industriais também a parentes que, distantes, esperavam um comunicado qualquer para ocuparem as fábricas. A disputa entre as empresas por trabalhadores era fortíssima. Cadernos de classificados e também do mercado imobiliário forravam as páginas dominicais do Diário do Grande ABC.
Não havia entre os fornecedores das montadoras nada que lembrasse o que os especialistas chamavam de cluster – cooperação produtiva. A substituição das importações, dogma dos militares, dispensava cuidados mais agudos com custos de produção.
O mercado nacional fechadogarantia produtos às camadas que avançavam em mobilidade social. O Brasil rural ganhava musculatura urbana. O deslocamento do campo às cidades causava grandes mudanças especialmente na metrópole. O Brasil-Belíndia se estabelecia também no Grande ABC. A Classe Média Tradicional de pequenos industriais e comerciantes ganhava musculatura.
O Grande ABC protegido por politicas do Estado Militar usufruía do monopólio automotivo. Os preços dos veículos eram corrigidos por critérios nem sempre transparentes, na maioria dos casos arbitrários. O consumidor pagava. Veículos para a classe média ascendente, eis a mágica.
O Brasil inteiro pagava o protecionismo ao Grande ABC. Entenda-se Brasil inteiro como a camada de classe média com acesso aos produtos da região.
SINDICALISMO CONTROLADO
O sindicalismo estava sob controle. A reserva de mercado automotiva dispensava aferição de custos eventualmente descolados da produção. A mão forte e invisível do Estado tornava o Grande ABC referência internacional complementar de crescimento econômico. Era inescapável correlacionar o Grande ABC à Detroit norte-americana antes da invasão dos japoneses do outro lado do território norte-americanos com produtos mais competitivos. Algo semelhante se veria mais tarde no Grande ABC com a descentralização da produção automotiva.
Quem chegou no Grande ABC durante o período 1960-1980 só não encontrou a felicidade de emprego transformador do status social caso não tivesse juízo. Havia oferta abundante. Mesmo para quem trocasse um cabo de enxada por uma bigorna.
A demanda por trabalhadores industriais tornava a mão de obra valorizada em todos os setores. Por mais que metalúrgicos automotivos fossem a elite dos trabalhadores, as demais atividades revelavam-se promissoras. Mas o tempo e as reivindicações trabalhistas dos metalúrgicos contaminaram o custo da mão-de-obra nos demais setores. A desindustrialização tornou-se compulsória.
CULTURA E PRODUTIVIDADE
O tempo mostraria com dados estatísticos de grandes corporações, como a Volkswagen, entre outras, que durante muito tempo se confundiria inadvertidamente gato de cultura manufatureira com lebre de qualidade manufatureira. O discurso ufanista de que fora do Grande ABC não haveria vida operacional nas montadoras de veículos e de outras atividades fabris foi par o lixo.
Novas tecnologias, aplicadas nas décadas seguintes, relevaram que mão-de-obra pioneira e protegida pelo Estado não é necessariamente mão-de-obra qualificada para os padrões internacionais. A cultura dos trabalhadores nas fábricas do Grande ABC, especialmente do setor automotivo, não resistia às inovações. A produtividade entrou em campo e aplicou golpes seguidos na quantidade dos efetivos operacionais.
O ambiente regional durante a Geração Abastada não comportava qualquer preocupação com transtornos criminais. A prosperidade nacional e particularmente regional superava largamente os primeiros sinais de que grandes conglomerados humanos de regiões metropolitanas começariam a sabotar as bases da qualidade de vida.
As prefeituras dos anos 1960-1980 nadavam em dinheiro. Os orçamentos reservavam em média, durante muitos anos, mais de 50% para obras e investimentos em Educação e em Saúde. Era a farra do boi na construção de um urbanismo que só sucumbiria mais tarde. Hoje é preciso recorrer a empréstimos para sustentar planos de investimentos, sobremodo em infraestrutura física cada vez mais comprometida.
GERAÇÃO ABALADA
E FORA DE CONTROLE
O Grande ABC do Conto de Fadas começou a desaparecer já no final dos anos 1980, com duas movimentações que se complementaram – os trabalhadores foram à luta em busca de um pacote de demandas e a concorrência, incentivada pelo Estado Estadual, descobriu os poderes da guerra fiscal. Era a consumação da água de beligerância entre capital e trabalho morro abaixo e do fogo de evasão industrial morro acima.
O Grande ABC do futuro que chegou neste século foi moldado ou remoldado pelo Grande ABC da Geração Abalada nos anos 1980-2000. Como se houvesse um tratado inexorável que precisaria cumprir para expiar pecados de descuidos, descasos, arrogância e tudo que a Geração Abastada vivenciou na plenitude, o Grande ABC enfrentou provações dolorosas.
No campo econômico, pedra de toque do equilíbrio social, o Grande ABC assistiu ao surgimento mais retumbante e o início da queda mais preocupante das conquistas e dos embaraços do movimento sindical, agora num ambiente de competição. Como se já não bastassem os conflitos entre capital e trabalho, os Estados descobriram que a guerra fiscal poderia ser um atalho a incursões desenvolvimentistas.
Dois novos obstáculos colocaram os sete municípios numa espécie de frigideira econômica por conta dessa dose dupla de estremecimento de uma região que até então não conhecera qualquer solavanco mais pronunciado das estruturas sempre em ritmo de avanços.
ABERTURA DAS FRONTEIRAS
O Plano Collor no começo dos Anos 1990 abriu os portos a importações num País até então protegidíssimo pelo Estado e ganhou impacto com a tentativa de zerar a inflação a fórceps. Foi um desastre. Mas não demorou para, em 1994, o governo de Itamar Franco finalmente chegar ao que todos os anteriores pós-Regime Militar tanto pretendiam: enjaulou o dragão da inflação com plano ousadíssimo que, apesar de sequelas como o aumento da carga tributária e outras anomalias, proporcionou o encontro com um horizonte de visibilidade de tarde de verão. Os dias tormentosos de inflação destruidora de planejamento ficariam no passado.
Mas o Grande ABC da Geração Abalada praticamente não usufruiu de nada disso como fonte compensatória. Os ajustes empresariais para contornar adaptações às planilhas de custos até então escamoteadoras do nível de competitividade, tornaram obrigatórios investimentos em máquinas, tecnologias e processos.
Alfândegas liberadas incrementaram a arrumação de custos operacionais. Conclusão? Um incremento ainda mais vigoroso de êxodo industrial durante os anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, a partir de 1995, já sob efeitos do Plano Real.
Jamais em toda a história do Grande ABC, até então, houve tantos danos econômicos. Durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, encerrado em 2002, um pouco além, portanto, do marco temporal da Geração Abalada, o PIB do Grande ABC perdeu um terço dos valores registrados logo após a implantação do Plano Real, que, por sua vez, já sofrera impactos de Collor de Mello.
A destruição do potentado de pequenas e médias indústrias provocou grande parte das 85 mil demissões líquidas registradas no governo FHC. Propriamente entre 1990 e 2000, o Grande ABC perdeu 100 mil empregos industriais. As pequenas empresas foram engolidas pelo capital internacional em forma de fusões e aquisições. Como se não bastasse a evasão rumo principalmente ao Interior do Estado e ao Sul de Minas.
MUDANÇA DE PERFIL
Com o desabamento do emprego industrial, o Grande ABC passou a viver catástrofe econômica e social complementar semelhantemente cruel: os desempregados da produção viraram desempregados ou empreendedores por sobrevivência. Explodiu o número de pequenos comércios e serviços em contraste com a queda de riqueza. O empreendedorismo forçado pela fornalha da derrocada econômica se juntava à água fervente de desesperança de rebaixamento continuado de trabalhadores industriais.
Entretanto, a desgraça ainda não estava completa: grandes empreendimentos nacionais nas áreas de shopping, supermercados e franquias começaram a desembarcar num Grande ABC com fama de riqueza acumulada. Áreas industriais desativadas abrigaram os invasores. O Grande ABC da Geração Abalada trocava o industrial pelo setores de comércio e serviços.
Mesmo sem se darem conta das dimensões de mudança, autoridades públicas e econômicas patrocinaram os dois movimentos mais animadores daquele período: com a liderança de Celso Daniel, o Clube dos Prefeitos foi lançado em dezembro de 1990 e, em meados da mesma década, surgiu o Fórum da Cidadania, com o envolvimento de inúmeras lideranças de representações da sociedade.
Em seguida, sob pressão institucional do Fórum da Cidadania, Celso Daniel, reeleito prefeito de Santo André em 1996, reativou um Clube dos Prefeitos moribundo e criou dois organismos regionais potencialmente transformadores – A Câmara Regional e a Agência de Desenvolvimento Regional. A institucionalidade do Grande ABC estava em alta. Mas ainda não havia a percepção coletiva do quanto a desindustrialização corroía as entranhas de prosperidade da Geração Abastada.
GERAÇÃO DESERDADA
NUM MAR DE PROBLEMAS
Não há como sofismar sobre os anos 2000-2020. Trata-se do período mais ruinoso da história do Grande ABC. A Geração Deserdada naufragou num mar de problemas. O que parecia insuperável na Economia, como algo mais calamitoso que o período de oito anos de Fernando Henrique Cardoso, com a destruição das pequenas indústrias, virou fichinha nos dois últimos anos de segundo mandato de Dilma Rousseff.
A Geração Deserdada perdeu Celso Daniel, ganhou Lula da Silva como presidente da República, teve em Dilma Rousseff tormentos econômicos monumentais e viu desaparecerem nas profundezas de águas de competitividade as supostas vantagens de fazer vizinhança com a maior cidade da América do Sul.
O Grande ABC da Geração Deserdada ainda não se dava conta dos rescaldos da Geração Abalada em muitos ambientes políticos tão festivos quanto tecnicamente ridículos. Ainda se acreditava que estar próximo a aeroporto e a porto sustentaria investimentos e produção. Os botocudos de piloto automático sempre desprezam o dia de amanhã que muitas vezes torna o hoje sucata.
Em logística de tempos tecnologicamente enriquecidos a menor distância entre dois ou mais pontos perdeu a razão de ser como referencial de competividade. Vale mais a melhor distância entre dois ou mais pontos. Menor e maior são mundos logísticos bastante distintos.
CONCORRÊNCIA FORTE
O Grande ABC debilitado como área de mobilidade urbana no interior da insana Grande São Paulo assistiu passivamente à consumação de um desastre operacional: perdeu a viscosidade no fluxo entre matéria-prima , peças, acessórios e produto acabado das fábricas.
Tudo isso se agravava quando se levavam em conta também as vantagens da concorrência do Interior do Estado mais próximo da metrópole paulistana. Embutia-se também o ambiente sindical. Os custos de produção afetam a rentabilidade dos negócios.
Celso Daniel morreu assassinato em janeiro de 2002 e desde então a regionalidade do Grande ABC, que ensaiou alguns passos progressivos nos anos 1990, tornou-se ainda mais fantasiosa. Os movimentos institucionais do Grande ABC dos anos 1990 desapareceram. O Fórum da Cidadania sumiu do mapa de organizações sociais, o Clube dos Prefeitos viveu de alguns suspiros e contínuas asfixias, a Agência de Desenvolvimento Econômico mal se sustenta numa burocracia que ignora a realidade da região. A Câmara Regional, que reunia inclusive secretários estaduais, foi descartada antes mesmo de Celso Daniel virar lembrança.
A eleição de Lula da Silva em 2002 poderia ter significado uma guinada regional, mas ficou longe disso. É verdade que no segundo mandato presidencial, entre 2007 e 2010, Lula da Silva incrementou gastos públicos e investimentos na esteira do recordes de exportação de commodities aos asiáticos, especialmente os chineses. Resultado? O setor automotivo, ponto de equilíbrio da economia regional, disparou em produção.
GANHOS TEMPORÁRIOS
Deve-se reconhecer que foram anos espetaculares, mas faltou o essencial: as circunstâncias não reconfiguraram a base estrutural duramente abalada nos anos 1990. Não houve reestruturação profunda das empresas, por mais que procurassem atualizar processos e tecnologia.
Em contraposição, a concorrência nacional se mostrou mais vigorosa. O Grande ABC de 80% da produção automotiva dos anos 1970 caiu para 10% nos anos 2010. Essa contabilidade nacional preocupa na medida em que o setor automotivo segue preponderante no tecido produtivo do Grande ABC. Depender demais de uma atividade cada vez menos participativa no bolo nacional aumenta o grau de risco.
Os efeitos positivos, mas circunstanciais do governo Lula da Silva não recuperaram as perdas consolidadas de Fernando Henrique Cardoso. E, para complicar ainda mais o desequilíbrio, os bons resultados de Lula da Silva foram dinamitados nos dois últimos anos da sucessora Dilma Rousseff. O Grande ABC perdeu 30% do PIB per capita entre 2015-2016. Dilma pegou o rabo de foguete de gastança de Lula da Silva e com muita incompetência levou o País à maior crise econômica da história.
EVASÃO DE CABEÇAS
Muitos dos executivos públicos que Celso Daniel selecionara para comandar a Prefeitura de Santo André nos anos 1990 migraram para o governo federal petista. Paradoxalmente, as relações com o Grande ABC praticamente desapareceram. Até mesmo sindicalistas da região, distribuídos no governo federal petista, perderam contatos práticos com o Grande ABC.
Menos os grupos de Luiz Marinho e Carlos Grana, ex-dirigentes metalúrgicos de São Bernardo. Eles viraram prefeitos em São Bernardo e em Santo André. Apesar disso, ao longo da trajetória da Geração Deserdada, o Grande ABC só acumulou perdas. Conceitos transformadores de Celso Daniel deram lugares a ações reticentes, quando não a omissões.
Supostamente teria havido resposta positiva favorável ao Grande ABC com a criação da Universidade Federal, em Santo André. A medida foi reivindicada por lideranças locais, especialmente ligadas ao Partido dos Trabalhadores. Entretanto, o modelo adotado, sem qualquer intimidade com vocações econômicas da região, não alterou em nada a rota de descaminhos.
A UFABC é uma constelação de acadêmicos mais interessados em buscar o estrelato nacional e internacional com artigos e estudos. O perfil acadêmico de modelo que desfila em passarelas internacionais sufocou a imperiosidade de contar com um artilheiro de foco pragmático. São tênues os fios de integração entre a universidade federal e a sociedade produtiva do Grande ABC. Como de resto nas demais organizações acadêmicas, públicas ou não. Promessas e promessas de mudança desse roteiro se repetem. Fóruns já foram prometidos, alardeados, mas não passaram pelo crivo de efetividade.
RODOANEL DEMOLIDOR
Como se os desastres estratégicos fossem poucos, principalmente porque o Clube dos Prefeitos jamais se organizou coletivamente de forma a dar conta do recado para valer, o Grande ABC ainda foi penalizado durante a Geração Deserdada com alterações gravíssimas na área econômica.
O Rodoanel Mário Covas chegou primeiro com o Trecho Oeste, que privilegiou a região de Osasco e Barueri. Em seguida, a construção do traçado Sudeste, que envolve o Grande ABC, foi tão restritiva em acessibilidade, pressionado por exigências ambientais, que, como um presente de grego, elevou a temperatura de complicações.
Uma nova onda de desindustrialização se consolidou. Portos, aeroportos e suprimento produtivo se tornaram mais ágeis fora do enclausurado Grande ABC. Não demorou para a Grande Osasco, ou Grande Oeste, ultrapassar o Grande ABC no PIB, um medidor inapelável de produção de riquezas.
O trecho Leste do Rodoanel também se completou nos anos 2010,mas com impactos deletérios menos pronunciados no Grande ABC. Os danos maiores e que mitigaram os resultados do novo traçado foram causados pela opção cronológica que favoreceu a região de Osasco e também a Baixada Santista por causa das restrições de acessibilidade ao Grande ABC.
PRESENTE DE GREGO
O Rodoanel passa apenas tangencialmente pelo Grande ABC, com escassos três acessos. A região de Osasco está intestinamente ligada à obra, com uma dezena e meia de entroncamentos. As entranhas do Rodoanel fazem parte da geografia da Grande Osasco-Barueri.
Talvez o ponto supostamente mais positivo do Grande ABC durante a Geração Deserdada tenha sido mesmo a criminalidade, reduzida drasticamente. Os índices de homicídios desabaram em todo o Estado de São Paulo, e não poderiam ser diferentes na região. Tudo se deu após o assassinato de Celso Daniel.
A Secretaria de Segurança Pública do então governo Geraldo Alckmin rompeu com a herança de Mário Covas logo após a repercussão internacional do assassinato de Celso Daniel. A chamada política de Direitos Humanos para criminosos foi desativada. O crime organizado reagiu com gradual descentralização de atividades. Menos homicídios e mais ações paralelas até se transformar numa organização de cunho empresarial e social em paralelismo com os buracos operacionais do Estado.
GERAÇÃO DESINTEGRADA
EM DIREÇÃO AO PRECIPÍCIO
O Grande ABC já ultrapassou o primeiro quinquênio da Geração Desintegrada, de 2020 a 2040, ao colecionar inúmeros rescaldos de gerações anteriores. Os próximos 15 anos deverão encaminhar-se à complexa prestação de contas histórica. E as possibilidades de reação sob o escrutínio da lógica de que o passado virou presente de forma agressivamente destruidora não são motivo a expectativas otimistas.
É melhor pensar o pior. E o pior é o Grande ABC tornar-se cada vez mais semelhante à média nacional na Economia e no conjunto da sociedade. Ou seja: o rebaixamento é um encontro de águas na medida em que o Brasil sobe discretamente enquanto o Grande ABC insiste em perder fôlego.
Na campo institucional, quem apostar no festejado fortalecimento do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Regional vai quebrar a cara. Existe muito marketing dos novos comandantes dos paços municipais. Nunca os marqueteiros profissionais foram tão utilizados como doutrinadores de superficialidades levadas à salvação da lavoura. Os marqueteiros estão a topo vapor.
O Clube dos Prefeitos se resume tragicamente a buscar recursos no Estado e na Federação. Não há uma viva alma que fale e faça alguma coisa profunda como Planejamento Estratégico Econômico. O Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico desprezam especialistas. Os cargos gerenciais são ocupados de acordo com interesses políticos e partidários.
RÉPLICA DE PREFEITOS
Depende do presidente de plantão e dos alinhamentos traçados. Meritocracia não combina com as duas entidades. O passado se repete. A diferença é que agora as mídias são mais condescendentes e os agentes públicos mais agressivos na carnavalização de supostas conquistas. Ainda outro dia 50 gatos pingados se reuniram numa sala de cinema para acompanhar um filmete dos 35 anos do Clube dos Prefeitos. Um festival de promessas e lorotas. Às favas os fatos.
O Clube dos Prefeitos reverbera administrações municipais. Mais uma vez se repete antiga cantilena de desprezo à Secretaria de Desenvolvimento Econômico de cada Município. As nomenclaturas que identificam as pastas são variadas, sofisticadas, esticadas e tudo mais. Pena que não haja efetividade técnico-operacional.
Os projetos são rarefeitos, sem qualquer sinergia interna. Como imaginar algo diferente em forma de regionalidade? Os secretários do setor no Grande ABC são concorrentes entre si. As demandas municipais não suportam compartilhamento regional.
Criadas na segunda metade dos anos 1990 por iniciativa do prefeito Celso Daniel, as secretarias de Desenvolvimento Econômico apenas episodicamente efetivaram alguma iniciativa. E mesmo assim longe das premissas de combate ao esquartejamento da Economia regional.
Não há no organograma das prefeituras e tampouco no orçamento equipes técnicas preparadas para uma virada na mesa de descaso com o Desenvolvimento Econômico e, com isso, inverterem a ordem do jogo administrativo.
RISCOS MAIORES
O risco de novas estocadas de desindustrialização segue rondando o ambiente regional. A chegada do trecho Norte do Rodoanel, com Guarulhos, Mogi das Cruzes e outros municípios no circuito vizinho, vai enfraquecer ainda mais a competitividade do Grande ABC na metrópole. Mas não faltarão tolos desfilando farrapos de argumentação sobre logística, mão-de-obra incomparável e tantas outras bobagens.
O Grande Norte, de Guarulhos e Mogi das cruzes, como poderia ser chamada a área geográfica na Região Metropolitana de São Paulo, está prestes a ultrapassar o Grande ABC no PIB. A diferença de quase 30% registrada há três décadas caiu para menos de 2%. Ou seja: têm-se praticamente um empate técnico. É possível que na próxima apuração do IBGE, correspondente do ano de 2024, a virada ocorra.
Essa virada no placar do PIB, de geração de riqueza em produtos e serviços, ocorreu com a Grande Oeste liderada por Osasco e Barueri. A chegada do trecho Norte do Rodoanel deverá repetir o roteiro do trecho Oeste e acentuar a iminente ultrapassagem da região de Guarulhos até o fim desta década.
O comércio varejista, que viveu a intensidade de concorrência interna, de desempregados industriais, nos anos 1980-2000, seguida da concorrência de grandes competidores que aportaram no Grande ABC, já sofre com o comércio eletrônico. O abalroamento será ainda mais impactante. Grandes plataformas do setor já desembargaram na região com centros logísticos sofisticados.
INDÚSTRIA ENCALACRADA
A logística do Grande ABC é cada vez pior para o setor industrial. O trânsito caótico compromete o fluxo de suprimento de insumos, peças e componentes. Entretanto, é um prato cheio de oportunidades ao comércio eletrônico pela densidade demográfica e o drible da vaca do atendimento à demanda dos consumidores.
As chamadas entregas de última milha colocam os pedidos às portas da clientela e, com isso, dão produtividade aos empreendimentos. A concentração de quase três milhões de habitantes em 800 quilômetros quadrados barateia o custo de entrega com veículos de pequeno porte abastecidos nos centros logísticos.
O noticiário descuidado, quando não encomendado, dá conta de que as plataformas de comércio eletrônico gerariam milhares de empregos. Desconsideram-se os efeitos colaterais de fechamento de pequenos negócios locais. Foi assim durante a Geração Abalada dos anos 1990.
Se os bárbaros estremecem as estruturas do varejo regional com o comércio eletrônico, no setor industrial ganham contornos ameaçadores. Até sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo aplaudem a chegada de montadoras chineses e seus carros elétricos no País.
A participação relativa das montadoras locais sofre perda sequencial. A eletrificação tem custo elevado: as empresas de autopeças seriam reduzidas drasticamente. Há muito menos componentes e peças nos veículos elétricos e híbridos do que nos veículos alimentados por combustível fóssil.
INVASÃO CHINESA
Sindicalistas que recentemente foram à mídia para anunciar e festejar viagem à China como pontapé inicial de investimentos dos asiáticos na região não sabem o beabá geoeconômico. E fingem desconhecer o dumping social, trabalhista e político dos chineses. Tudo que combateram no Grande ABC desde as primeiras greves no fim dos anos 1970, Lula da Silva à frente do movimento. O mesmo Lula da Silva, agora tripresidente, declarado apoiador do regime econômico e político chinês. E que facilitou a chegada da montadora chinesa BYD a Camaçari, Bahia, em predatória concorrência nacional.
Diante de tudo isso, como se tudo isso já não fosse suficientemente inquietante, a Sociedade Servil e Desorganizada do Grande ABC está cada vez mais dispersa. O predomínio do Estado Municipal, com as prefeituras aumentando cada vez a carga tributária, em dissonância com a queda econômica, estrangulou de vez a mobilidade social.
Os contribuintes são menos cidadãos. É uma inversão de responsabilidade que facilita o gigantismo do municipalismo tributário inspirado no federalismo tributário. As redes sociais têm papel preponderante no estágio de desagregação social. A politica nacional, polarizada como nunca, é predominantemente a pauta de centenas de grupos.
Os administradores públicos locais jamais tiveram tanta folga para brilharem. Por via das dúvidas, mantêm no cabresto de triunfalismos boa parte do jornalismo digital e de papel. Escrutínios críticos são uma raridade. O Grande ABC da Geração Desintegrada está como o Diabo gosta.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL