A direção do Consórcio de Prefeitos do Grande ABC acerta em cheio ao recorrer à Fundação Getúlio Vargas para providenciar uma varrição em regra em sua estrutura funcional. Por isso, nenhum de seus representantes deve utilizar-se de sofismas para vender ilusão: o modelo que está aí apresenta evidentes sinais de fadiga. Em verdade, jamais atingiu o empuxo necessário, embora tenha sido iniciativa meritória e visionária, para variar, do então prefeito Celso Daniel.
O erro dos dirigentes que passaram e estão no organismo é que se esqueceram que uma instituição assemelha-se à própria vida humana — perde-se o viço com o tempo, doenças crônicas se estabelecem, cirurgias às vezes esticam o calendário, mas a hora fatal sempre chega. Doloridamente, mas chega.
É triste demais acompanhar os momentos finais de quem se gosta e é referência. O consolo é que a vida tem um limite inexorável e que o legado é imortal. É lamentável quando a vítima é algo inanimado, resultado da ação de homens nem sempre dispostos a rever posições, conceitos, admitir limitações, abrir mão de interesses específicos.
O Consórcio de Prefeitos tem uma folha de serviços prestados aquém do terremoto que atingiu o Grande ABC nos últimos 14 anos, exatamente o período de fundação da entidade. Os sismógrafos econômicos do Consórcio sempre se dirigiram a uma grandiloquência teórica que não combinou jamais com a materialização de um desastre anunciado, na forma de abertura comercial desmedida.
Comemos o pão que o diabo amassou, perdemos 33% de nosso produto industrial nos últimos nove anos e o Consórcio de Prefeitos se refastelou em espasmódicas ações. Não foi capaz de fazer-se presente uma vez sequer em Brasília durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Não consegue nem mesmo esquadrinhar o perfil da Universidade Federal do Grande ABC liberada pelo presidente Lula da Silva muito mais por pressões individuais do deputado federal Luizinho Carlos da Silva do que por ação coletiva bem concatenada.
A lista de ineficiências do Consórcio é enorme. Muito maior em qualidade, quantidade e impactos do que as tentativas de negar o inegável. Mas isso não significa que a entidade deva desaparecer. Pelo contrário: o formato de instituição prospectivamente capaz de dinamitar o quadro de suburbanice institucional da região no contexto nacional é inadiável.
Em resumo, com o Consórcio de Prefeitos e tantas outras instituições regionais andamos na velocidade de cágado contra o supersônico da globalização. Seria pior sem o Consórcio, sem a Agência, sem o frustrado Fórum da Cidadania, sem a subjetiva Câmara Regional? Provavelmente sim. Mas daí a nos deleitarmos na iniciativa de criar instituições que estão estruturalmente desativadas, inativas ou não passam de figurantes no jogo de relacionamentos intermunicipais e inter-regionais, seria arrematada bobagem.
Não estão em julgamento, necessariamente, as individualidades que conduzem tanto o Consórcio como outras entidades regionais e também organismos de abrangência municipal. O drama reformista envolve capacitação estrutural. Sem isso, todo o resto vira sucata. Craques de gerenciamento público, privado e social acabam enredando-se em cipoais tão resistentes quanto inoperantes.
O Consórcio de Prefeitos integra um rol de preocupações que precisam ser debatidas intensamente pela comunidade regional a partir do pressuposto de que deve ser profissionalizado na cúpula, vigoroso nas autoridades que lhe dão sustentação e representativo na base.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL