Regionalidade

Grande ABC troiano

DANIEL LIMA - 24/06/2004

Coluna Contexto, do Diário do Grande ABC


Há muito tempo invadiu o território do Grande ABC um cavalo de Tróia que esteriliza a resistência da comunidade. Os efeitos são preocupantes, embora menos intensos e devastadores do que os relatados por Homero em sua Ilíada. Como se sabe, o presente de grego na forma de gigantesco quadrúpede de madeira escondia no bojo guerreiros que, ao ingressarem na fortaleza troiana, arremeteram-se em combates que culminaram com a queda daquele império. O cavalo de Tróia do Grande ABC ganha formato maliciosamente metafórico e se tem apresentado de forma tão acentuadamente dissimuladora quanto nociva, para regozijo dos avacalhadores da cidadela regional.


São soldados do cavalo de Tróia do Grande ABC todos aqueles visitantes que ao longo dos tempos, travestidos de celebridades governamentais, acadêmicas, sociais e culturais, aqui desembarcaram desfiando corolário de salamaleques. A jactância com que se apresentaram — e ainda alguns retardatários costumam se apresentar — durante o período mais insidiosamente negativo de nossa história, nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, praticamente emparedava quem eventualmente combatia diagnósticos panglossianos. Para eles, estavam garantidas a audiência e a marca de bom-mocismo com o simples desfilar de dados estatísticos e frases de efeito que corroborassem com o triunfalismo mascarador típico dos músicos do Titanic.


Quantos e quantos bem-vindos invasores de batalhões e exércitos de babação de ovo de um suposto Grande ABC extraordinariamente rico e poderoso desapareceram da geografia regional depois que o cerco à verdade se implantou não necessariamente pela massificação de dados estatísticos sérios, mas pela prova cruel das ruas, das fábricas, das lojas?


Como num passe de mágica, desapareceram nas brumas dos fatos irretorquíveis esses soldados de vestes cor-de-rosa que, agora em menor número, costumam frequentar nossas fronteiras em períodos eleitorais. A caça aos votos se tornou, portanto, mais dispendiosa. Eles viraram páginas de um arquivo que, entretanto, os identifica sem contestação.  Agentes de artificialidades econômicas e sociais, enganaram o distinto público com uso ostensivo do otimismo politicamente correto que interdita o contraditório fértil e sereno.


A principal tática de convencimento dos poderes miraculosos da arte de seduzir mentes e almas regionais cristalizou-se no brilho das patentes dos invasores. Quanto mais titulação acadêmica, quanto mais graduação governamental, quanto mais representação empresarial, quanto mais relevância sindical, mais as garantias de que as mensagens ufanistas encontrariam ressonância e, portanto, o ambiente de grandiloquência estaria assegurado. Os rescaldos culturais da adoração à hierarquia imposta pelos colonizadores portugueses dariam sustentação à desclassificação dos opositores. Assim se fez o tempo todo nos bombardeios dos inimigos travestidos de protetores.


O troiano Grande ABC diferencia-se daquele império histórico não só pelos efeitos menos destrutivos dos invasores contemporâneos mas também porque, diferente de uma Tróia supostamente unida contra o inimigo comum, acobertamos soldados e generais prevaricadores da responsabilidade regional. Sim, por motivos dos mais variados, e certamente um dos mais expressivos é a vocação institucional latente ao macunaísmo verde-amarelo, não faltaram e ainda não faltam lideranças locais aliadas aos invasores.


Como se explica que o Grande ABC troiano se junte ao helênico Grande ABC nessa equação de dilapidação das forças regionais? Simples, muito simples. Para uma parte das elites da região, qualquer esforço que signifique mudança de rota dos despautérios que nos acometeram ao longo dos últimos anos significa a imperiosidade de provar que existem lideranças de fato onde prevalecem o compadrio, o conchavo, o interesse exclusivamente corporativo. Ou seja: há imensidão de representantes tipicamente troianos que reforça as baterias dos inimigos gregos sempre tratados a pão-de-ló em nome da consolidação de um projeto exclusivista de controle da massa cada vez maior de excluídos sociais.


Imaginar que a detecção desse conluio determinará uma reviravolta nos usos e abusos do Grande ABC troiano é desprezar a força do exército grego e seus tentáculos originalmente locais. A divisão destas terras em sete pedaços possibilita aos invasores o desfrute de regalias de tapetes vermelhos estendidos por anfitriões ávidos pela notoriedade fácil e pelo prazer de estabelecer um padrão de comunicação popular que considere apenas interesses unilaterais nem sempre a gosto dos súditos. Principalmente se o temário em questão for o questionamento do poderio econômico nem mais aparentemente inexpugnável de outros tempos.


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