Alguém é capaz de desvendar o imbróglio institucional que se segue?
O que tem a ver a recorrente frustração da chamada Bancada do ABC, que não consegue registrar avanços significativos na relação com o governo estadual, e o desempenho do Consórcio de Prefeitos?
O que tem a ver a ficcional atuação da Câmara Regional do Grande ABC com a escassez de recursos públicos estaduais e federais para nossos municípios?
O que tem a ver a cronologia sempre esticada e nunca resolvida do trecho sul do Rodoanel com a esquálida performance da Agência de Desenvolvimento Econômico?
O que tem a ver a dispersa atuação das unidades do Ciesp do Grande ABC com a esboroada institucionalidade das associações comerciais e industriais?
O que tem a ver o fracasso do Fórum da Cidadania com o sequestro partidário de entidades supostamente representativas de corporações profissionais?
Para todos esses contrapontos que se justapõem e formam uma camada praticamente irremovível de endemias que atingem o coração econômico do Grande ABC, existe uma resposta que talvez concentre todos os anseios de retirada dos pontos de interrogação — chama-se cidadania.
Não faltam algumas notícias que insinuam que a safra de positividade concreta do Grande ABC é sustentável.
Há indicadores de que finalmente conseguimos chegar ao fundo do poço econômico. E se chegamos, como parece, também não é nada desprezível, pelo contrário, que nosso fundo do poço econômico seja ainda objeto de entusiasmo.
Afinal, tropeçando aqui e ali em nossa mambembe institucionalidade, seguimos como terceiro potencial de consumo do País, representamos 9% do produto industrial do Estado mais poderoso da Federação, começamos a reconquistar uma fatia do emprego industrial perdido ao longo de mais de uma década, contamos com o suporte do presidente da República e do ministro da Educação para erguer uma universidade voltada à integração academia-produção e já sabemos de cor e salteado a dor das perdas cumulativas de riqueza.
Chegamos, portanto, a um ponto de alavancagem ideal para completa reestruturação regional. Mas para isso é preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar. Trabalhar com ciência. Com racionalidade.
Alguns movimentos nesse sentido já aparecem. A Associação Comercial e Industrial de Mauá pautou os candidatos a prefeito sobre os problemas que mais afligem os empreendedores locais, sobremodo os pequenos. Quem sabe outras entidades do gênero resolvam sair de seus casulos?
O jogo das relações entre poder público, livre iniciativa e comunidade precisa ser dinamizado e mover-se pela transparência. Quanto mais agentes comprometidos com o futuro regional entenderem a responsabilidade de compartilhar diagnósticos e ações, mais poderemos sair da indolência que se segue ao anestesiamento.
Por isso que o futuro de instituições como o Consórcio de Prefeitos precisa ser planejado sem escorraçar os agentes econômicos e sociais. A reprogramação do perfil do Consórcio de Prefeitos, entregue à Fundação Getúlio Vargas, precisa adequar-se, portanto, aos desígnios do pragmatismo construtivo. Não passaria de maquiagem insistir num modelo autoritário e centralizador sobre o qual o então prefeito Celso Daniel já se opunha, disposto que estava a abrir as portas de um Conselho Deliberativo para formadores de opinião.
Há muito tempo escrevemos que os prefeitos não podem ser uma instância de decisões unilaterais do Consórcio. A entidade precisa ser administrada como uma empresa, porque o mundo econômico é uma constelação de empresas.
Executivos especializados em competitividade regional devem estar na linha de frente das iniciativas e propostas. Tanto uma espécie de conselho de administração formado pelos prefeitos como um conselho de acionistas, integrado por representantes da comunidade, seriam agentes sensores e sensibilizadores que assegurariam o enquadramento dos conceitos.
Com medida profilática de fundo estrutural, o Consórcio de Prefeitos passaria, sem dúvida, a encabeçar sem restrições e questionamentos o organograma de entidades regionais a conduzir o Grande ABC por veredas provavelmente nunca antes desbravadas.
Sistematizando cuidadosamente suas atividades, contando sempre com a objetividade desburocratizadora de executivos que não tenham dificuldade de compreender a importância da economia no contexto da sustentabilidade social, o Consórcio Intermunicipal poderia apagar grande parte dos pontos de interrogação e dos contrapontos que tanto nos afetam.
Não temos mais tempo a perder. Aproveitemos, portanto, os ventos que nos embalam. Ou que pelo menos não nos atrapalham.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL