Os acadêmicos da Região Metropolitana de Campinas estão descobrindo agora, depois de quase década e meia de rastreamento dos gerenciadores públicos e representantes da iniciativa privada do Grande ABC, a importância da regionalidade para os municípios.
Tanto que pesquisadores da Unicamp acabam de formular um atlas que mostra a distribuição espacial de dados demográficos, econômicos e sociais daquela região de 19 municípios, população semelhante aos 2,5 milhões de habitantes do Grande ABC distribuída em território cinco vezes maior.
O mais impressionante na divulgação do estudo do Nepo (Núcleo de Estudo de População) e do Nesur (Núcleo Interno de Economia Social Urbano) daquela universidade é a declaração-síntese do demógrafo e coordenador do Nepo, José Marcos Pinto da Cunha: “O sistema de transportes, por exemplo, deve ser encarado de forma mais ampla, não apenas dentro da cidade, pois envolve a população que circula atravessando as fronteiras municipais” — disse ele, referindo-se à importância de pensar regionalmente os problemas municipais.
Esse tipo de afirmação na voz de qualquer representante público ou privado no Grande ABC soaria como algo estonteantemente óbvio. Serviria, nos círculos mais avançados de debates, como comprovação de alheamento às questões metropolitanas.
O que quero dizer com isso? Que do ponto de vista de consolidação teórica, o ambiente metropolitano e seus imensos complicadores sociais e econômicos há muito estão fortemente imantados entre tomadores de decisões e formadores de opinião da região. Portanto, estamos muito à frente dos campineiros e circunvizinhos. O sentimento de regionalidade está muito mais amadurecido no Grande ABC — eis o que quero dizer ao contrapor à declaração do acadêmico da Unicamp a situação em que nos encontramos.
Estamos prontos para o galope de cavalo campeão de páreo de Grande Prêmio? Calma, calma que não é bem assim. A atuação do Consórcio de Prefeitos, como se sabe, é reticente, dispersa, eloquente na verborragia mas frágil na praticidade. Além disso, a fragmentação territorial em sete pedaços desiguais em quase tudo não consegue encontrar encaixe estratégico.
Somos individualidades que reconhecem a importância do coletivo, mas exacerbamos vocações solistas que não sobrevivem ao isolamento regional. Ou seja: temos consciência de que só o amálgama regionalista nos salvará a todos, mas insistimos em dar dois passos para lá, dois para cá de um ritmo que ludibria homens e mulheres de boa-fé, mas não garante o emprego das novas gerações porque as mais maduras também estão no sufoco.
A vantagem de Campinas e municípios próximos está no suporte de uma Unicamp provavelmente capaz de enquadrar estatisticamente informações que, exceto o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), o Grande ABC jamais foi minimamente interessado em organizar. Ai de estudantes, empreendedores, pesquisadores, jornalistas e curiosos que pretendam encontrar em qualquer modalidade de banco de dados informações sistêmicas sobre o Grande ABC. Todos vão quebrar a cara. O que prevalece é um cabo-de-guerra de puxar para a respectiva sardinha a brasa de elementos estatísticos.
Mesmo assim, o grau de confiabilidade é baixíssimo porque o poder público municipal é despreparado para ações de suporte técnico-informativo. Quando o faz, geralmente adota a celebração ricuperiana de esconder os fatos negativos e maquiar os pontos positivos, que, como se sabe, afastam investidores que têm suporte de consultorias especializadas em competitividade.
O Observatório Econômico da Prefeitura de Santo André, liderado pelo secretário de Desenvolvimento Econômico e Ação Regional, Jeroen Klink, é exceção à regra. Mesmo assim, é modesto e está mais centralmente focado no Município.
Quem sabe com a chegada da Universidade Federal do Grande ABC seja possível reservar um departamento para estudos demográficos, econômicos e sociais da região. Até porque, convenhamos, o perfil curricular da instituição deverá alimentar-se de informações qualificadas. Nesse campo, como se sabe, o Grande ABC está mais perdido que barata em galinheiro. A analogia é proposital, porque é tão surrada quanto os vácuos estatísticos e analíticos que nos atingem.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL