Casa em que falta pão, todos gritam e ninguém tem razão. A casa, no caso, é a Câmara Regional do Grande ABC, simulacro de competência institucional que alguns ainda pretendem vender ao distinto público como legítima peça de operacionalidade regional, quando, de fato, não passa de fraude. E que fraude!
A reportagem publicada neste jornal no último domingo, produzida pelo ourives Roney Domingos, extratifica até que ponto chegamos na Câmara Regional. Trata-se de jogo de empurra e de coleção de desculpas e acusações de quem não quer carregar o ônus da dispersão.
A Câmara Regional lançada com pompa e circunstância numa noite de 1997 em São Bernardo pelo governador do Estado, Mário Covas, só é reverenciada por intelectuais que escrevem e falam por ouvir falar e não por constatarem pessoalmente supostos avanços institucionais e programáticos.
Na escala de valores sob suspeição da institucionalidade regional criada por Celso Daniel, a Câmara Regional é estrondosamente o mais curto e vexatório braço de comprometimento social e econômico. O Consórcio de Prefeitos tem acúmulo de prejuízos que igualmente alguns procuram mistificar, mas pelo menos, pelo menos mesmo, ainda conta com quadro de assessores técnicos que, bem ou mal, conseguem definir alguns diagnósticos sobre os quais as prefeituras demoram demais para agir. Já a Agência de Desenvolvimento Econômico sobrevive de teimosa, tal a fragilidade financeira que a sustenta e, mais que isso, a ciumeira que desperta no Consórcio de Prefeitos.
Nada, entretanto, se compara à Câmara Regional. E muito se deve ao governo do Estado, ausente contumaz na região, menos, evidentemente, quando a corrida por votos se torna o pote de ouro.
Observada a situação sob lentes mais exigentes de relacionamento estreito entre autoridades públicas do Grande ABC e do governo do Estado, é irresistível a constatação de fato histórico: o Palácio dos Bandeirantes raramente se vinculou para valer às necessidades do planejamento concebido por técnicos da Câmara Regional e do Consórcio de Prefeitos.
O distanciamento político-administrativo entre o governo Geraldo Alckmin e os prefeitos da região, especialmente os petistas, é inquestionável. Este jornal há muito exuma dados orçamentários que provam uma equação de fácil resolução: o ambiente de hostilidades entre o governo estadual e o PT transformou o Grande ABC em arena que, por mais sutis que sejam os ataques ou as omissões, não impede corolário de cartas de intenções jamais efetivadas na plenitude das demandas regionais.
A quem cabe a responsabilidade do vácuo entre o governo do Estado e o Grande ABC principalmente na dissolução prática da Câmara Regional? Primeiro, à força-tarefa que o governo do Estado prometeu colocar à disposição da região ainda nos tempos de Mário Covas. Segundo, aos prefeitos locais, individualistas na busca de soluções. Terceiro, à própria comunidade regional, incluindo-se lideranças empresariais, sociais, culturais e sindicais, que, definitivamente, ainda não entenderam que governos, quaisquer que sejam os governos, só reagem mediante pressão.
Um desfilar de casos que comprovariam a flacidez do tecido da regionalidade dinamitaria qualquer eventual tentativa de blindagem do governo paulista na situação descrita. Uma meia dúzia de piscinões, unidade para aprisionamento de delinquentes e outras ações varejistas não podem conquistar almas e corações minimamente sensíveis quanto ao fracasso das relações entre os prefeitos locais e o governo do Estado. Respondemos por 9% do PIB paulista, mas na ordem geral das prioridades ficamos na rabeirinha.
A expectativa de que um Grande ABC menos avermelhado eleitoralmente, como alguns supõem, outros apostam, muitos especulam e a lógica eleitoral parece definitivamente encaminhar-se nessa direção, daria fôlego à possibilidade de o Palácio dos Bandeirantes mirar baterias de investimentos em direção aos nossos municípios. Se o enunciado tem viabilidade político-ideológica, não custa lembrar, também, que a recíproca é verdadeira e travessa: o presidente Lula da Silva foi sensibilizado por um Grande ABC de cinco prefeituras petistas e, provavelmente, com a redução eventualmente drástica de partidários, a sede de colaborar com programas econômicos e sociais poderá ser precocemente abreviada.
Pelo menos por enquanto não há termos de comparação entre o que Lula da Silva já liberou para o Grande ABC e o que Fernando Henrique deixou de rastro de destruição. Resta saber daqui para frente. Ganharemos Geraldo Alckmin em porção suficiente para compensar o possível recuo do governo federal? Se o mundo gerencial público fosse diferente, não estaríamos aqui com essa formulação interpartidária. Mas o que se pode fazer?
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL