Regionalidade

Briga de foice

DANIEL LIMA - 12/11/2004

A se confirmarem informações exclusivas deste Diário — e não há do que duvidar — a cisão entre a Fiesp e o Ciesp, do primo rico e do primo pobre da institucionalidade industrial paulista, se converterá em senhora enrascada, em vez de solução ditada pelo destino providencial.


Primeiro, vamos explicar mais uma vez, porque já escrevemos sobre o assunto, os motivos pelos quais a cisão entre Fiesp e Ciesp deveria ser encarada como solução em meio do dilúvio de lamentações que se seguiu aos resultados das urnas.
Historicamente, o Ciesp sempre se subordinou à Fiesp e, como qualquer subordinado sem pretensões de galgar a hierarquia, se amesquinhou, se apequenou.


Principalmente no Grande ABC onde o Ciesp não passa de repartição não-governamental com jeito, cara e tudo o mais de estatalzinha.


Mesmo em Diadema, onde o empresariado é mais ativo, o que prevaleceu, com espasmos comunitários aqui ou ali, foi o corporativismo técnico-funcional.


Ou seja: os escritórios de representação do Ciesp não passaram e não passam de centros de adaptação à burocracia de um Estado voraz em normatizar, regulamentar e imprimir marca fiscal e tributária.


Ora, se tínhamos esse modelo comunitariamente falido e incapaz de atuar com um mínimo de competência, isenção, lucidez e desembaraço no quadro social e econômico que se deteriorou no Grande ABC, nada melhor do que jogá-lo no primeiro buraco sem fundo que aparecer.


E esse buraco apareceu em forma de ruptura eleitoral determinada pela eleição de Paulo Skaf para a Fiesp e de Cláudio Vaz para o Ciesp.


Tentou-se nos últimos meses um remendo de composição que somente os tolos acreditaram ser possível. Skaf está para Lula assim como Vaz para Geraldo Alckmin ou qualquer pretenso candidato à presidência da República em 2006. São inconciliáveis porque pertencem a núcleos empresariais distintos. Não se bicam, para encurtar a história.


Tudo bem, tudo bem, que não se biquem, porque democracia é isso mesmo, o pior dos regimes, exceto todos os demais. Entretanto, daí à sobreposição de ações seria estupidez. Até porque, fragilizaria ainda mais o que o passado já condena: as empresas da região, sobretudo as pequenas e médias, praticamente esquecidas como importante massa de negociações institucionais com os poderes públicos locais, seriam ainda mais fragilizadas.


A idealização do conglomerado Ciesp e Fiesp talvez não tenha sido concebida com o pressuposto que tenho sugerido, mas não é tarde para reparos.


Entretanto, a disputa por um mesmo espaço ciespiano é de lascar. E não se pretende aqui apontar o dedo de culpabilidade aos dirigentes locais mais próximos de Paulo Skaf por estarem organizando diretorias da Fiesp. Nem tampouco sacrificar os correligionários de Cláudio Vaz do Ciesp, por já estarem há mais tempo nas unidades do Grande ABC e terem feito tão pouco.


Acreditamos que, mais que individualidades eventualmente menos qualificadas, foi a estrutura hipocritamente complementar entre a Fiesp e o Ciesp de um único comandante que, paradoxalmente, separou uma instituição da outra. Sim, porque como primo rico a Fiesp sempre nadou de braçadas e sucursalizou o Ciesp, o primo pobre. Rompido o lacre dessa bobagem histórica, o que se espera é que cada entidade cumpra o seu dever.


E que dever é esse? Que a Fiesp trate dos macrotemários estadual e nacional e exerça forte pressão tanto nas hostes do governo Alckmin quanto do presidente Lula. E que os Ciesps locais tratem especificamente das agruras provocadas pela falta de políticas públicas de competitividade regional. Cuidando-se tanto de um quanto de outro, Fiesp e Ciesp, independentes mas convergentes na vocação de valorizar o empreendedorismo, deveriam se encontrar em objetivos complementares por meio de instância informal de governabilidade.


Com esse modelo de complementaridade, em que as instâncias governamentais seriam igualmente questionadas e forçadas a entender que empreendedorismo requer mais atenção, investimentos e redução da carga tributária, a Fiesp e o Ciesp teriam finalmente encontrado o mapa da mina das resoluções municipais e regionais de um lado, estaduais e federais, de outro.
Infelizmente, do jeito que se ensaia esse jogo de divisionismos, a tendência é diametralmente oposta. Continuarão os empresários a assistir a raquitinização dos pequenos negócios e os grandes a disputarem a cotoveladas um lobbismo vergonhoso para chegar às tetas do Estado. Um suicídio, porque a globalização econômica esculhambou o autarquismo gerencial dos poderes constituídos.


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