Regionalidade

Mãos na massa
da regionalidade

ANDRE MARCEL DE LIMA - 12/04/2006

O Grande ABC finalmente começou a pôr as mãos na massa pelo fortalecimento das indústrias automobilística e petroquímica – os principais pilares de sustentação econômica. Conforme promessa de William Dib, prefeito de São Bernardo e presidente do Consórcio Intermunicipal, a região vai acolher seminário específico sobre o futuro da cadeia automobilística do Grande ABC. O Fórum Revitalização do ABC Automotivo está programado para 11 de abril no auditório do Senai Mário Amato, em São Bernardo, com participação maciça de executivos de montadoras e autopeças, representantes sindicais, consultores especializados e integrantes do governo estadual.


No front petroquímico, a novidade é a parceria que a Apolo (Associação das Indústrias do Pólo Petroquímico do Grande ABC) firmou com a Fatec (Faculdade de Tecnologia) de Mauá para a formatação de curso superior na área de transformação de plástico. Empresas do Pólo já garantiram R$ 1 milhão para investimento na construção de prédio com laboratórios e salas de aula. A importância da iniciativa é flagrante. A expansão na primeira e segunda geração torna fundamental consolidar núcleo irradiador de mão-de-obra especializada para criar produtos de alto valor agregado e atrair investimentos na terceira geração. Agora só faltam políticas públicas que favoreçam a ocupação de áreas próximas ao Pólo Petroquímico por transformadoras plásticas.


As duas iniciativas mostram que a Imprensa tem obrigação de estimular ações por parte dos atores públicos e privados, em vez de se restringir a transcrever fatos cotidianos. Tanto a iniciativa de promover o fórum automotivo quanto a preocupação da Apolo com os rumos da cadeia de terceira geração ganharam destaque em reportagens de capa de LivreMercado. Em setembro de 2005 a revista estampou a imagem do prefeito de São Bernardo com o título “Dib, Nosso JK?”, em alusão à disposição de o prefeito recuperar o tecido automobilístico fragilizado por décadas de negligência institucional. Em dezembro de 2005, a capa “Pólo Comprometido” mostrava que os representantes da Apolo aceitaram sugestão de LivreMercado durante o Ciclo de Debates: repassar conhecimento para fortalecer pequenas e médias indústrias do setor.


O fórum sobre revitalização da indústria automobilística é essencial para a região que vive dificuldades crônicas do setor de autopeças e não pára de perder participação relativa na produção nacional de automóveis e comerciais leves, como LivreMercado tem mostrado por meio de pesquisas exclusivas com dados fornecidos pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), representações sindicais e pelas próprias montadoras. São Bernardo e São Caetano são responsáveis por apenas dois de cada 10 veículos leves manufaturados no Brasil. A fatia regional nos veículos pesados atinge 61% do total nacional basicamente porque os custos inflados nos tempos de mercado fechado podem ser diluídos em produtos de maior valor agregado. É sobre esse cenário de fragilidades históricas e estruturais que os expositores devem se debruçar.


A julgar pelo peso e diversidade dos participantes, é provável que o fórum automobilístico traga muitas respostas sobre o que é preciso fazer para recolocar o Grande ABC nos trilhos. O editor da revista AutoData, Fred Carvalho, abre o evento com palestra sobre os 50 anos da indústria automobilística brasileira, seguida de análises do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, do secretário estadual de Ciência e Tecnologia, João Carlos de Souza Meirelles e do prefeito William Dib. Na sequência, a consultora Letícia Costa, presidente da Booz Allen Hamilton, e o presidente do Sindipeças, Paulo Butori, abordam questões logísticas e o papel da cadeia de suprimentos. A nova face do trabalho é o tema do painel do qual participam Luiz Marinho, ministro do Trabalho, José Lopes Feijoó, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Otávio de Mattos Silvares, reitor do Instituto Mauá de Tecnologia, Hermano de Medeiros Ferreira Tavares, reitor da Universidade Federal do Grande ABC, Márcio Rillo, reitor da FEI, e o coordenador Gábor Deák, presidente da SAE Brasil, sigla inglesa para Sociedade de Engenharia Automotiva.


O painel de encerramento promete ser o mais quente. Novos investimentos das montadoras serão discutidos por Barry Engle, presidente da Ford Brasil, Jackson Schneider, vice-presidente de Recursos Humanos e Relações Jurídicas e Institucionais da DaimlerChrysler, Hans Christian Maergner, presidente da Volkswagen do Brasil, Luiz Moan Yabiku, diretor de Relações Institucionais da General Motors e Rogelio Golfarb, presidente da Anfavea. Em recentes entrevistas à LivreMercado, Luiz Moan destacou a necessidade de o governo do Estado agir de forma mais efetiva como indutor de investimentos.


A constatação de que a Apolo e a Fatec de Mauá uniram esforços para criar curso superior de tecnologia em plásticos também cai como luva para o Grande ABC que precisa converter a iminente expansão do Pólo Petroquímico em muito mais do que alavanca tributária. Empresas de primeira e de segunda geração são verdadeiras usinas de impostos, mas só a cadeia de terceira geração pode gerar empregos em grande escala. “Cada 16 toneladas adicionais de processamento no Pólo Petroquímico significa um posto de trabalho a mais nos transformadores” – esclareceu Nívio Roque, integrante da Apolo e diretor da Polietilenos União, durante o Ciclo de Debates realizado em dezembro último. Pelo cálculo de Nívio Roque, a expansão da PQU e da Polietilenos embute potencial para 12 mil empregos, uma planta da Volks de São Bernardo de novas ocupações.


Para aproveitar essa enxurrada de mão-de-obra com multiplicação de novas empresas é preciso que o Grande ABC ofereça duas condições básicas: profissionais qualificados e terrenos em boas condições e preços convidativos. A segunda condição ainda depende da movimentação de Mauá e Santo André para conceber políticas públicas que se traduzam na oferta vantajosa de áreas, especialmente no Distrito Industrial de Sertãozinho e ao longo do Rio Tamanduateí. A primeira condição é o alvo da iniciativa conjunta entre a Apolo e a Fatec.


O curso superior de Tecnologia em Produção de Plásticos terá três anos de duração e carga de 2,8 mil horas. O início das aulas está programado para agosto deste ano com 80 vagas, das quais 40 para o período vespertino e 40 para o noturno. “O curso formará gestores em tecnologia de plástico, profissionais capazes de criar produtos e vislumbrar novas aplicações em substituição a outros materiais” – explica o diretor da Fatec Silvio Tado Zanetic. Engenheiro e administrador com dois doutorados na área de engenharia de materiais, Zanetic é o responsável pela elaboração do conteúdo curricular ao lado de especialistas da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo).


A parceria entre a Apolo e a Fatec também prevê estrutura física independente para a divisão de plástico. Empresas como Polietilenos, Petroquímica União e Suzano Petroquímica empenharam R$ 1 milhão para construção de prédio no próprio terreno em que a faculdade está instalada. O projeto prevê dois pavimentos que totalizarão 1,4 mil metros quadrados. O pavimento inferior acolherá laboratórios e o superior terá 10 salas de aula. As obras devem começar dentro de 60 dias e a conclusão está programada para março de 2007.


Para que tantas salas de aula? “Numa segunda fase pretendemos implantar curso técnico voltado à formação de operadores de máquinas” – explica Silvio Zanetic.


A explicação para o desembolso financeiro das empresas do Pólo é igualmente convincente. “Ampliar continuamente a produção de resinas de polipropileno não é problema para a Suzano Petroquímica. A capacidade saltou de 125 mil toneladas para 300 mil toneladas em 2003, vai chegar a 360 mil toneladas em junho deste ano e alcançar 450 mil toneladas em 2008 graças a operações de desgargalamento. O maior desafio está fora da empresa: agregar valor na terceira geração” – observa Antonio Fernando Pinto Coelho, gerente industrial da antiga Polibrasil.


A necessidade de criar novas demandas e investir em parcerias com a cadeia de terceira geração foi a tônica da apresentação de Gilda Bouch, gerente de marketing da Riopol, no seminário sobre indústria petroquímica realizado pelo IBC (International Business Comunications), na Capital paulista. A executiva lembrou que fabricantes de resinas e transformadoras plásticas têm características completamente diferentes: as primeiras são de grande porte, intensivas em capital e enxergam a longo prazo enquanto as segundas normalmente são pequenas e têm visão mais imediatista. Mas como fazem parte da mesma cadeia, é essencial que as fabricantes de resinas ajudem as transformadoras a desenvolver produtos de maior valor agregado a fim de escapar da comoditização. “Precisamos conhecer melhor aqueles que nos alimentam” – sintetizou a executiva.


Exemplos de inovações benéficas à rentabilidade não faltaram durante a apresentação de Eduardo Tergolina, diretor-comercial da Ipiranga Petroquímica, gigante do pólo gaúcho com capacidade anual para 730 mil toneladas de resinas plásticas. O executivo não deixou dúvidas sobre o fato de o futuro ser cada vez mais plastificado ao ressaltar o crescimento do uso do material em áreas como agricultura, construção civil e indústria automobilística. Até tanques de combustíveis de veículos se rendem às vantagens do subproduto do petróleo.


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