Regionalidade

Vendendo ilusões

DANIEL LIMA - 18/03/2008

Pelo andar da carruagem de ilusões que vi impressas num material que o novo presidente do Clube dos Prefeitos, João Avamileno, e seu fiel escudeiro, o assessor especial David Gomes, enviaram a representantes de diferentes instituições do Grande ABC, teremos nesta temporada de caça aos votos também uma jornada de prestidigitadores informativos.


Não pretendo entrar em detalhes sobre o documento, porque devo fazê-lo em matéria específica da edição de abril da revista LivreMercado, mas fiquei encafifado com o retorno de uma manjadíssima onda que predominou no cenário regional durante os anos de chumbo de 1990.


Que onda é essa, afinal?


A onda do mais deslavado gataborralheirismo, que, entre outros sentidos, pode ser entendido também como provincianismo que ciclicamente invade a região.


Há no caso específico da iniciativa de João Avamileno e assessores um erro crasso de estratégia. A abertura do Clube dos Prefeitos para a sociedade regional é tão providencial quanto a insensatez de apresentar um impraticável conjunto de propostas.


Ou seja: João Avamileno está acertando o passo em consonância com os ditames mais modernos de instituições públicas, algo que seu antecessor, Kiko Chaves Teixeira, insistiu em desprezar, mas está indo com muita pressa ao pote democrático.


Pretender dar velocidade e eficiência numa única temporada à série de propostas que durante praticamente duas décadas não passaram exatamente disso, de propostas, é desprezar a lógica político-eleitoral que tornará esta temporada excepcionalmente mais resistente à integração regional.


Anotem o que estou escrevendo para me cobrarem depois: a sede de João Avamileno corrigir os erros históricos do Clube dos Prefeitos está fora do compasso do tempo de que dispõe mesmo para tarefas mais simples. O conjunto de iniciativas que aquela carta às instituições sugere é uma tremenda enrascada porque dificilmente João Avamileno conseguirá terminar o mandato à frente da entidade sem colecionar frustrações pessoais e coletivas.


Os mentores da liderança de João Avamileno no Clube dos Prefeitos são gulosos no apetite de reparar erros e omissões consolidados. Eles simplificaram demais o depósito de complicações que tornam a vida do Grande ABC um desafio à racionalidade.


Pior de tudo é que a carta de chamamento às entidades regionais é uma sucessão de triunfalismo misturado com desfaçatez somado com ilusionismo e multiplicado por um sentimento de desprezo ao discernimento.


Vou explicar tudo isso mais à frente, aqui ou na revista LivreMercado. O que posso antecipar é que ao ler o documento e, cuidadosamente, sublinhá-lo, cheguei à seguinte conclusão: o estrategista de João Avamileno no Clube dos Prefeitos confia com entusiasmo que beira a loucura em algo que de fato inexiste, como é o caso da institucionalidade regional. Ou então comete a santa ingenuidade de supor que basta um encontro pós-definição de prioridades retiradas de um público tão heterogêneo quanto disperso para, ao sistematizá-las, dar uma satisfação de suposta arrancada regional rumo a novos tempos.


Pretender dizer, como se pretendeu naquele documento, que o Clube dos Prefeitos, que a Câmara Regional, que a Agência de Desenvolvimento Econômico, cumpriram papel de instaurarem uma regionalidade produtiva no Grande ABC é um desses engodos que levam qualquer cidadão mais crítico a náuseas.


Só o descalabro econômico e social da região nos anos 1990, quando atingimos recordes de criminalidade, recordes de desindustrialização e recorde de sem-vergonhice institucional, já seria suficiente para atirar ao lixo aqueles escritos recheado de sandices.


Pretender transformar o Clube dos Prefeitos no estuário de uma gama supostamente invejável de realizações, como aquele documento pretendeu, é mais que uma inútil tentativa de manipular a inteligência alheia: é a negação da própria inteligência.


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