Regionalidade

Clube fechado

DANIEL LIMA - 19/08/2009

Costumo dizer e escrever que jornalista vale pelo que deixa de legado para a sociedade, e que cada vez valerá mais porque a virtualidade da Internet dissemina informações a territórios e leitores antes inimagináveis. Quem escreve rasante, rasante permanecerá. Quem se limitar a transmitir declarações politicamente corretas de terceiros, descartável será. Como não se fica rico no jornalismo, salvo exceções, o que deveria mover cada profissional seria o sentimento de dever cumprido, de ter ido além da crosta de superficialidade e de inutilidade.


Filosofo a propósito porque encontro em meus arquivos, nos quais mergulho sempre com empenho fundamentalista, a primeira entrevista que colhi do prefeito Celso Daniel, então eleito em Santo André, e que constou, veja só, da primeira edição em formato revista de LivreMercado, em novembro de 1996. Uma entrevista que demarca o pensamento do maior integracionista já produzido no Grande ABC.


Antes de recuperar os principais pontos daquele trabalho jornalístico, cabe uma provocação: quase todas as revistas que temos visto no Grande ABC bem que poderiam economizar custos gráficos, que são uma fortuna. O pressuposto de revista é que a materialidade física do papel converge para a longevidade editorial. Quando não se tem essa preocupação, o papel-jornal descartável no dia seguinte seria suficiente.


Entretanto, como uma moeda tem sempre duas faces, chego à conclusão que as revistas às quais me refiro têm de fato um novo conceito de negócio, um mercado no qual nada se cria, tudo se copia. E qual seria esse novo mantra do mercado de revistas? Ora, ora, imagens, muitas imagens, artigos de temas diversos, muitos artigos de temas diversos, de autores que não são do ramo jornalístico, mas de outros ramos, e estamos conversados. Nada a ver com as maiores publicações nacionais e internacionais, é claro.


A entrevista com Celso Daniel em novembro de 1996 inaugurou o formato revista de LivreMercado, mas não o conceito revista de LivreMercado. Explico: desde o primeiro número, em março de 1990, em formato tablóide e em papel encorpado, sempre tivemos preocupação com a perpetuidade de boa parte dos textos impressos. Salvar mesmo que 20% do material jornalístico da ação do tempo seria uma grande vitória. No Brasil, na mídia impressa do Brasil, mais e mais se acentuam critérios fastfoodianos, de consumo rápido. As exceções confirmam a regra.


Recolho daquela entrevista de quase 13 anos de um Celso Daniel prestes a assumir a Prefeitura de Santo André pela segunda vez algumas preciosidades que contribuem para entender por que o Grande ABC patina há tanto tempo e se deixou levar por imensidão de improdutividade. Leiam o texto que se segue:


 A unidade do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos é prioritária para Celso Daniel, mas deve ser acompanhada, numa segunda etapa, da profissionalização de sua estrutura. A nova formatação incluiria também a participação deliberativa da sociedade civil, democratizando-se a responsabilidade de conduzir a reviravolta socioeconômica da região, atuando como instância suprema de planejamento estratégico do Grande ABC.


Sim, o caro leitor não está sob efeitos de alucinógeno. Naquela matéria, transmiti o pensamento daquele que dava de fato os passos decisivos para se tornar o mais importante gestor público da regionalidade. Depois que Celso Daniel se foi, ninguém na esfera pública dedicou-se tanto à sinergia regional. E Celso Daniel disse com todas as letras aos meus ouvidos que ouvem muito bem: esperava que a sociedade civil, então representada no Fórum da Cidadania, fosse peça decisiva da engrenagem de cooperação no Grande ABC, atuando em caráter deliberativo no Clube dos Prefeitos. Se Celso Daniel, estudioso do assunto, professor respeitabilíssimo de Economia na Fundação Getúlio Vargas, disse o que disse, quem seremos nós para contestar?


Passados 13 anos, nada se alterou no figurino institucional do Grande ABC. Pior: há uma repulsa tão grande, tão estúpida, tão indecente de algumas lideranças políticas contrárias à participação da sociedade no Clube dos Prefeitos que não é exagero desconfiar das motivações.


O prefeito de Rio Grande da Serra, Kiko Teixeira, chegou ao extremo de romper relações com este jornalista, porque cometi a indelicadeza de lhe sugerir, então na condição de presidente do Clube dos Prefeitos, que se tornasse artífice da consumação da regionalidade, convencendo os demais integrantes a acrescentarem um Conselho Consultivo na entidade. Um Conselho Consultivo, vejam só, não um Conselho Deliberativo como apregoava Celso Daniel.


Mas, retomando a entrevista de 13 anos atrás com Celso Daniel, transcrevo os parágrafos seguintes sobre o Clube dos Prefeitos:


 O pretendido novo Consórcio Intermunicipal, se depender de Celso Daniel, mudaria até de identidade. Teria outra denominação e se transformaria numa autarquia metropolitana do Grande ABC, com recursos financeiros próprios para desenvolver atividades de estudos, planejamento e obras individuais ou em conjunto entre os próprios municípios ou também com a participação do Estado e da União. Enfim, comporia um novo arranjo institucional. Esse fortalecimento infra-regional permitiria relação menos dependente do governo estadual. Celso Daniel não diz com todas as letras, mas a concepção de integração do Grande ABC não cede espaços para participação igualitária ou prevalecedora do Estado. Ele não hostiliza o governo estadual, ouve com atenção interlocutores do Fórum da Cidadania que falam dos avanços nos últimos tempos, entre os quais promessas de secretários estaduais de investimentos na infra-estrutura regional, mas a autonomia institucional do Grande ABC transpira em frases.


Lembro como se fosse hoje que aquela entrevista com Celso Daniel, que reproduzi em forma de texto-análise, foi às pressas, na sede do PT em Santo André. O recém-eleito prefeito com 61% dos votos válidos, um recorde até então, estava a duas horas do embarque em uma viagem internacional na qual, além de descanso, aproveitaria para realizar série de incursões profissionais em instituições públicas européias.


Celso Daniel foi muito ironizado por um jornalismo provinciano que não via graça alguma nos carimbos do passaporte que testemunhavam inquietação por conhecimentos no Primeiro Mundo. Outros pontos daquela entrevista serão resgatados no portal CapitalSocial, prestes a ser lançado por este jornalista. A exibição permanente daquele trabalho jornalístico num portal de tecnologia que não admite fronteiras é muito mais que a captura do passado. Deveria servir também de base para reposicionamentos do Clube dos Prefeitos, fechadíssimo à comunidade.


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