Regionalidade

Um campeonato sem marmelada,
transparente e repleto de emoções

DANIEL LIMA - 03/12/2010

Não, não estou falando de futebol, escancaradamente no acostamento ético e moral. Estou escrevendo sobre o Campeonato de Fatos Mais Positivos e Mais Negativos da Primeira Década do Século XXI no Grande ABC. Viram como inventei uma marca para a disputa que está a todo vapor entre conselheiros editoriais da revista LivreMercado? Isso mesmo: desde ontem os 114 formadores de opinião no Grande ABC reagrupados no conselho da revista que voltará a debater as principais questões regionais estão debruçados na lista dos cinco enunciados mais positivos e mais negativos que resultaram da relação original composta de 34 acontecimentos, metade positiva, metade negativa.


Querem saber por que há emoções em jogo, além de uma agenda jornalística, institucional, política, acadêmica, social e o escambau que ninguém pode negar?


Vejam só então os cinco finalistas dos casos mais positivos que o Grande ABC vivenciou entre 2000 e 2010:


 


bullet_quadrado Chegada do trecho sul do Rodoanel.


bullet_quadrado Eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


bullet_quadrado Chegada da Universidade Federal do Grande ABC.


bullet_quadrado Índices de criminalidade drasticamente rebaixados.


bullet_quadrado Implementação do Hospital Regional Mário Covas.


 


Repararam como a parada é dura para hierarquizar esses enunciados de modo a estabelecer, com perdão da redundância, valores diferenciados a distingui-los?


 Sim, porque cada conselheiro está a definir pesos diferentes aos cinco anunciados. Entre parênteses eles anotarão números de 1 a 5 — (1), (2), (3), (4) e (5) — antes de remeter as respostas a este jornalista. A soma de pontos decidirá a ordem classificatória. Sem maracutaia, sem corpo mole, sem arbitragem suspeita, sem pressão da torcida, sem nada daquilo que estamos cansados de assistir no futebol seja a disputa em mata-matas ou em pontos corridos — porque basta aparecer a ocasião para se fazer a sacanagem.


Os mesmos critérios vão prevalecer nos cinco pontos listados como os mais negativos da década no Grande ABC. Vejam só que briga de foice no escuro em que meti os conselheiros. Sim, briga de foice no escuro porque eles têm de posicionar-se e de estabelecer juízo de valor para efeito de pontos ganhos. Eis a lista:


 


bullet_quadrado Comprometimento da logística interna do Grande ABC por falta de investimentos municipais e regionais.


bullet_quadrado Descompasso da Agência de Desenvolvimento Econômico, Clube dos Prefeitos e Câmara Regional em relação às prioridades regionais.


bullet_quadrado Assassinato do prefeito Celso Daniel.


bullet_quadrado Baixa produtividade regional dos deputados estaduais e federais do Grande ABC.


bullet_quadrado Falta de ações relevantemente práticas e de perspectivas de ocupação econômica e social ambientalmente sustentável da Represa Billings e de outras áreas de mananciais.


 


Repararam só na carga de adrenalina que os conselheiros descarregarão ao se dedicarem a decidir essa disputa sensacional para quem leva o Grande ABC a sério, a sério mesmo?


Tenho cá comigo o favorito tanto para o primeiro lugar entre os fatos positivos como o favorito entre os fatos negativos, mas não vou expor opinião alguma até que o prazo a escolhas seja encerrado, na próxima quinta-feira, nove de novembro.


Ou melhor: como caberá exclusivamente à revista LivreMercado a divulgação do ranking, inclusive com os demais enunciados que concorreram na primeira etapa mas não passaram pelo critério classificatório, vou me posicionar criticamente apenas depois que a publicação entrar em circulação. Nem em off me permitirei qualquer tipo de comentário.


O que posso afirmar antecipadamente é que minha opinião pessoal coincide com a decisão de vários conselheiros que já encaminharam respostas. Menos mal que não estou sozinho.


No fundo, no fundo, estou desconfiadíssimo de que haverá convergência entre mim e eles, mas isso, como expliquei no texto de ontem, não tem importância alguma porque, como disse, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Ou seja: uma coisa é a vontade do Conselho Editorial, outra coisa é a vontade do inventor desse agendamento jornalístico travestido de competição-cidadã.


Competição-cidadã? Sabem os leitores que usei essa expressão quase que involuntariamente, coisa saída da cabeça assim meio sem pensar. Se procurar um psicanalista, certamente ele dirá que há fundas ramificações infantis. Menos mal que minhas lembranças de criança sejam mais agradáveis e mais produtivas que as do Gerson da novela das nove, adepto de sexo sujo.


Desde a infância, acreditem, não perdia tempo. Sempre estava a inventar alguma brincadeira nova. Tempos saudosos, de enxurrada de irmãos, de peladas sob a luz de postes depois das aulas noturnas, de radinho de pilha colado ao ouvido para acompanhar jogos do time do coração, tempos também de dificuldades financeiras na pequena Guararapes, interior de São Paulo. Fazia de tudo para me divertir e me ocupar, sem jamais ter matado um passarinho. Até time de futebol montei aos 13 anos, o Olaria Futebol Clube, com camisa e chuteiras de verdade. Quando a criatividade estava em baixa, eis que um dos sete irmãos socorria os demais. Não faltava passatempo.


Acho que daqui a uns 30 anos vou contar para os meus netos, que ainda não os tenho, que por volta de 2010 inventei uma brincadeira chamada Campeonato de Fatos Positivos e Negativos da Primeira Década do Século XXI no Grande ABC. Vou entregar a eles todas as planilhas e mensagens dos meninos e das meninas que compartilharam comigo aquele entretenimento muito sério no Grande ABC. Vai ser uma maravilha.


Tomara que nossos herdeiros, meus e de meus companheiros de cidadania divertida, tenham motivos para comemorar a vida no Grande ABC, porque se a coisa aqui não tá tão preta quanto na música de Chico Buarque, também está distante do tom desavergonhadamente cor-de-rosa dos triunfalistas de sempre que, ao primeiro sinal espasmódico de uma boa notícia, já generalizam.


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