Regionalidade

República de papel e
Republiqueta de ações

DANIEL LIMA - 28/10/2003

Por que o livro que lanço esta noite no Teatro Municipal de Santo André chama-se República Republiqueta? Poderia reproduzir aqui neste espaço o texto que preparei para a obra, a título de apresentação. Entretanto, decidi por mais uma incursão, cujo resultado conceitual será o mesmo, embora provavelmente utilize enunciados diferentes na forma. Sim, porque escrever sobre um mesmo assunto sem fragilizar a consistência teórica é como dirigir-se ao trabalho diversificando o itinerário. Trata-se de espécie de desafio de descobrir novos figurantes que confirmam o caos do cotidiano metropolitano. 


 


República Republiqueta é flagrantemente uma provocação associada aos preceitos do papa da regionalidade, o norte-americano Michael Porter, para quem uma sociedade só é capaz de reagir para valer quando em estado de tensão. Já há muito tempo ultrapassamos os limites do anestesiamento. Falta, entretanto, adrenalina à reação mais que justificada, porque já tardia. Afinal, o Grande ABC vive seguramente o mais dramático de seus dias. A taxa de desemprego atinge 22,2%. São águas do incauto e covarde vazamento de oito anos do valor da transformação industrial. Perdemos, como se sabe, 39% do PIB industrial. Então, não teria cabimento correr na contra-mão da sensatez e lançar um produto que ludibriasse o distinto público em nome de um resgate profano da auto-estima vilipendiada não pela parte da riqueza que se foi, mas pela omissão aconchavada que permanece.


 


A essência de o Grande ABC ser essa dualidade só aparentemente incompreensível de República Republiqueta está na contradição de reunir série de atributos da formosa República e, malditos divisionismos, entregar-se de corpo e alma à esculhambação de Republiqueta. Somos pioneiros numa série de iniciativas, nos lambuzamos com a publicidade que se dá em torno dos projetos e, na sequência, como réplica da maldição de Sísifo, nos enroscamos em nossas próprias pernas e reiniciamos novas jornadas, agora sentindo o peso do desconsolo.


 


Somos espécie de aprendiz de malabarista que, à falta de humildade e preparo, insiste em atirar em círculos cinco bolas sequenciais e, aparvalhado, deixa-as escapar todas, em vez de, com perseverança, dominar o destino repetitivo de um exercício  factível quando individualizado, mas complexo ao multiplicar-se. Trombeteamos nossas idéias com tamanha insistência que, no imaginário coletivo, acabamos por resolver virtualmente todos os nossos problemas. Somos República no papel e Republiqueta nas ações.


 


Somos República Republiqueta porque achamos que somos República na força coletiva de sete municípios que representam o quarto potencial de consumo do País mas nos transformamos em Republiqueta quando não conseguimos dar conta de nossas fragmentações territoriais, gênese do separatismo institucional, cultural, econômico e social. Vivemos sonhos de República unida e enfrentamos o pesadelo da Republiqueta fatiada. Deliciamo-nos com a estrutura de grandiosidade de sete municípios entrelaçados na cartografia e nos defrontamos com o azedume do erguimento de muralhas autárquicas.


 


Corporativismo nacional


 


Seria demais acreditar que deixaríamos de ser República Republiqueta se além do enclausuramento territorial disfarçadamente negado em parcas costuras institucionais não sofrêssemos ainda da velha enfermidade nacional em forma de corporativismo. Juntem fragmentação com corporação e tenham, sem desconto de ocasião, a síntese de nossa deformação.


 


A pior das medidas que se deve tomar para resolver nosso caso complicado é não só negar nossos pecadilhos como transformá-los em predicados. O Grande ABC é um caso especialmente singular na geografia nacional porque é uma megacidade dividida em sete pedaços. O separatismo político-administrativo, fenômeno sobre o qual ainda vou me debruçar para exarar ponto de vista que começo a esquadrinhar, causou danos institucionais provavelmente irrecuperáveis. O último agente público que tentou reconverter o que a legislação e os interesses diversos separaram morreu assassinado pouco depois de provavelmente dar-se conta que malhava em ferro frio.


 


Ou estaria exagerando este jornalista em afirmar com todas as letras que o inesquecível prefeito Celso Daniel foi, na esfera pública, o grande disseminador da construtividade regional? Quantos sonhos Celso Daniel cultivava em ver o Grande ABC marchando no mesmo passo de objetivos bem definidos e acima do bem e do mal dos desvios individuais? Celso Daniel se deu tanto à regionalidade que, nos dois últimos anos, ao recolher o trem de pouso e fixar plataforma administrativa na Santo André que o elegera pela terceira vez prefeito, simplesmente reagiu à lógica de que quem insiste em dar murro em ponta de faca requer internação psiquiátrica.


 


A República que Celso Daniel tanto imaginava ajudar a construir no Grande ABC ainda é a Republiqueta que tantos outros agentes políticos, econômicos, sociais e culturais aprofundam raízes com omissões descaradas ou ações exclusivistas. Somos Grande ABC República apenas na identificação da nomenclatura, porque de fato não ultrapassamos o mata-burros da Republiqueta que se fecha em torno de sete beligerantes geografias. Nem nos damos ao luxo de sermos cabo-de-guerra, porque a metáfora transportaria a imagem de três de um lado e quatro de outro, quando temos, de fato, cada um para si e Deus para todos. Nem mesmo as cinco administrações petistas, que dominam os sete paços municipais, conseguem harmonizar objetivos regionais. O sufoco do dia-a-dia de prefeituras que sangram perdas do ICMS e correm atrás de soluções de impostos caseiros para compensar parte do prejuízo as coloca em cantos distintos do ringue regional. 


 


Na medida em que escrevo, mais me convenço ser possível que chegue à conclusão, num próximo artigo, de que a febre separatista que atingiu o território da antiga Santo André da Borda do Campo se traduziu na essência de nossas debilidades. Dirão os opositores dessa idéia que a Capital tão próxima, única em territorialidade, também reproduz grande parte de nossas mazelas sociológicas. Estarão certos os oponentes. Mas a tréplica também é portentosa: a diferença é que o Grande ABC Republiqueta além dos danos históricos da genética colonialismo que o abateu, acrescenta o oportunismo político-administrativo das sangrias geográficas imunes na Capital.


 


Migalhas festejadas


 


O Complexo de Gata Borralheira que abate a República Republiqueta sufoca nossas pretensões. Satisfazemo-nos com pouco ou quase nada que nos repassam os governos estadual e federal. Algumas migalhas são atiradas vez ou outra e festejamos ruidosamente. Contemplam-se uma vez e outra algumas individualidades políticas e nos damos por felizes. As graves questões estruturais que nos abatem e aprofundam nossos pés no terreno movediço da quebra persistente de nosso dinamismo econômico são subestimadas nos diagnósticos e esquecidas no tratamento. Navegamos no varejo e afundamos no atacado.


 


Só deixaremos de ser Republiqueta quando perdermos a mania de acreditar que chegaremos à República sem metodologia e sem conceito. Quanto mais nos especializamos em fazer de conta que nadamos de braçadas como símbolo de República, mais morremos afogados na correnteza de Republiqueta. Ainda não nos damos conta de que o que imaginam que seja o nosso grande trunfo -- a grandiosidade de sete municípios conjugados -- em realidade se tornou nosso cadafalso. Somos rigorosamente patéticos na execução de medidas compartilhadas, embora, deva-se reconhecer, não faltem especialistas em oferecer a moldura de integração. Não fosse a dificuldade de conciliar as dimensões de interesses territoriais específicos, sempre maiores do que as possibilidades práticas e sempre menores do que as necessidades conjunturais e estruturais, tudo seria perfeito.


 


República Republiqueta é um grito de inconformismo contra a estupidez de sete pedaços frágeis que insistem em se manter individuais, quando teriam tudo para, somados, multiplicarem soluções que 2,4 milhões de pessoas tanto esperam.  


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