Estaria correto o eleitorado da região em escolher Lula em larga escala, confiando na possibilidade de que, animal político destas plagas, ele honrará sua história regional e dará ao Grande ABC ferramentas que possam nos tirar do atoleiro em que nos encontramos?
Terão Lula da Silva e seus amigos sindicalistas e intelectuais da região a sensibilidade de manter, senão os pés, pelo menos o coração num território que foi massacrado economicamente desde a implantação do Plano Real?
Sindicalistas e intelectuais muito próximos de Lula da Silva asseguram que o Grande ABC deixará de ocupar o quarto de despejo institucional em que sempre foi atirado na geopolítica estadual e federal caso o tetracandidato à presidência da República prove que não tem vocação a Jair Picerni. Isto é: se não tropeçar pela quarta vez seguida na carreira rumo a Brasília.
Está certo que Lula da Silva terá imensidão de problemas para cuidar num País igualmente imenso, que as pressões e contra-pressões poderão levá-lo a enxergar o mapa do Brasil sob conceitos diferentes daqueles dos tempos de metalúrgico e líder sindical. Aliás, recentemente disse ele isso com todas as letras. Em linhas gerais, afirmou numa entrevista ao Sindiquim, publicação do Sindicato dos Químicos da região, que um presidente de sindicato é essencialmente corporativo, enquanto um presidente da República é obrigatoriamente coletivo. Algo, conclui este jornalista, como um fanático torcedor de futebol que só enxerga os jogadores de sua equipe durante os 90 minutos, ao contrário dos treinadores, artífices de guerrilhas.
Mesmo admitindo a possibilidade de Lula esquecer-se ou não se prender especificamente ao Grande ABC, engolfado pelas turbulências de um País que nos últimos anos recorreu três vezes aos cofres do FMI para não entrar em concordata, mesmo assim é possível sim, diante de vitória petista à presidência, Lula prestigiar a região.
Como? Basta que seus aliados locais consigam engendrar medidas que extrapolem os próprios muros partidários e, observando a região sob ótica pluralista, finquem estacas em Brasília. A permissividade com que o governo FHC tratou abusadamente o Grande ABC é consequência não só do jogo de interesses brasilienses e internacionais mas também da apatia e da desintegração institucional do Grande ABC.
Nem mesmo uma audiência com os prefeitos, sugerida pelo presidente do Consórcio Intermunicipal, Luiz Tortorello, encontrou espaço na agenda do titular do Palácio do Planalto. Talvez tenha sido até melhor, porque a iniciativa em final de mandato presidencial pouca importância resultaria quando se sabe que o presidente tem-se dedicado já há bom tempo à tarefa de costurar carreira pós-Brasília.
Espera-se, diante de eventual vitória de Lula da Silva, que o Grande ABC tenha o mínimo de capacidade institucional para tornar as relações com o poder central mais que ação bilateral de medidas entre o staff do possível presidente egresso da base metalúrgica e seus aliados locais. Não poderíamos deixar escapar a primeira oportunidade que se nos apresenta para, finalmente, o Grande ABC ter voz em Brasília. Seria a confissão tácita do gataborralheirismo incurável a região limitar-se ao coral petista, por mais afinado que eventualmente seja. Nossos problemas são complexos demais e, como tal, exigem orquestra de um capital social cooperativo e acima de cores partidárias.
Agora, se Lula da Silva perder para o candidato situacionista, quem garante que não continuaremos chupando os dedos?
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09/04/2026 SERÁ QUE FINALMENTE ESTAMOS DESPERTANDO?